Opeth ao vivo em Madrid

Os suecos Opeth mantém-se como um dos mais interessantes projectos de metal contemporâneo. A sala Heineken, em Madrid, acolheu um concerto com uma elevada e antecipada qualidade. As melodias nocturnas das músicas curazaram-se com a boa disposição da banda e o público agradeceu ruidosamente.

::  8 de Dezembro de 2006

Um progressivo prazer

Por debaixo de toda a obscura estética ligada aos suecos Opeth está uma descontraída postura. Os que os acompanham já a conhecem. Os reflexos desta encontram-se no espírito progressivo e aberto da música que compõem, não se deixando cair nos muitos dogmas presentes no death metal, e nas actuações ao vivo, onde Mikael Åkerfeldt demonstra uma extrema simpatia e boa disposição. Se aliarmos esta característica à excelência musical que possuem, então conseguirá entender-se o porquê de serem considerados uma das melhores bandas de metal existentes.

Oito álbuns resultam numa carreira sólida e heterogénea. Tendo cruzado os quatro continentes, o palco é um espaço mais que familiar para os Opeth. Com a sala Heineken a transbordar, o quinteto percorreu quase todos os seus álbuns com as nove músicas que ofereceram. Os ingleses Amplifier estavam agendados para preencher a primeira parte do concerto, mas segundo revelou Åkerfeldt, um problema mecânico no autocarro da digressão impediu-os de estar em Madrid. Uma pena, pois o trabalho de estúdio dos Amplifier despertou-me bastante interesse em vê-los em concerto.

Calças justas, t-shirts de bandas e cabelos longos que esvoaçaram constantemente. No fundo do palco, o conhecido “O” floreado adornava com simplicidade a música densa e complexa da banda sueca. Assim se compôs a sala Heineken. Com Ghost Raveries (2005) como referência mais próxima, não foi de estranhar que o concerto tenha iniciado com “Ghost Of Perdition”, a primeira faixa do referido disco. Uma música que reflecte o estado actual de maturação da banda: tradicionalmente soturna e pesada, mas com um toque de melodia progressiva e ambiental – quase doce até. Quando se iniciam as vocalizações de Åkerfeldt, o ambiente transforma-se por completo e o manto negro das vestes de quase todos os presentes torna-se translúcido e flutuante. Levanta-se o peso.

A noite avançou com músicas mais antigas, como “When”, “Face Of Melinda” e a muito aplaudida “The Night And The Silent Water”. Existe uma espécie de síndrome nostálgico em vários quadrantes da música, e este surge frequentemente no metal, cujos sintomas se evidenciam na veneração dos primeiros discos de uma banda e o quase repúdio dos mais recentes. Geralmente, estes são obras mais agressivas e directas. Talvez mais puras, se tivermos em conta a génese do metal. Mais violentos. E notou-se que algumas pessoas neste concerto sofriam deste síndrome. É compreensível, embora por vezes possa ser castrador para a banda, que se esforça por não estagnar. Os Opeth fazem-no constantemente e Ghost Raveries é um excelente exemplo disso mesmo. Com “The Grand Conjuration”, no entanto, houve um sentimento geral de aceitação. Como o vocalista sueco refere no início, esta é uma música sobre Satanás. Prontamente desabafa: “tenho 32 anos e ainda escrevo músicas sobre Satanás…”. A extraordinária “Bleak”, tocada quando o concerto começava a aquecer, e a finalizadora “Blackwater Park” foram sublimes. Ambas retiradas do álbum Blackwater Park (2001), são a materialização do ponto de equilíbrio ideal da banda sueca. Nelas estão presentes, igualmente, algumas das melhores linhas melódicas dos Opeth. De destacar também a inclusão de “Windowpane” no alinhamento do concerto. Retirada do sossegado Damnation (2003), produziu o momento de maior força emocional do concerto. Pelas guitarras saíram impregnantes melodias e admiráveis solos que não caíram em demonstrações narcisistas de virtuosismo, mas serviram o corpo da música, amplificando-o.

Nem só de música foi composta a noite. Com Åkerfeldt bastante bem disposto, eram comuns os risos entre as músicas. O que não deixava de ser algo surreal, pois entre músicas com elevado peso taciturno e dramático, como as que os Opeth tão eficazmente conseguem compor, geravam-se momentos de gargalhadas gerais. Refira-se que da guitarra de Åkerfeldt saíram acordes de “Free Falling”, de Tom Petty, que revelaram como grande parte do público conhecia aquela música. Mais tarde, antes do encore, foi a vez de “Slow n’ Easy”, dos Whitesnake. Apenas alguns segundos do que Åkerfeldt designou de “cock rock” foram suficientes. Segundo o mesmo, a música dos Opeth poderá ser apelidada de igual forma, mas com um toque de death metal. Antes houve uma tentativa de criar um headbang silencioso na audiência e um pseudo-concurso de berros a la death metal. Alguns espanhóis concorreram, mas o vencedor da noite foi, naturalmente, Åkerfeldt. É impressionante como consegue alternar entre berros guturais e melodias de rara beleza. Em concerto esta capacidade não se perde de nenhuma forma.

Houve ainda tempo para apresentar a banda, nomeadamente o “new kid on the block”, Martin “Axe” Axenrot que entrou para a banda em Maio deste ano, substituindo Martin Lopez. O lugar não é de fácil preenchimento, mas Axe revelou-se com uma competente capacidade técnica em Madrid.

Regressando à música, o concerto finaliza com a monstruosa “Deliverance”. O pedal duplo arranca e as guitarras gemem. Momentos depois, toda a sala Heineken adere a um headbang massivo, com a banda incluída, naturalmente. Durante mais de 13 minutos a música navega entre melodias de acalmia e tempestuosos ataques. Absolutamente entregues a este último momento, o público deixa-se levar pela banda até ao hipnotizante final.

Assim termina o concerto. Ficou um até mais tarde, um pouco mais distante que o habitual, pois a banda decidiu fazer uma pausa quando terminar esta digressão. Repouso e a preparação de um novo disco são os planos para os próximos meses. Entretanto, resta-nos aproveitar o trabalho já feito e as memórias de uma noite excepcional.

Alinhamento:
“Ghost of Perdition”
“When”
“Bleak”
“Face Of Melinda”
“The Night And The Silent Water”
“The Grand Conjuration”
“Windowpane”
“Blackwater Park”
encore:
“Deliverance”


Texto e fotos:
Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 8, Dezembro, 2006.

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