Guillemots – Through The Windowpane

Há bandas que nos marcam para a vida, há bandas que gostámos mas já nos passam ao lado… há um número muito pequeno de bandas que ouvimos e nem conseguimos pensar sobre seja o que fôr!

Guillemots… Esta é uma daquelas que nos obriga a um corrupio de sentimentos, da melancolia à euforia, sem passar pela casa de partida. Um inglês, um escocês, uma canadiana e um brasileiro (que vem do death metal!) forçam-nos a ouvir sem cessar o pequeno monstro de 60 minutos que criaram.

Tudo começa com “Little Bear”, de piano tremido e voz moribunda que nos inicia neste mar conturbado para nos levar a um destino de violência eufórica. “Made Up Love Song #43” encanta pela sua sóbria alegria (quase nos leva a pensar que a vida pode ser isto) e “Trains to Brazil”, pela antítese de um ritmo contagiante, e um significado lírico tão crítico quanto cruel.

Completa-se uma volta de 360 graus. A maníaco-depressão depressa nos atinge com “Redwings”, onde a condição humana é posta em causa e nos transporta para “Samba Through in the Snowy Rain”, cujo coro proporciona uma aconchegante maré revoltada a espaços por instrumentos dilacerantes. Depois de mais uma “viagem” chega o positivismo de “Through the Windowpane”, um convite para entrarmos na cabeça distorcida de Fyfe Dangerfield. “If the World Ends” é um anti-depressivo que nos deprime. Uma das mais geniais letras de amor ultra-romântico (amar, só a sofrer) e uma instrumentalização sublime a ponto de desejarmos a nossa morte. Mas o mundo não acabou… ainda (!). Ouve-se na voz de um garoto que nos faz re-acordar para “We’re Here”, um arrepiante (literalmente) exercício de colocar nas nossas mãos o poder de controlar o (nosso) mundo (“And nothing here’s worth winning without a fight”). Era bom que tal acontecesse…

O realismo metódico de “Blue Would Still Be Blue” impõe uma voz ansiosa que culmina em raros esganiços mórbidos. A mensagem de “Annie, Let’s Not Wait” impele-nos a ver o quão curta é a vida e o quanto a desperdiçamos. “And If All…” introduz “San Paulo” (e se tudo fosse… São Paulo). Nada nem ninguém nos prepara para tamanho rasgo de genialidade. 11 minutos que se sobrepõem à nossa própria existência. Uma correria de sentimentos desconcertantes apressa-se para nos espezinhar (o pior é que se vai adorar). Juro a pés juntos que houve religiões que começaram por muito menos.

Enfim, quem consegue sobreviver aos 59:59 deste álbum vai desejar repetir a dose, e repetir, e repetir, e repetir, porque a música não foi feita para se gostar, mas sim para nos devorar com um apetite de gigante, porque ela o é. Os Guillemots são daquelas bandas que produziram algo maior que eles próprios e nos abençoam com esta magia. Não só para ter, é para partilhar com o mundo.

9/10 | Pedro Magalhães

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~ por hiddentrack.net em 9, Novembro, 2006.

 
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