David Fonseca ao vivo na Aula Magna

A Aula Magna foi preparada a rigor para receber todos aqueles que encheram a sala. Lotação esgotada e muitas surpresas num concerto que prometia ser especial, nem que fosse por ser a primeira noite de David Fonseca em Lisboa. A expectativa causada durante os últimos meses – desde o anúncio do concerto – foi superada de forma surpreendente, mesmo aos olhos dos mais cépticos.


:: 23 de Novembro de 2006


Explosões de confettis

À entrada tudo parecia caótico, mas pouco depois o ambiente começou a compor-se. As portas foram abertas e a sala foi enchendo a bom ritmo. O espaço dispensa apresentações. É especial, como muito se diz, e talvez por isso tenha sido o escolhido para a primeira apresentação de David Fonseca, em nome próprio, em Lisboa. E da banda também. A de palco, a mesma do estúdio, porque o produto final pertence ao primeiro, mas a presença dos segundos é essencial.

Especial era a palavra da noite. Era o adjectivo utilizado para fazer promessas sobre a noite de 23 de Novembro e que fez mover fãs, simpatizantes ou apenas amantes da música. Assim como a curiosidade, claro, e não creio que alguém tenha saído desiludido da Aula Magna no final das quase três horas de espectáculo.

A noite teve início perto da hora combinada e deu logo mostras da componente cénica prometida. O grande ecrã que servia de fundo ao palco mostrava-nos a caminhada de David Fonseca e da banda do backstage até ao lugar que ocupariam nas horas seguintes e a entrada deu-se pelo lado esquerdo, na porta dos Doutorais. O vermelho dominava a sala e foi assim que soaram os primeiros acordes de “If Our Hearts Do Ache”, um inédito que já vem de outras noites. Seguiu-se “Cold Heart” e a luz mudou. Aqui se compreende o cuidado na construção do espectáculo. O mesmo cuidado meticuloso das peças de teatro, onde a luz é elemento que actua e que condiciona interpretações e visões. Assim, com “Cold Heart”, os painéis luminosos, mesmo em frente ao ecrã, foram distribuindo tons que subiam do azul frio até ao quente vermelho. No final ouve-se um estoiro e vê-se a primeira chuva de confettis da noite. Ainda bastante tímida, a chuva e a noite e a luz que neste momento se apaga. Era chegada a hora de fazer subir ao palco Tim Buckley, que marcou presença nas palavras da “Song To The Siren”, proferidas por um David Fonseca melancólico e enigmático, de lâmpada na mão

Integrado na digressão de promoção ao segundo álbum a solo, Our Hearts Will Beat As One, este concerto foi além do que se prevê neste tipo de situações – daí a peculiaridade da noite – e Sing Me Something New foi representado de igual forma. “Someone That Cannot Love” foi a primeira a ser interpretada, talvez por ser “a música que começou tudo isto”. Os aplausos surgem ainda antes do final, as luzes seguem o ritmo da música, baixando de intensidade.

É neste ponto que se faz uma pausa, dando-se lugar a uma maior interacção entre palco e plateia. Aproveitando estar em Lisboa – e na esperança de que a sua mensagem seja eficazmente transmitida –, o músico joga com a ironia e propõe-se a responder às três questões que lhe são feitas sistematicamente. A primeira, já se esperava, era “porque é que cantas em inglês?”. “Porque Deus mandou”. Descoberto o primeiro enigma o palco ganha uma nova vida. As luzes e as cores surgem desconexas e quase que ofuscam, soava agora “Come Into My Heart”. O público acorda da melodia em que tinha sido embalado até então e acompanha a música com palmas. Cerca de 12 câmaras que se espalhavam pelo palco deixam-nos ver no ecrã várias perspectivas do mesmo, efeito que foi repetido ao longo da noite, em diversos temas. Na parte que antecede o final da música, Rita ocupa o lugar do seu piano e David Fonseca sai de palco. Surge pouco depois de fato branco, o mesmo do vídeo de “Our Hearts Will Beat As One”. No final do tema, sobe para cima do piano, admite ser “um homem de sorte” e interpreta “Running Scared” de Roy Orbison. Doce ironia.

