Red Sparowes – Every Red Heart Shines Toward The Red Sun

Esqueçam os álbuns conceptuais acerca de obras como O Senhor dos Anéis ou O Fantasma da Ópera. Românticos e recheados de improbabilidades. Every red heart shines toward the red sun, último registo dos norte-americanos Red Sparowes desafia a escolha que leva bandas e músicos a trabalharem em redor de obras literárias, filmes ou outras obras de arte específicas. Em vez disso, a banda debruçou-se sobre um plano de carácter político-económico levado a cabo no final da década de 50 (1958) pelo então líder da República Popular da China, Mao Zedong, com o crescimento económico e o progresso do país como meta a atingir. Dàyuèjìn, ou The Great Leap Forward (dispensando traduções literais) era o nome do dito plano.

Partindo então deste programa elaborado pelo líder chinês, os Red Sparowes concentraram-se especificamente no extermínio massivo dos pardais que ocorreu nesta época – The Great Sparrow Campaign, inserido no programa de The Great Leap Forward. Esta medida foi tomada uma vez que os pardais se alimentam essencialmente de sementes, e consequentemente, a situação da agricultura chinesa estava em decadência. Não se tratou porém da utilização de algum tipo de veneno que aniquilasse por completo os pássaros em questão. Camponeses chineses armados de tachos e panelas pelos campos, a bater furiosamente nestes objectos durante tempos esquecidos, assustando assim os pardais que voavam. Ao fim de quize minutos, os primeiros pardais começaram a cair e a morrer de exaustão, dado a sua constituição física que não permite voos de grande duração. Os pardais foram exterminados e a colheita seguinte foi melhor do que a anterior. O senão desta história é que todos se esqueceram que os pardais comem gafanhotos. A população de gafanhotos cresceu exponencialmente, destruindo as colheitas e levando a um período de fome que matou cerca de 30 milhões de pessoas na China.

No fim desta explicação surge a interrogação acerca de necessidade de conhecer a história por detrás de Every red heart shines toward de red sun. Imensa, imprescindível mesmo. É um passo para entender o aparentemente enigmático texto formado pelos nomes das faixas (como já acontecia no anterior, At the soundless dawn) e outro para nos rendermos ao requinte da inteligência de fazer um álbum conceptual sem uma única palavra – de alguma forma, também o era At the soundless dawn.

Percorrendo os campos que preenchem Every red heart shines toward the red sun, apercebemo-nos que vamos encontrar um álbum mais íntimo e de algum modo mais melancólico do que At the soundless dawn. Residem, no entanto, as mesmas características que vão tornando a música dos Red Sparowes muito própria, em especial as guitarras de Josh Graham e Bryant Clifford Meyer (membros de Neurosis e Isis, respectivamente), sempre numa trajectória pós-rock deslizante, fluindo e acompanhando-nos ao longo do registo como nenhum outro instrumento faz e que tem como melhor exemplo “A Message of Avarice Rained Down Upon Us and Carried Us Away Into False Dreams of Endless Riches”.

Every red heart shines toward the red sun é um álbum detentor de níveis de qualidade acima da média, sim, mas em comparação com o parente mais próximo, At the soundless dawn, fica aquém deste, acima de tudo por ser demasiado comedido em momentos em que um aumento progressivo de distorção e/ou intensidade seriam bem-vindos, é um trabalho com menos personalidade que o primogénito, menos surpreendente, também. O registo tem, no entanto, um momento em que este apelo é bem recebido: “Annihilate the Sparrow, That Stealer of Seed, and Our Harvests Will Abound; We Will Watch Our Wealth Flood In”. O melhor tema do álbum, o retrato mais próximo dos pós-rock que pisca ligeiramente o olho ao pós-metal e que melhor caracteriza o som dos Red Sparowes.

“Millions Starved and Became Skinnier and Skinnier, While Our Leaders Became Fatter and Fatter” e “Finally, as That Blazing Sun Shone Down Upon Us, Did We Know That True Enemy Was the Voice of Blind Idolatry; and Only Then Did We Begin to Think for Ourselves” (o melhor título do álbum e um dos melhores alguma vez pensados) encerra o registo de um modo quase épico, como de resto todo o álbum o é. Momentos em que se aguenta ligeiramente a respiração para melhor absorver a transmissão de energia em jeito de conclusão e semi-moral que é a última e mais arrojada faixa do registo. E que deixa tudo em aberto, quer pensemos no conceito nos bastidores de Every red heart shines toward the red sun, quer pensemos no que poderá vir a seguir.

8/10 | Susana Jaulino

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~ por hiddentrack.net em 12, Janeiro, 2007.

 
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