Festival Roots & Routes 2006

Durante três dias Lisboa recebeu alguns dos nomes mais importantes da música urbana. O dubstep foi a principal aposta, que valeu muito a pena, mas muitos outros estilos passearam pelo Musicbox. O Festival Roots & Routes deu-nos assim a possibilidade, na sua primeira edição, de ver ao vivo vários artistas que, se não fosse esta iniciativa, talvez nunca cá tinham vindo. Nomes muito falados como o dos Various Production, Boxcutter ou Kode9 & The Spaceape chegaram a Portugal no tempo certo, e isso é de louvar.:: 7 a 9 de Dezembro de 2006

Primeiro Dia – 7 Dezembro

O primeiro dia começou com Mike Stellar nos pratos. Ainda pouca gente andava pelo espaço, quando o dj português aquecia o ambiente com uma mescla de sonoridades, que passaram pelo hip hop, breakbeat, drum’n’bass ou dub.

Logo de seguida chegou o nome mais esperado do dia: Various Production. Lançaram este ano a estreia The World Is Gone, onde se apropriam das bases do dubstep para levá-lo até ao drum’n’bass mais agressivo ou, por outro lado, a uma folk quase pastoral. No disco, esta última faceta nem sempre tem os melhores resultados. No entanto ao vivo surpreenderam.

Este colectivo até hoje deu muito poucos concertos, o que já era um extra para a curiosidade aumentar. Supostamente eram um duo, mas apareceram três. Um em cada ponta tinha à sua frente um laptop e a partir daí extraíam aquelas batidas demolidoras e os baixos densos que se fizeram ouvir. No meio dele estava outro músico, que metade do tempo esteve a fumar ganzas, outra metade a mexer nos pratos. A reacção do público ao dubstep inicialmente é de estranheza. Com a sala um pouco mais composta que no inicio da noite, as pessoas têm a tendência de não se aproximarem demasiado do palco. As batidas negras, quase fantasmagóricas que os músicos iam debitando criam nas pessoas algum receio de aproximação, mas também de dançar, pois é difícil saber o que fazer ao corpo ao som daquela música, apesar desta obrigar o corpo a mexer-se, não sabemos é como.

A primeira parte do concerto foi mais virada para o dubstep propriamente dito (chegaram a passar Digital Mystikz), numa das suas vertentes mais industrial e pesada, que foi caminhando pouco a pouco para um drum’n’bass quase hardcore. Enquanto os ouvíamos fizeram lembrar várias vezes as loucuras de Aphex Twin e o seu IDM, o que é sempre boa referência. Pegaram na voz do Thom Yorke dos Radiohead e fundiram-na com a parafernália violenta de dubstep, drum’n’bass, techno, breakbeat que vinha dos laptops, numa experiência que me fez pensar que talvez os Radiohead deviam estar atentos ao dubstep para o seu próximo disco. A faceta folk que se ouvia no disco dos músicos foi praticamente deixada de fora (no inicio do concerto ainda se ouviu “Circle of Sorrow”, do disco, mas por pouco tempo), e ainda bem.

Depois dos Various Production iniciou-se um workshop de música e de dança, além dos djs Joan Barbena e Karl Injex terem presenteado o Musicbox com os seus dj sets.

Segundo Dia – 8 de Dezembro

O segundo dia começou mais tarde do que era esperado. Segundo se apurou, a coluna dos subgraves no dia anterior, mais para o fim da noite, tinha estoirado. O que não é de admirar, face à força que o dubstep imprime aí.

Devido a isso, os concertos tiveram que atrasar uma hora, e por isso foi cancelado o dj set de João Gomes (dos Cool Hipnoise/Spaceboys).

Kalaf com o seu dj set foi dando aos muito poucos presentes na altura uma mistura de sonoridades que passaram pelo hip hop e música com o calor de África.

