Baroness e Torche ao vivo em Madrid

Os norte-americanos Baroness e Torche são duas das novas faces do metal contemporâneo, rasgado por elementos rock clássicos e progressivos. No limiar da tradição e da inovação, ambos conduziram em Madrid uma actuação energética, suada e cujo impacto foi fisicamente palpável nas dezenas de pessoas que compareceram no concerto.

:: 19 de Outubro de 2006

Se as digressões dos nomes mais sonantes do panorama musical actual contemplam de igual forma Portugal e Espanha, o mesmo já não se pode dizer dos artistas de menor projecção ou sucesso comercial. É aqui que Madrid se destaca de Portugal (sim, comparo uma cidade a todo um país intencionalmente) – no fluxo de concertos. Assim se justifica a passagem dos norte-americanos Torche e Baroness, dois dos novos valores do metal contemporâneo e que têm ganho importância pouco a pouco junto dos mais atentos e dos mais interessados.

Nas ruas molhadas da antiga Madrid, a sala Astoria Nasti refugia-se num prédio de paredes sujas. A sua porta vermelha, embutida no edifício, está coberta por graffitis e autocolantes. Decoração urbana. Mas nada revela a sua verdadeira identidade. É através do pequeno aglomerado de pessoas, algumas já conhecidas de outras noites na cidade, que acreditamos ter chegado ao local do concerto.

O seu interior é quase tão descuidado como o seu exterior, mas oferece uma dinâmica interessante entre artista e audiência, entre sujeito e objecto poderá dizer-se. A sala estende-se ao comprimento e em ambos os lados existem estrados. No lado direito, situaram-se as bandas, rodeadas por todo o material de amplificação. O público repartiu-se pelo restante espaço, ficando disposto quase como num anfiteatro, rodeando o “palco”. Com bandas como Torche e Baroness, que apostam num metal musculado e com groove, esta disposição facilitou e engrandeceu a descarga sonora de música.

Os espanhóis Kentucky Fried Sheriff tiveram a difícil tarefa de abrir o concerto. Com uma atitude algo displicente, os quatro madrilenos despejaram meia dúzia de músicas que combinavam um crust com grindcore e noise, mas que pouco interesse suscitou.

Algo limitados a nível técnico e apáticos em palco, a violência que queriam transmitir pela sua música acabou por se dispersar pela pequena sala. Ainda assim, nalguns momentos mais espaçados e arrastados, onde se notaram as influências das novas sonoridades post-metal, conseguiram fazer mover a audiência. Em suma, um concerto razoável de uma banda caseira. Demasiado caseira talvez.

De forma bastante natural, sem roadies ou pessoal adicional, os Torche montaram o seu cenário e prepararam-se para baptizar Madrid com um stoner metal musculado. Cobrindo grande parte do seu disco de estreia auto-intitulado, o concerto dado pelo quarteto americano foi uma celebração do metal cru, directo e grave, ou melhor, gravíssimo. Após uma pequena introdução instrumental para definir o ambiente, os Torche arrancam sem tréguas com “Safe”. O pedal duplo de Eric Jason (que substituiu o adoentado Rick James) pareceu socar individualmente cada um dos presentes na Astoria. As guitarras subiam ao ar e Juan Montoya tanto se encontrava em palco como junto ao público, fazendo deslizar pelas suas mãos músicas como “Mentor” ou “Rockit”.

Mas o concerto não esteve sempre no limiar da alta tensão – houve momentos mais apaziguadores, composições que jogavam com os silêncios, delays e que preparavam para um arranque feroz que parecia ser sempre maior. Mesmo com a voz de Steve Brooks bastante mal amplificada, as músicas conseguiam revelar-se com dimensões mastodônticas. Para o comprovar, o final do concerto foi composto por “Charge Of The Brown Recluse” e “Holy Roar”. A guitarra de Montoya alterou-se, passou a ser um bicho que soltava rugidos de baixa frequência e que confundiam o sistema nervoso. Se consegui ver bem, a sexta corda daquela guitarra não era normal… tinha sofrido um qualquer processo de metamorfose. Impressionante.

Um concerto feito de suor e energia palpável, que conseguiam seduzir vários dos presentes que simplesmente desconheciam a música dos Torche.

Não havia tempo para encores. O público estava satisfeito e de seguida o espectáculo continuaria pela mão dos Baroness. O início do concerto seguiu o começo do seu primeiro EP, First (2004), isto é dizer que tocaram “Tower Falls” e “Coeur” de seguida, como sempre deverá ser. As duas faixas são como dedos de uma mesma mão, complementam-se perfeitamente. E que início! Estas duas músicas são viscerais e conseguiram algemar o público à banda até ao final do concerto. Com a entrada de “Coeur” já toda a sala abanava coordenadamente a cabeça, como se todos fossem uma orquestra e os Baroness o maestro.

Não são de estranhar as comparações feitas aos Baroness com os seus conterrâneos e antecedentes Mastodon. A música tem na sua essência os elementos clássicos do metal e a energia espontânea do rock. Na bateria, esquece-se a velha escola e irrompe-se por inquietos padrões e imprevisíveis quebras. A actuação foi um espelho desta junção quase perfeita. Os cabelos serpenteava e esvoaçavam, os ritmos aceleravam vertiginosamente e interrompiam-se em contra-tempos e as guitarras jogavam entre melodias técnicas e riffs fartos e espessos em peso. Era comum encontrar John Baizley e Brian Blickle alternarem entre si o comando das músicas, como meninos que brincam no intervalo. O recreio era o palco e a música o seu jogo. Com algumas falhas, claro está, mas tudo funcionou bem. “Red Sky” e “Rise” tiveram uma avassaladora presença e no desenrolar do concerto houve também espaço para as músicas mais apaziguadoras e ambientais. Talvez não seja neste campo em que os Baroness se destaquem, mas funcionavam como uma boa plataforma de lançamento para os riffs suados e destrutivos. Acima de tudo, pretendia-se fazer metal. E cumpriu-se.

Não é por acaso que os Torche e os Baroness estejam em processo de ascensão enquanto bandas, conseguindo sair do underground norte-americano para navegar até terras europeias. A frescura da sua música não faz esquecer a escola do passado, a forma original e a pureza de espírito, pelo contrário, faz com que se perpetuam e elevem. Tanto em álbum como ao vivo esta qualidade é evidente. Esperemos que não se perca com o avançar dos anos.

Texto e Fotos: Gonçalo Sítima

Anúncios

~ por hiddentrack.net em 19, Outubro, 2006.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: