Nine Inch Nails – The Fragile

Cinco anos passados após a edição de The Downward Spiral (1994), Trent Reznor, apresenta novo registo original dos Nine Inch Nails (NIN). The Fragile surge sem dúvida com um trabalho mais experimental, ainda que mantenha muito do que fora The Downward Spiral. Manteve-se a produção suja, e insistiu-se nos recursos electrónicos, mais do que no predecessor. E surge The Fragile, em Setembro de 1999. A grande novidade era o facto deste ser um álbum duplo, repleto então de potencialidades, tendo em conta a assombrosa recepção do registo anterior.

“Somewhat damaged” abre as hostilidades, um tema ainda demasiado inebriado de The Downward Spiral, embebido no industrial que já caracterizava o trabalho dos NIN. “The day the world went way” começa a desfazer as dúvidas, e percebemos que não estamos perante as sobras do registo anterior. The Fragile vai assumindo lentamente que está distante não só cronologicamente de The Downward Spiral, como também o está da abordagem tema a tema. Em The Fragile são frequentes os temas instrumentais que servem de interlúdio entre pares ou trios de temas, como que para delimitar o espaço próprio de cada um deles. “The wretched” é antecedido pelo minúsculo “The frail”, que nos ajuda a distanciar do segundo tema do álbum, e que nos prepara para um tema, mais lento e mais arrastado. A primeira parte de The Fragile, fica de facto marcada por esta duas características. Estamos perante um registo menos impetuoso, salvo excepções como “We’re in this together” ou “No, you don’t”, e que não se torna tão cativante como o anterior por esta mesma razão, e pela oscilação propositada da dinâmica do registo (ainda que “The fragile” mesmo quebrando essa dinâmica, seja uma das melhores músicas de todo o álbum).

Nesta dinâmica mais lenta e também mais electrónica, surge “Even deeper” com Reznor a destacar-se na interpretação do tema. É um facto que as capacidades vocais de Reznor não são excepcionais, mas a verdade é que enquanto produtor, Reznor soube perfeitamente jogar estrategicamente com esse facto, e “Even deeper” enfatiza a voz rouca do músico da melhor forma, salvo pequenas variações de tom, perceptíveis aos ouvidos mais atentos. E “La mer” distante o mais possível do industrial, anos-luz, dir-se-ia mesmo. Um tema belíssimo, narrado em francês, cujo início me traz estranhamente à memória Moby, e que facilmente nos oferece um ligeiro passeio de barco por um mar apenas criado na nossa cabeça. Colado a este tema está “The great below”, com alguns elementos (muito) subtis de electro-industrial e mais uma interpretação cuidada de Reznor.

A primeira parte de The Fragile estava assim concluída, assumindo-se claramente como um distanciamento de The Downward Spiral, uma exploração de sonoridades menos repentinas e mais flutuantes, que resulta até à passagem para o segundo disco numa agradável surpresa.

A segunda parte do registo inicia então com “The way ou is through”, um sussurro num ambiente bem mais próximo do industrial do que aquele que havíamos abandonado em “The great below”. “The way ou is through” tranforma-se eventualmente num daqueles temas que já nos haviam acompanhado na primeira parte, mais arrastados, mais melódicos, e consequentemente, menos industriais. “Into the void” constitui então a primeira grande decepção de The Fragile. Não é simplesmente um tema desagradável. É um tema mau, com péssima melodia e uma interpretação de Reznor que se não é nada de anormal, por outro lado é tudo menos suportável, acompanhando demasiado as oscilações da melodia, numa espécie de irritante soluço musical.

São “Please” e “Starfuckers, Inc.” que se esforçam em manter The Fragile no bom caminho, não obstante os acidentes de percurso ocorridos anteriormente, estes são dois dos melhores temas do duplo álbum dos NIN, com “Starfuckers, Inc.” à cabeça obviamente. É como que um regresso a The Downward Spiral, ainda que repleto (se calhar de forma exagerada) de elementos electrónicos, mas com um refrão poderosíssimo, demolidor, uma espécie de “March of the pigs” revisitada. “Starfuckers, Inc.” recupera muito do ambiente criado no álbum anterior, e é uma espécie de salvador de The Fragile, ainda que não impeça que o trabalho seja claramente inferior ao anterior, defraudando muitas das expectativas criadas em torno do registo. A opção de Reznor ao enfatizar elementos mais electrónicos e de os explorar em ambientes distantes do industrial, enveredando por um caminho mais próximo da música alternativa por vezes quase ambiental, não era de todo esperada.

The Fragile é então um trabalho claramente experimental, uma afirmação de Reznor como que a recusar a fidelidade ao padrão limitativo apresentado em Broken (1992) e The Downward Spiral (1994). Não se saiu mal. Permanecem dúbias as opiniões em relação ao álbum duplo. Se por um lado, existem demasiados interlúdios que inevitavelmente acabam por se saltar, por outro lado são necessários para marcar as alterações ao longo de todo o registo e ajudam na apreensão do trabalho.

É um álbum bom. Ponto. Acima disso, é um álbum diferente. E distante.

7/10 | Susana Jaulino

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~ por hiddentrack.net em 28, Fevereiro, 2007.

Uma resposta to “Nine Inch Nails – The Fragile”

  1. […] The perfect drug (1997) [Halo_12]: Closure (1997) [Halo_13]: The day the world went away (1999) [Halo_14]: The fragile (1999) [Halo_15]: We’re in this together (1999) [Halo_16]: Things falling apart (2000) [Halo_17]: And […]

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