Linda Martini – Olhos de Mongol

Depois do pára-arranca que antecedeu o lançamento do trabalho, acabou por ser no mês de Novembro que os Linda Martini deram à luz o primeiro álbum – Olhos de Mongol –, depois do tão apreciado EP homónimo editado em 2005. Confirmando o que havia ficado a pairar no ar com o dito EP, Olhos de Mongol é provavelmente um dos últimos trabalhos que fica decididamente inscrito nos anais da música de 2006.

Quem segue mais ou menos de perto o trabalho do quinteto por certo não estranhou de todo alguns dos temas incluídos neste registo, como “Estuque”, “Dá-me a tua melhor faca” ou “A severa (ver de perto)”, por serem temas que a banda apresentou em concertos antes da edição do álbum. Do EP de 2005, apenas foi incluído “Amor combate”, uma versão ligeiramente diferente da editada no EP e que o hábito ainda não descolou totalmente dos ouvidos.

“Sinto a cabeça cair” com honras de abertura e de prólogo, a querer parecer que se procura uma frequência simpática num transístor. E que se consegue. “Cronófago” é um dos acepipes temperados de toquezinhos de punk e da vaga noise que se podem deslindar com certa facilidade do trabalho dos Linda Martini.

É facto que a voz André Henriques não prima exactamente pela melodia arrebatora, mas o que vamos encontrando ao longo de Olhos de Mongol relega para segundo plano os pontos fracos que se possam encontrar no registo vocal, até porque a homogeneidade e coesão de Olhos de Mongol reside no suporte fortíssimo das três guitarras, por vezes com oscilações algo repentinas e arrojadas, a surgirem como colagens pensadas quase milimetricamente.

“Partir para ficar”, construída a partir do poema e interpretação de José Mário Branco é de todos os temas do álbum o que mais nos agarra pela sua intensidade linguística e pela melodia progressiva que acaba por resultar no desfecho mais arrebatador do trabalho. De todas, aquela que toca em repeat na nossa cabeça após cada audição.

Ao longo de todo o trabalho transparecem todos os pequeninos pormenores que premeiam os Linda Martini de uma criatividade e capacidade de surpreender como poucas bandas têm. As guitarras e a bateria recriam ambientes familiares, a harmónica presente em alguns temas é a cereja em cima do bolo, e o monólogo reduzido é tão mais que suficiente para nos encher daquelas sensações particulares de quem ouve um música que de algum modo nos atinge.

Depois do spoken word soturno de “Partir para ficar”, “O amor é não haver polícia” traz de novo uma espécie story-telling acompanhada por uma melodia tão frenética e intensa quanto a interpretação de André Henriques. De longe, uma das melhores surpresas deste álbum.

Para o fim, ficam as soberbas “Quarto 210”, possuidora de uma das letras mais penetrantes que já ouvi, a acompanhar a par e passo a melodia lindíssima; e “A severa (ver de perto)” que encerra o trabalho da melhor forma possível, num crescendo de energia para terminar na inevitável descarga onde Hélio Morais está incontestável na bateria.

Sem epílogo, o álbum termina. Sem problemas também. Olhos de Mongol é sem qualquer dúvida um dos álbuns grandes de 2006. Por tudo isto, e por tudo mais que se possa dizer.

9/10 | Susana Jaulino

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~ por hiddentrack.net em 28, Dezembro, 2006.

Uma resposta to “Linda Martini – Olhos de Mongol”

  1. […] nos encher daquelas sensações particulares de quem ouve um música que de algum modo nos atinge. (ver crítica) • […]

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