Ryan Adams – Gold

A nova vaga de cantautores (norte-americanos e não só) tem trazido ao nosso ouvido alguma da melhor música dos últimos tempos. Desde Josh Rouse a Rufus Wainwright, o leque de escolha revela-se cada ano mais alargado. E não é que quantidade chega a ser sinónimo de qualidade?

Este segundo trabalho de Ryan Adams confirma-nos aquilo que escutáramos em Heartbreaker (2000). Adams é um cantor de vários recursos, quer vocal, quer musicalmente. Daí que o alinhamento um pouco extenso de Gold não seja cansativo.

O single de apresentação foi “New York, New York” e é também a música de abertura deste longa-duração. Aqui, sobressai a voz de Ryan Adams que deambula por vários tons, sem nunca perder o norte. Na faixa seguinte, há “dylanada” (com a inevitável harmónica de boca) a abrir e que se vai repetindo a longo do tema. “La Cienega Just Smiled” é uma balada e vai direitinha para a gaveta das mais íntimas deste disco. “Neither of you really help me to sleep anymore / One breaks my body and the other breaks my soul / La cienega just smiles as it waves goodbye”. Fulminante.

Aliás, Gold é marcado por dois sub-géneros da pop: pop veraneante (ouça-se “Somehow, Someday”) e pop intimista (“Harder Now That It’s Over”). Ryan Adams está sempre de flecha em riste, pronto a disparar ao coração dos apaixonados, ou de quem procura a paixão. É que este rapaz de Jacksonville, Carolina do Norte, acaba de sair de uma relação, tal como tinha acontecido aquando da edição do debutante Heartbreaker.

“SYLVIA PLATH”, assim mesmo, escrito a maiúsculas, é a imaginação de um momento a dois, com uma tal de Sylvia Plath. “I wish I had a Sylvia Plath / Busted tooth and a smile (…) And maybe she’d take me to France / Or maybe to Spain and she’d ask me to dance / In a mansion on the top of a hill (…) And she and I would sleep on a boat / And swim in the sea without clothes / With rain falling fast on the sea.” Afinal, quem não é sonhador?.

Em “Enemy Fire”, Ryan Adams abre a porta a um pop-rock sofisticado. “Harder Now That Is Over” é uma música confessional e desiludida. Sem esperanças, porque elas foram desvanecendo-se. Apenas desgostos. “I wish you would’ve grabbed the gun / And shot me ‘cause I died / And I’m nothing without you / Yeah, I’m less than nothing now.”

“The Toledo’s Street Walkin’ Blues”, como o próprio nome indica, navega pelo blues de forma mais ou menos descarada e chega a passear de mãos dadas com um country rock – o sotaque tipicamente norte-americano não engana – à… Ryan Adams.

O disco começa em Nova York e encerra em Hollywood. Uma viagem longa, que pode durar vários meses ou anos. Tudo depende do número de vezes que escutarmos o CD.

Este álbum marca, sobretudo, pela sua intimidade em forma de pop-rock, ora experimentando caminhos sombrios, ora experimentando paisagens alegres e límpidas. É claro que a capacidade vocal de Ryan Adams é uma ajuda preciosa: é rouca e aveludada. E porque é deveras eclética.

O que mudou de Heartbreaker para este Gold foi a editora – a anterior era a Bloodshot Records. A qualidade, essa, mantém-se. Ah, e nada de confusões com um Bryan que tem o mesmo apelido.

8/10 | Pedro Correia

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~ por hiddentrack.net em 27, Outubro, 2006.

 
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