Tool ao vivo em Madrid e em Lisboa

Depois do concerto em Maio, em ambiente de festival, alguém achou por bem que os Tool regressassem para um concerto em nome próprio, com abertura a cargo dos conterrâneos Mastodon. Uma noite de fenómenos celestes, com os Tool como estrelas maiores da constelação.


:: 4 e 5 de Novembro (La Cubierta, Madrid e Pavilhão Atlântico, Lisboa)

Duas noites

Novembro marcou o regresso dos Tool à Europa, meio ano depois do lançamento do mais que aguardado trabalho do quarteto, 10,000 Days. Madrid e Lisboa tiveram a honra de receber os primeiros concertos da banda, desta vez em ordem inversa. Como banda de abertura (uma necessidade questionável) os Tool convidaram os Mastodon, também eles com novo álbum – Blood Mountain – rodeado de grandes expectativas.

É urgente apontar que qualquer coisa falhou, em Madrid e em Lisboa, no que diz respeito aos horários de abertura dos recintos e da hora a que os Mastodon entraram em palco (foram praticamente coincidentes!). Ajuntamentos descomunais no exterior, enquanto um público reduzido (face àquele que aguardava à entrada) assistia ao concerto da banda de Atlanta. Em Madrid, restou “Hearts alive”, do soberbo Leviathan (2004). No dia seguinte, em Lisboa, o estrago ficou minimizado e ainda foi possível assistir à maior parte da actuação dos Mastodon.

Aparentemente e com algum espanto, verificou-se que o trabalho da banda passa bastante despercebido por cá (“Eles são suecos?” perguntou alguém ao meu lado), apenas com alguns entusiastas mais ou menos dispersos. Apesar das falhas (os chamados pregos) em “Megalodon” e da falta de atenção de que foram alvo, os Mastodon fizeram o que tinham que fazer. Foram quase brutos (num bom sentido) no ataque, mesmo com o som já característico do Pavilhão Atlântico a traí-los. “Colony of birchmen”, “Capillarian crest” e “Seabeast” vestiram de monstruosidade a actuação da banda, onde Brann Dailor é o comandante do navio dos Mastodon. Um ponto final semelhante ao da noite anterior, que curiosamente se revestiu de uma estranha perfeição e que deixou alguma água na boca na expectativa de poder voltar a ver os Mastodon em circunstâncias diferentes.

Depois dos preparativos que rodeiam os grandes banquetes, passavam alguns minutos das dez da noite quando as luzes se apagaram (um horário cumprido ao milímetro em Madrid e Lisboa). A cerimónia ia começar.

Os Tool fizeram questão de não mexer no alinhamento que apresentaram na Primavera, o que foi ponto negativo dos concertos, sobretudo quando se fala dos Tool – geniais álbum após álbum e onde variar não quer dizer que se vão perder momentos imprescindíveis. E se podia haver queixas em relação ao alinhamento, não pode haver relativamente ao que se passou durante a hora e meia seguinte. Vale a pena apontar que o concerto de Lisboa esteve mais perto da perfeição que o de Madrid, sobretudo em dois aspectos: o som, que melhorou estranhamente em Lisboa (em Madrid, muitas foram as vezes em que a voz de Maynard James Keenan foi abafada pelo baixo de Justin Chancellor); e os próprios Tool, aparentemente mais descontraídos do que na noite anterior. Estes foram os parâmetros em desacordo nos dois concertos.

“Stinkfist” foi o tema que serviu de abertura para um universo que apenas os Tool conseguem criar: denso e vibrante, de uma sensualidade estranha e que acima de qualquer coisa nos desperta para uma experiência extra-sensorial. Maynard James Keenan abandonou o chapéu da digressão anterior e surgiu com uma máscara de gás que lhe escondeu a expressão durante todo o concerto, não eliminando porém todas as movimentações que já lhe são características, numa espécie de bailado alienado.

É complicado eleger momentos altos num espectáculo como o dos Tool. Ainda que as oscilações de ritmo possam ser muitas, as sensações que flutuam são igualmente fortes e atingem sem cerimónia todos os nossos sentidos.

“Forty six & 2” protagonizou um dos mais impressionantes momentos do espectáculo (visualmente irrepreensível), a fazer uso de todos os dispositivos e a deixar brilhar Justin Chancellor, absolutamente descontraído e a simplificar toda a complexidade que transpirava das cordas do baixo.

“Jambi” e “Schism” foram minutos de sublimação. O desvio feito em “Schism” já conhecido de quem os tinha visto em Maio deixa qualquer um deslumbrado, culpa essencialmente do baterista Danny Carey, que se mostrou um domador perfeito da sua assustadora bateria. Adam Jones continua a ser o elemento mais distante, quase como se os músculos da sua cara tivessem atrofiado e a sua expressão tivesse ficado para sempre aquela. Não passou despercebido, dado o protagonismo em “Jambi” com a talk box, mas passou encoberto por uma enorme dose de discrição.

“Rosetta stoned” terá sido provavelmente o momento mais oscilante de todo o concerto, dado que é um tema longo, denso e por vezes difícil de acompanhar, com Maynard de megafone na mão. Deu o mote para a descoberta do cenário por detrás dos ecrãs (onde eram projectadas imagens relacionadas com a vida extraterrestre) e que deixou à mostra parte do impressionante artwork de 10,000 Days.

“Sober” foi a visita a Undertow (1993), com os níveis de (alta) tensão a subirem para serem depois descarregados intensamente em “Lateralus”, que continua a ser indiscutivelmente o melhor tema ao vivo dos Tool, que nos transporta indubitavelmente para dentro de uma espiral e que nos cospe no fim. Um momento de rara perfeição, onde o quarteto simplesmente absorveu toda a energia que se adensou durante os minutos anteriores para fazer nascer um instante de luz. Perfeito.

Para o fim ficaram “Vicarious” e “Ænema” que mantiveram o intenso ambiente que se havia criado e onde sobressaiu mais uma vez o colossal Carey, muito embora os dois últimos temas da banda tenham sido prova (se ainda houvesse questões) que os Tool são um caso raríssimo de criatividade, genialidade e portadores da capacidade de criarem mais que um concerto, uma experiência que desgasta e alimenta todos os poros da nossa pele.

Alinhamento (Madrid e Lisboa):
“Stinkfist”
“The pot”
“Forty-six & 2”
“Jambi”
“Schism”
“Lost Keys (Blame Hofmann)”
“Rosetta stoned”
“Sober”
“Lateralus”
“Vicarious”
“Ænema”

Texto: Susana Jaulino
Fotos: João Alves

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~ por hiddentrack.net em 5, Novembro, 2006.

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