Mono ao vivo em Madrid

Oriundos do Japão, os Mono são actualmente um dos nomes mais relevantes do pós-rock. Em Madrid, encheram a sala marítima Moby Dick e, sem uma única palavra, entregaram um concerto explosivo e ruidoso.

:: 05 de Dezembro de 2006

Intimidade de silêncios e ruídos

Para quem entra tão silenciosamente em palco, os Mono sabem fazer bastante ruído. Mas não se pense que este seja um tipo de ruído difuso ou ocasional, como aquele que ouvimos todos os dias, em todas as ruas. O quarteto japonês assegura-se de preparar os ouvidos de cada um antes de entregar uma agressiva e suada dose de distorções, quer ruidosas, quer etéreas.

Ninguém desprenderá os Mono da mais regular escola de pós-rock. Tudo cresce e tudo se desenvolve à medida que guitarras se vão desdobrando em diferentes modulações sonoras e os ritmos se intensificam até ao intransponível. E depois repousam… repetindo mais uma vez a fórmula.

Os cabelos lisos e negros tapavam as caras de Taka e Yoda, mas nem por isso se deixou de sentir e ver a intensidade com que os dois guitarristas rasgavam através das músicas. Já Tamaki, de vestido em tons de vermelho e negro e botas até ao joelho, fazia ondular o seu corpo numa dança inquietante. A presença feminina da baixista gerou uma maior subtileza em palco, trouxe uma certa carga sedutora adicional à música dos Mono. Takada utilizava recorrentemente as baquetas com a ponta “almofadada”, mas não o impediram de ferir violentamente a sua bateria. Foi dos elementos mais expressivos e pelas suas mãos passaram ainda um sintetizador e um xilofone.

Não é fácil acompanhar a sucessão das músicas dos Mono. Como a maioria dos concertos de pós-rock, tudo parece fluir e confluir numa mesma dimensão sónica, num mesmo ambiente sem interrupções. As músicas paravam, quando necessário, mas apenas o suficiente para se recuperar algum fôlego. Os acordes iniciais de Taka, no entanto, não deixaram dúvidas. A noite abriu com “The Flames Beyond the Cold Mountain”, a primeira faixa de You Are There (2006), o último disco dos japoneses. Depois de subir calmamente, a música rebentou violentamente. Os corpos atiravam-se contra paredes invisíveis e as duas guitarras pareciam desdobrar-se em dezenas de vagas sonoras, embatendo uma atrás da outra contra o público. No seu seguimento, “A Heart Has Asked for the Pleasure”, demonstra que os Mono não vivem apenas de delays e reverbs sobrepostos, demonstra que com melodias simples e dedilhadas também é possível flutuar.

A noite prosseguiu nesta toada bidimensional de distorções violentas e calmas ambiências nocturnas. Com “Karelia (Opus 2)” os Mono revelam-se como uma das mais fortes bandas de pós-rock. O crescendo faz-se sem momentos abruptos e o público acompanhou cada pulsação rítmica. Explodem distorções e, de repente, sossega-se. Será o fim? Longe disso. A música regressa com mais força, com mais intensidade e as guitarras gritam com toda a electricidade que conseguem comportar.

Sem palavras e quase sem qualquer contacto visual entre banda e público, apenas a música importava. Este é um factor determinante para compreender como quatro músicos japoneses, culturalmente distantes em tantos aspectos, conseguem comunicar tão eficazmente quando nos visitam. A música comunica. Aqui, a palavra não molda e não enforma, apenas se emitem melodias e silêncios. Está em cada receptor a responsabilidade de atribuir-lhes o significado.

Este foi um típico concerto de pós-rock. Para os seus seguidores e admiradores, uma noite memorável e um concerto suculento. Para os que somente sentem um pequeno interesse pelo género ou cuja curiosidade é maior que a proximidade, os Mono poderão apenas passar como uma banda entre tantas outras.

Texto: Gonçalo Sítima
Fotos: Steffen Jost

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~ por hiddentrack.net em 5, Dezembro, 2006.

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