Made Out Of Babies ao vivo em Madrid

São uma das últimas apostas do rock alternativo e agressivo por parte da conhecida Neurot Recordings. Liderados pela desconcertante Julie Christmas, os norte-americanos Made Out Of Babies compareceram em Madrid para um concerto suado e potencialmente inquietante.

:: 22 de Novembro de 2006

De transtorno em transtorno

Os espanhóis Decapante são uma banda monolítica. Na sala Wurlitzer Ballroom demonstraram-no com rude clareza. Esta designação tanto serve para definir a musculada e violenta natureza do seu rock a dois baixos e bateria, como para descrever como as suas músicas são rígidas e monótonas. Foram socos feitos de pedra que não fizeram mais do que embater violentamente contra os tímpanos daqueles que marcaram presença. Sem arte e sem grande engenho.

Quando se escolhe restringir a música a estes elementos, de natureza predominantemente rítmica, exige-se que se consiga ser inventivo. Mas os Decapante limitaram-se a diferenciar os baixos com distorção e a conduzir a bateria com uma previsibilidade mecânica. Ao terminar cada música insistiam em criar algum feedback, numa tentativa artificial de apoteose. Mas o maior desastre surge no final do concerto quando Javier Ortiz e Carmelo del Brio agridem os seus baixos após uma música que pouca intensidade gerou, provocando um franzir de sobrancelha em quase todos os elementos do público. Uma pergunta permaneceu: “porquê e para quê?”

Se o intuito do trio espanhol era simplesmente fazer revibrar o sistema nervoso, sem atingir qualquer um dos neurónios presentes no corpo humano, então o objectivo foi conseguido.

A segunda parte da noite seria preenchida pelos nova-iorquinos Made Out Of Babies, uma das últimas apostas da Neurot Recordings, editora ligada aos gigantes Neurosis. Foi por eles que a maioria das pessoas saiu de casa naquela noite fria de meio de semana. A banda de Julie Christmas ofereceu um concerto que conteve os mesmos defeitos e virtudes que se poderão encontrar nos seus discos.

No lado negativo, o rock sujo e nauseabundo (no bom sentido) dispersa-se demasiado devido aos excessos cometidos pela voz de Christmas. No palco madrileno, os instrumentos não se conseguiram encontrar nem demonstrar de forma eficaz, pois Julie Christmas cantou e falou durante demasiado tempo. Canção após canção, o processo de saturação instalou-se e foi difícil fixar a atenção no que decorria em palco. O lado positivo, no entanto, advém da mesma personagem. Julie Christmas transforma-se num pequeno bicho estranho quando está em palco. Um misto cinematográfico de Carrie com Chucky, inocentemente perverso e femininamente perturbado. Vestidinho vermelho, maquilhagem borrada e olhares que oscilavam entre o medo e a raiva de forma quase aleatória. Tornando-se por vezes demasiado teatral, não deixa de ser uma interessante experiência conviver de perto com a cantora (ou “berradora”) norte-americana.

Numa perspectiva mais pormenorizada, a actuação dos Made Out Of Babies esteve acima da média. As músicas de Coward (2005) e Trophy (2006) foram interpretadas com uma saudável energia e sem grandes desvios. Sem deslumbrarem do ponto de vista técnico, nem se esperava que o fizessem, o quarteto nova-iorquino fez o que lhe competia. Ficou na retina “Silverback”, tocada na recta final do concerto, que inicia com um berro violento de Julie Christmas e que prossegue com semelhante violência musical. Acima de tudo, foi um concerto suado.

A noite tinha-se iniciado de forma hesitante. À hora marcada para o começo dos concertos as portas da Wurlitzer Ballroom estavam rudemente fechadas e assim se mantiveram durante mais de uma hora. A impaciência fez aumentar o desejo de ver bons concertos, de compensação pela espera. Esta expectativa foi correspondida em parte, mas ao regressar-se às ruas do centro de Madrid não foi possível afastar um certo sentimento de insatisfação ou apatia.

Texto e fotos: Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 22, Novembro, 2006.

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