Nine Inch Nails – With Teeth

Foram precisos quase seis anos desde a edição de The Fragile (1999) para que se tornassem a ouvir novos temas dos Nine Inch Nails (NIN). Nos cinco anos e meio que decorreram entre a edição de The Fragile e With Teeth (2005), muito se disse acerca daquilo que poderia ser o próximo trabalho dos NIN. A culpa da demora, essa, foi muitas vezes justificada com um possível writer’s block de Trent Reznor, que se justificava consequentemente com o processo de desintoxicação de drogas e álcool a que o músico se submeteu. Tudo e mais alguma coisa à mistura, e depois da surpresa que fora o trabalho anterior, a edição de With Teeth estava pois, envolta num quase suspense.

Numa descrição rápida e básica, With Teeth é uma espécie de mediador entre The Downward Spiral (1994) e The Fragile. A presença forte dos elementos electrónicos que recheavam o predecessor, como sobressai desde logo no tema de abertura “All the love in the world”; bem como uma recuperação e reajuste dos melhores elementos do rock industrial dos NIN espalhados um pouco pelos registos do projecto de Trent Reznor, bem patentes em temas como “You know what you are”, colocavam With Teeth a orbitar entre os dois trabalhos anteriores dos NIN.

Por outro lado, With Teeth vai-se distanciando progressivamente dos registos anteriores. É mais diferente do que exactamente um semelhante. O álbum foi produzido unicamente por Reznor, que desta vez optou por um som muito mais limpo, facto que transparece sobretudo nas suas interpretações, onde aquela sensação de frequência de rádio mal sintonizada é apenas pontual, ao passo que em registos como Broken e The Downward Spiral era constante.

“Love is not enough”, um dos melhores temas do registo, surge com um arranjo bastante simples, o que a torna de algum modo quase primitiva, com uma gestão dos samples electrónicos muito comedida, sem cair no exagero, que torna o tema não só muito mais cru, como também mais sóbrio, onde conseguimos apreender todos os sons na totalidade, o que por vezes se tornava complicado em temas de registos anteriores do NIN. De um modo geral, é essa a grande característica de With Teeth – passámos de uma intensidade quase desmedida para uma abordagem absolutamente sóbria, quase epicurista. As emoções dispersam-se proporcionalmente ao longo de todo o álbum, ao invés de estarem saturadas num só tema em torno do qual gravitam os restantes (como acontecia em The Fragile e com o caso particular de “Starfuckers, Inc.”).

Mantendo diversos elementos da música que já caracterizava o trabalho dos NIN – o electrónico e o industrial –, os NIN deram decididamente um passo em frente com With Teeth. The Fragile mostrava já isso mesmo, uma vontade de reformular a música dos NIN. E se The Fragile falhou em diversos aspectos, With Teeth alcançou esse desejo numa plenitude praticamente completa. Temas como “The hand that feeds”, “With teeth” e “The line begins to blur” espelham uma abordagem muito mais próxima da música alternativa do que de outra variante qualquer. E mais do que ser simplesmente diferente (como o trabalho anterior), o conteúdo de With Teeth é surpreendentemente bom, e de alguma forma parece justificar o caminho tomado em The Fragile, porque em With Teeth temos um claro reajuste do que correra mal quase seis anos antes, assumindo plenamente The Fragile como uma espécie de trabalho experimental.

Obviamente que nem tudo é perfeito. With Teeth não se aproxima da subliminação como The Downward Spiral, e temas como “Only” ou “Sunspots” são desinteressantes e secos, numa posição mais próxima daquilo que se considera ocupar espaço, ao invés de se enquadrarem confortavelmente no registo. Mais do que ocuparem espaço, até, são intrusas e perfeitamente desnecessárias, não fazem de With Teeth um álbum melhor, antes pelo contrário, conferem-lhe uma quebra entediante e monótona, que em casos extremos até pode ser irreversível.

“Beside you in time” já numa espécie de epílogo, proporciona um raro momento de beleza, e mesmo sendo claramente distinta do restante registo, é um daqueles temas em que facilmente nos deixamos levar apenas pelos sons que apreendemos (como já o fazia “La mer”) e construímos a paisagem à nossa maneira específica. Não fosse “Right where it belongs” uma espécie de continuação deste deambular num misto de música quase electrónica (onde a voz de Reznor é o elemento que mais nos separa desse espectro, pelo tom às vezes próximo do registo de conversação) e desejaríamos que o álbum terminasse com o tema anterior.

With Teeth trouxe Reznor e os NIN renovados, preparados para apostar não no que parecesse mais confortável, mas no que espelhasse o percurso que a música dos NIN começara a desenvolver. Este é um álbum absolutamente sóbrio, que necessitou da devida maturação e que descolou definitivamente os NIN da música industrial, associando o trabalho de Reznor de um modo mais coerente à música alternativa. Porque é isso que With Teeth é. Um álbum de música alternativa. Se parecia arriscado para Reznor, depois de The Fragile, o músico-intérprete-compositor-produtor construiu um álbum completamente distinto, que, embora não superando a genialidade de The Downward Spiral se assume como um dos melhores registos dos NIN.

8/10 | Susana Jaulino

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~ por hiddentrack.net em 28, Fevereiro, 2007.

Uma resposta to “Nine Inch Nails – With Teeth”

  1. […] apart (2000) [Halo_17]: And all that could have been (2002) [Halo_18]: The hand that feeds (2005) [Halo_19]: With Teeth (2005) [Halo_20]: Only (2005) [Halo_21]: Everyday is exactly the same (2006) [Halo_22]: Beside you in time […]

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