Depois deste Rocky Marsiano iniciou a sua actuação para um público, inicialmente restrito. Rocky Marsiano é um dos alter-egos de D-Mars (dos Micro, com um disco também com este nome), além de também fazer parte dos Mentes Conscientes e Double D Force. Sob o nome Rocky Marsiano apresentou o excelente disco de estreia do ano passado, The Pyramid Sessions. Ao vivo fez-se acompanhar de DJ Ride, T-One na guitarra e Rodrigo Amado no saxofone. Ali mostrou como é mestre a misturar batidas cruas hip hop, com jazz e samples de vozes mais a piscar à soul. A guitarra de T-One serpenteavam por entre a música que Rocky Marsiano e companheiros nos davam, por vezes cirando um ambiente espacial, quase psicadélico. DJ Ride também mostrou como é mestre no scratching, por alguma coisa ganhou o ano passado o ITF. Já sabíamos, mas é sempre bom reforçar, este é um músico a seguir com o máximo de atenção.

E depois de Rocky Marsiano chegou a grande atracção da noite: Ty. Rapper britânico que veio apresentar o seu mais recente disco, Closer, que recomendo vivamente. Ty revelou-se um bom artista de palco, incentivando o público, mandando piadas sobre o “SexyBack” de Justin Timberlake, descendo do palco para cantar no meio do povo. Acompanhado pelo DJ Big Ted, pudemos ouvir o bom humor e a bela de ironia do hip hop de Ty, com passagem por um funk mais digital e alguma soul. Canções como “Everyday” e “Don’t Watch That” revelaram-se tão boas ao vivo do que em disco. A certa altura Jay Dee (aka J Dilla) foi justamente homenageado, quando apareceu no ecrã Dilla Forever. E todos nós devemos prestar homenagem a este excelente produtor, que faleceu no início do ano. Ty deu um bom concerto, não chegando a patamares de excelência. Talvez se a casa estivesse mais cheia, o resultado final tinha sido mais surpreendente, mas já foi bom assim.

Steinski foi quem se seguiu a Ty. Nome que já foi mereceu a admiração de músicos como DJ Shadow ou Cut Chemist, no Musicbox apresentou no seu dj set uma amálgama de sonoridades que passavam dum hip hop, maioritariamente old school, ao funk, soul, dancehall, música de raízes cubanas e até samba. Chegou ao palco, abriu o laptop e aí ficou a mexer durante toda a actuação, impávido e sereno como se nada fosse com ele. O alinhamento do dj set de Steinski percorreu toda uma história de música urbana de raízes negras. Bons momentos de música e dança foram ali vividos.

Pela noite dentro continuaram a dar música ao público presente no Musicbox os djs Daz I Kue e TM Juke.

Terceiro Dia – 9 de Dezembro

O último e terceiro dia começa de forma inesperada. Todo o alinhamento previsto foi alterado, mas para melhor.

Os Unidade Sonora começaram por dar ao público presente sonoridades dubstep, género com o qual já têm contacto desde 2003, através dos sets de Kode9 e do programa de Jay da Flex na BBC 1Xtra. Têm sido importantes divulgadores do género em Portugal, com os programas Transmissão Conspira na Rádio Zero e Conspira FM na Química FM, além da residência no Fluid com as noites Dark Swing.

Depois foi a vez da actuação do galego Mwëslee, que foi uma excelente surpresa. Com um live set recheado de batidas hip hop nada convencionais, estranhas mesmo, que por vezes caminhavam por paisagens electro-noise. Música abstracta e espacial e intergaláctica, contagiou pela sua estranheza e fez crescer nalguns membros do público que o desconheciam uma vontade em descobrir melhor a sua música.

De seguida foi Boxcutter que actuou no Musicbox e este era, a par de Kode9, um dos nomes que suscitou mais expectativa no Festival Roots & Routes. O irlandês, de verdadeiro nome Barry Linn, veio apresentar a sua estreia discográfica, Oneiric, onde pega nas bases do dubstep e extrapula para outros territórios. Ao início teve alguns problemas técnicos, mas rapidamente se resolveram e Barry Linn possibilitou-nos uma experiência sónica incrível. De laptop aberto, dali criava as sonoridades electrónicas descontroladas, que corriam pelo recinto e pelas mentes dos ouvintes a uma velocidade estonteante. Depois de baixo da mão, Barry Linn acentuava ainda mais a densidade dos subgraves tão próprios do dubstep, e um dos momentos onde isso mais se fez sentir foi em “Sunshine V.I.P.”. Aphex Twin se fizesse dubstep soaria assim. Foi desta forma que Boxcutter nos provou ser um dos melhores músicos que apareceram este ano, com fome de inovação. Quem não conhece vá já correr ouvir Oneiric.

