Um disco por mês

Costumamos associar música a variadíssimos acontecimentos. A momentos que passámos com alguém que nos é querido, ou então nem por isso; a dias felizes, ou então nem por isso; a épocas da nossa vida; a viagens que fizemos ou que gostávamos de fazer. “N” coisas podem ser associadas a música, a discos, a canções.

Este artigo nasceu da ideia de associar cada mês do ano a um disco. Os meses são diferentes entre si, o que vivemos em cada mês é diferente, os ambientes são diferentes. E existe música que se adequa a cada uma dessas diferenças. Para mim, os discos que vou sugerir para cada mês fazem todo o sentido. Para muitos outros talvez não faça. Mas ainda bem que assim acontece. Subjectividade. Liberdade.

Janeiro:
Bernardo Sassetti – Ascent (2005)
O ano começa com frio, chuva, vento. Esta obra-prima de Sassetti tem tudo isso. Vaguear numa manhã chuvosa pela cidade obscura. Agasalhamo-nos mas o frio continua a fazer-se sentir. Não havia melhor forma para começar o ano, seja ele qual for.

Fevereiro:
Boards of Canada – Music Has the Right to Children (1998)
A estreia dos Boards of Canada parece feita de gelo. Batidas electrónicas frias, toadas ambientais, o som perfeito para se ouvir em Fevereiro. A chuva permanece, mas nem sempre com a mesma intensidade. E o Carnaval não é para aqui chamado, que não faz sentido nenhum tal festa nesta época do ano. Para ouvir nas noites em que o gelo nos bate à porta.

Março:
Rufus Wainwright – Poses (2001)
E já podemos pôr um sorriso nos lábios e deixar algumas peças de roupa no guarda-fato. O sol começa a querer aparecer. Poses é a obra maior de Rufus até hoje. É pop de algodão doce para nos acompanhar pela vida. Canções a entrarem na Primavera, com toda a tristeza e alegria que esta tem. A ouvir com um maço de cigarros ao lado e um copo de leite com chocolate.

Abril:
Beach Boys – Pet Sounds (1967)
A Primavera em pleno. O sol pela manhã já nos ofusca a visão. E os coros psicadélicos dos Beach Boys ofuscam-nos a mente. Pet Sounds talvez seja a maior obra-prima musical já feita. Ouvimos bicicletas, passarinhos e queremos correr pelo campo e cantar as tristezas de Brian Wilson com toda aquela loucura e ingenuidade. Obrigatório, principalmente em Abril.

Maio:
Annie – Anniemal (2004)
O Verão ainda não chegou. Mas o Sol já começa a bater com força. Agora já se pode andar descontraído pelas ruas a mascar pastilha elástica, como se a vida se resumisse a esse banal prazer. A estreia de Annie está recheada de algumas das melhores canções pop deste novo século. Borbulhante e efervescente. Não é demasiado calorosa, por isso ainda não estamos no Verão. Tem a dose de açúcar perfeita. Depois disto, venham-me dizer que a pop não é maravilhosa.

Junho:
Ali Farka Touré & Toumani Diabaté – In the Heart of the Moon (2005)
O Verão começa aqui. Ali Farka Touré retira da sua guitarra as melodias quentes do seu Mali. E a acompanhá-lo tem Toumani Diabaté, mestre da kora, instrumento tão rico em melodias, de tão belas e diferentes entre si, que são inexplicáveis. In the Heart of the Moon juntou dois metres da música. Não digo world music porque esta é uma definição demasiado vasta. Esta é uma música que se situa num patamar superior a tudo o resto, com uma espiritualidade imensa e uma mestria de deixar qualquer um sem palavras. Perfeito para servir de banda-sonora a noites quentes de Verão a admirar o luar.

Julho:
Marvin Gaye – What’s Going On (1971)
O Verão em pleno. Para sempre ficará registada a voz de Marvin Gaye para a história da música. Quente, sensual, cheia de soul. Julho pode ser considerado por muitos como um mês de descontracção, mas Marvin Gaye assim o contrariou. What’s Going On é um disco preocupado com o mundo, com a sociedade, com a pobreza, com questões ambientais e militares até. E nem por isso deixa de fazer sentido de se ouvir no Verão. As melodias r&b sensuais e o calor da voz de Marvin Gaye assim o obrigam. Para se dançar numa tarde quente de Julho na praia, enquanto se discute amigavelmente o mundo em que vivemos.

Agosto:
Sharon Jones and The Dap-Kings – Naturally (2005)
Em Agosto o calor é abrasador. Não há solução realmente viável que minimize o calor que sentimos pelo corpo. Por isso mais vale cantar de viva voz pelo dia e noite dentro. Naturally deu-me a conhecer uma voz que obrigava a isso. A voz negra e fervorosa de Sharon Jones ainda aumenta mais a temperatura, mas a partir do momento em que a ouvimos que só podemos sentir prazer. Além desta voz particular, ouvem-se conjuntos de sopros resplandecentes que nos remetem para a época dourada do soul/funk de há décadas atrás. Guitarras, pianos e percussões que navegam pelo funk. Agosto é isto, dançar com ou sem companhia (depende das canções e da disponibilidade) da forma mais natural um dia inteiro, mesmo que o calor aperte.

Setembro:
David Sylvian – Secrets of the Beehive (1981)
“The sun shines high above, the sounds of laughter. The birds swoop down upon, the crosses of old grey churches. We say that we’re in love, while secretly wishing for rain, sipping coke and playing games. September’s here again. September’s here again.” – “September”. Mais palavras para quê?

Outubro:
The Streets – A Grand Don’t Come For Free (2004)
Em Outubro começam as primeiras chuvas. O negrume começa a apoderar-se do tempo. A Grand Don’t Come For Free reflecte em si a escuridão dos grandes meios urbanos. Mike Skinner confirmou neste disco um enorme talento em escrever canções autobiográficas, analisando ao mesmo tempo todo o meio em que se insere e todas as banalidades quotidianas tipicamente urbanas. Outubro com o seu clima pré-invernal é perfeito para ouvir as estórias de Mike Skinner, recheadas de batidas pesadas e hipnóticas.

Novembro:
Beck – Sea Change (2002)
Novembro, o mês do Outono. Dos cenários já habituais de folhas caídas no chão, alagadas, que se dispersam sem rumo; das árvores nuas, do nevoeiro obscuro. Sea Change é tudo isto e muito mais. Beck neste disco trocou-nos as voltas as todos, e depois do funk/r’n’b à la Prince de Midnite Vultures, desiludiu-se com a vida e fez um disco acústico como Sea Change. Muito cinzento, com guitarras e pianos melodiosos, mas sempre tristes, conjuntos de cordas quase dramáticos, e um Beck solitário. Beck aparece aqui nu como as árvores, não tem rumo, e se o tem está enevoado.

Dezembro:
Radiohead – Kid A (2000)
O último mês do ano. O mês que o Inverno começa a apertar com força. O mês da loucura do Natal e da passagem de ano. Mas estes dois últimos factores nada contribuíram para a escolha do disco. Kid A também registou uma mudança radical na sonoridade dos Radiohead, depois do sucesso da obra-prima OK Computer (1997). Com Kid A registaram a sua segunda obra-prima. Entramos num mundo do perfeito desconhecido. Irrealidades hipnóticas fazem da nossa mente um acumulado de desvarios electrónicos. Dezembro com a sua frieza, com a sua loucura desmedida só podia ser associado a Kid A, neste preciso momento.

João Moço

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~ por hiddentrack.net em 13, Dezembro, 2006.

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