O ambiente é novamente trazido ao que ocupava o início do espectáculo, quebrando-se o ritmo. Primeiro com a melancolia pacificadora de “Summer Will Bring You Over” e depois com o dueto com Rita em “Hold Still” – “uma música muito especial (…), sobre uma grande cidade”. É notável o carinho do público pela voz feminina, sendo aplaudida assim que entoa a sua primeira nota.

O segundo enigma é desvendado a pedido de alguém no público – “David, tu és mesmo tu?” -, a resposta só podia ser uma : “Sim”. Partimos agora para a “Swim”, cujos primeiros versos foram descaradamente roubados – tal como David Fonseca diz – de “Suspicious Minds”, composta por Mark James e eternizada por Elvis Presley.

Os Silence 4 mantém-se muito presentes nos ouvidos e memórias dos fãs e muito se especulou acerca das possíveis surpresas da noite. Desta forma, não surpreendeu ninguém que fossem interpretados temas do antigo quarteto de Leiria. O primeiro foi “To Give”, do Only Pain Is Real, numa versão diferente – melhorada, diria até. O segundo foi “My Friends”, do Silence Becomes It, entremeado com “My Sharona” dos The Knack. Pelo meio choveram confettis e a energia subiu, espalhando-se pela sala e abrindo lugar para a música dos anos 80 escolhida pelo público para ser interpretada. Todavia, quando todos contavam com “Take On Me” dos A-Ha, David Fonseca apresenta-nos a sua beat-box e, ao piano, inicia uma contagem decrescente num medley onde integrava as nove “não vencedoras”: “I’m on Fire” (Bruce Springsteen), “Purple Rain” (Prince), “Like a Virgin” (Madonna), “There is a Light That Never Goes Out” (The Smiths), “Love Will Tear Us Apart” (Joy Division), “Sweet Dreams (Are Made Of This)” (Eurythmics), “Should I Stay, Should I Go” (The Clash), “Dancing With Myself” (Billy Idol) e “Last Christmas” (Wham).

Nesta altura não restavam dúvidas. O músico controlava o auditório e o público estava completamente rendido. Com “The 80’s” chovem pequenos corações por toda a sala e a audiência dança, quase tanto como o próprio David Fonseca. Os anos 80 proporcionaram o atingir do clímax na Aula Magna que era agora de todas as cores.

Depois de “Adeus, Não Afastes os Teus Olhos dos Meus”, os anfitriões da noite deixam o palco por instantes. Havia ainda uma pergunta por responder e a sala ainda não estava satisfeita. David Fonseca regressa sozinho e fala-nos da pergunta “mais idiota que se pode fazer” quando alguém acaba de lançar um álbum: “O que vai fazer a seguir”. Para esta ele não tinha palavras. Abriu os olhos e encolheu os ombros.

O primeiro encore foi, essencialmente, emotivo. A raiva em “When U Hit the Floor”, a angústia em “Haunted Home” e a nostálgica, depressiva e adolescente “Angel Song” – a primeira canção que escreveu. No segundo encore guardou a voz para interpretar a música que gostava de ter escrito, “How Do You Keep Love Alive” de Ryan Adams e “Let’s Stick Together” de Bryan Ferry. Muitos acharam que este era o momento final, alguns chegaram mesmo a abandonar a sala, quando o palco se enche de novo com a repetida “Our Hearts Will Beat As One”. Agradecimentos e apresentações. Despedidas. Fim.

Alinhamento:

“Intro”
“If Our Hearts Do Ache”
“Cold Heart”
“Song To The Siren”/ “Who Are U?”
“Someone That Cannot Love”
“Come Into My Heart”
“Our Hearts Will Beat As One”
“Running Scared”
“Summer Will Bring You Over”
“Hold Still”
“Swim”
“To Give”
“Open Legs Wide”
“My Friends”/ “My Sharona”
Countdown To 9 Cover Versions
“Take On Me”
“Da-Da-Da”/ “The 80s”
“Adeus, Não Afastes Os Teus Olhos Dos Meus”

Primeiro encore
“When U Hit The Floor”
“Haunted Home”
“Angel Song”

Segundo encore
“How Do You Keep Love Alive?”
“Let’s Stick Together”

Terceiro encore
“Our Hearts Will Beat As One”

Texto e Fotografias: Sílvia Dias

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~ por hiddentrack.net em 23, Novembro, 2006.

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