E enquanto não vinha Kode9 e Spaceape pudemos ouvir o dj set de Geiom. Em Lisboa deu um dos seus primeiros sets de dubstep e começou calmamente, mas foi um bom momento, mas claro que sofreu a expectativa que se vivia para ver a actuação de Kode9 & The Spaceape. Lá pelo meio, como se chegou a ouvir pelo público, ouviu-se “Blue Monday” dos New Order ou “Idioteque” dos Radiohead, mesmo que nas entrelinhas.

E finalmente chegou Kode 9 e Spaceape. É difícil de descrever o live act de Kode9 e Spaceape. Mandam apagar as luzes e apenas o ecrã por trás fica ligado. O dubstep atinge o seu auge com Kode9. Os baixos que o dominam alastram-se pelo corpo como um vírus mortal, apoderam-se do corpo, que tenta libertar-se de tanta tensão, mas ao mesmo tempo não quer viver sem aquela estranha sensação cluastrofóbica que nos aperta o estômago, os músculos, nos hipnotiza a mente.

Durante quase duas horas quem esteve no Musicbox a viver a actuação de Kode9 e Spaceape perdeu a consciência. Kode9 nos pratos e mesa de mistura arrancava subgraves que espancavam o corpo e a mente, todas as noções de realidade ou quer que seja verdadeiro perderam-se ali, durante quase duas horas, em que estávamos presos ao dubstep e dele não conseguíamos fugir.

Kode9 mostrou várias vezes como o dubstep está profundamente ligado às várias músicas jamaicanas, daí o dub de dubstep, mas também reggae e dancehall. Todos eles, juntamente com alguns dos géneros que estão nas raízes do dubstep, como o 2step, drum’n’bass e jungle, se fundiram incrivelmente, dada a mestria de Kode9, e proporcionaram uma das melhores experiências ao vivo que aqui o escriba teve. Todos eles assaltaram o público com um impacto poderosíssimo, difícil de superar.

Spaceape, à frente, nos revelava, com os seus profetismos, um mundo prestes a entrar em colapso. Enquanto à nossa frente víamos o nosso mundo a desabar numa época pós-apocaliptica, devido às palavras de Spaceape e ao seu estilo hipnótico de as proferir, as únicas luzes que sentíamos vindas do ecrã (praticamente sempre a preto e branco) apareciam e desapareciam como flashes repentinos, que acentuavam toda a tensão e o hipnotismo ali vividos.

Pudemos ouvir além de várias músicas da estreia do duo, Memories of the Future, músicas de Burial, Digital Mystikz ou Skream, e todos nos proporcionaram momentos tão bons, que parece difícil encarar que tal aconteceu, além de reforçarem o quão eclético e diverso o dubstep consegue ser. Foram muitas vezes que Spaceape desceu do palco e dançou freneticamente lado a lado com o público que estava completamente absorvido pela música, pelo ambiente, pela figura de Spaceape. O Musicbox revelou-se o local perfeito para ver e ouvir Kode 9 & Spaceape. Vieram no momento certo e fizeram história.

O festival fechou com os dj sets e Raska Soundsystem e do DJ MK, antes da after-party, que constava no seu alinhamento com os nomes de José Belo, Lyndon Stephen, Marcus Worgull e Kamala.

Este festival destacou-se pelo seu espírito ainda muito underground, onde o espaço onde se davam as actuações, Musicbox, fica numa espécie de caverna, onde rede de telemóvel nem vê-la e onde os músicos circulavam pelo público (que nunca esteve presente em grandes quantidades, excepto no último dia, que mesmo assim não esgotou).

O Festival Roots & Routes está claramente de parabéns e são precisas mais iniciativas como esta, onde os vários movimentos de música urbana sejam a personagem principal.

Texto: João Moço

Fotos: Gonçalo Sá

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~ por hiddentrack.net em 7, Dezembro, 2006.

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