Toranja ao vivo no Casino de Lisboa

A música também pode ser um vício. Que o digam aqueles que esta segunda-feira se dirigiram ao Casino de Lisboa, não para ocupar um lugar em frente a uma qualquer máquina de jogo, mas para procurar o melhor espaço nos três pisos do edifício e assistir ao que foi, possivelmente, o último concerto dos Toranja este ano.

:: 13 de Novembro de 2006


Noite de requinte

O espaço consegue deslumbrar por si só. Minimalista e refinada, a arquitectura do Casino privilegia espaços amplos, altos e transparentes, onde a junção dos pisos e paredes de vidro se faz em mutações cromáticas que podem levar à alienação. É neste ambiente esplendoroso que encontramos o Arena Lounge. Um palco redondo, rodeado de mesas – reservadas – que sobem até ele numa espécie de espiral. Os pisos superiores debruçam-se sobre este permitindo diferentes concepções do palco e de todo o espectáculo.

Passavam dez minutos da hora prevista quando as luzes baixaram e os Toranja subiram ao palco. Tiago Bettencourt, Ricardo Frutuoso, Dodi e Rato ocuparam os seus espaços virados para o centro do palco e soaram os primeiros acordes de “Tempos Adversos”. Iniciava-se assim a noite em marcha lenta. Tanto que não foi suficiente para silenciar o burburinho de conversas de mesa que se ouviam um pouco por todo o lado. As condições sonoras também não eram as melhores, mas foram aperfeiçoadas no desenvolver do tema. A atenção do público foi sendo cativada num crescendo bastante rápido. Depois do primeiro impacto seguiu-se “Ciclo” e com a “Cenário” já ninguém ficava indiferente ao que se passava em palco. A Arena passou a ser, então, mais do que o centro físico do Casino. Nela se concentravam todas as atenções e a vibração dos corpos.

O primeiro momento alto da noite dá-se com a inevitável “Carta”. O público cantou em uníssono, fazendo vibrar as estruturas envidraçadas do Casino. O tema, tal como o conhecemos do álbum de estúdio, foi entremeado com “É Preciso Ter Calma” de Pedro Abrunhosa, com Tiago ao piano. Uma versão melhorada. Com o final da “Carta” a audiência estremece e há até quem desmaie. Fôlego recuperado, avancemos. São-nos sussurradas palavras de desafio com “Contos” e “Dá-me Ar” e gritos de revolta na “Casca”. Esta dá-nos também dedilhares furiosos de guitarras num dueto entre Tiago e Ricardo que se sucede em imagens projectadas no ecrã gigante.

“Quebramos os Dois”, “a história de um encontro de cinco, dez minutos”, traz uma nova dinâmica à actuação, mas a calma do tema é logo posta de parte dando lugar à fúria contida em “Fome (nesse sempre)”. As vozes soltam-se novamente em gritos de ordem. Não são queixumes, é revolta. Os Toranja são ricos em temas que transpiram esta força e conseguiram manter a audiência neste limbo até ao final.

A noite foi cheia de surpresas. O ambiente e o palco. A gravação do espectáculo para um futuro DVD. Os duetos com Camané. Esta foi a “ideia genial” que os Toranja guardaram para desvendar a meio do concerto. Camané ocupa a cadeira vazia que estava em palco e acompanha na voz “Cada Vez Mais Aqui” e “Laços”. A junção destes dois mundos funcionou na perfeição. Como resultado soaram aplausos por variadas vezes ao longo dos dois temas.

A noite quase que termina ao som de “Só Eu Sei Ver” que ganha uma dimensão superior ao registo de estúdio quando tocada ao vivo. A entrega dos músicos é muita, mas salienta-se principalmente a expressividade de Tiago Bettencourt ao interpretar cada tema. Sai-lhe da alma. Sente-se dor. Fúria. Paixão. Um de cada vez ou todos ao mesmo tempo. Os sentimentos emergem e confundem-se.

O público pede mais e eles, naturalmente, fazem-lhe a vontade. Surge Tiago sozinho e ao piano murmura uma “Música de Filme”. Serena e sofrida, “com vários sentidos, conforme o tempo”, como ele próprio nos diz. Já com os quatro em palco ouve-se “Ensaio”. As palavras são cuspidas impetuosamente, os instrumentos ganham vida própria. Com a música no fim, nasce o ruído que vai subindo de tom até abrir a “Chaga”. O original dos Ornatos Violeta foi o segundo cover apresentado. Antes ouvimos “Canção de Engate” do peculiar António Variações. Na “Chaga” a libertação é total. Já não se toca apenas sentado. Tiago passeia-se entre o público, Ricardo domina o palco numa dança esquizofrénica que se prolonga no “Anjo Perdido”. Passada mais de hora e meia eis que chega o “Fim”. Não se pode pedir mais.

Alinhamento:

“Tempos adversos”
“O Ciclo”
“Cenário”
“Doce no Chão”
“Carta” / “É Preciso Ter Calma”
“Contos”
“Dá-me ar”
“Casca”
“Quebramos os Dois”
“Fome (nesse sempre)”
“Copo Vazio”
“Outro Mundo”
“Cada vez mais aqui” (com Camané)
“Laços” (com Camané)
“Canção de Engate”
“O Sangue que ficou”
“Fogo e Noite”
“Só Eu Sei Ver”
encore:
“Música de Filme”
“Ensaio”
“Chaga”
“Anjo Perdido”
“Fim”

Texto e fotos: Sílvia Dias

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~ por hiddentrack.net em 13, Novembro, 2006.

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