Nine Inch Nails

Considerada uma das bandas mais influentes na música dos anos 90, especialmente no que diz respeito à música alternativa e ao desenvolvimento do rock industrial, os Nine Inch Nails (NIN) são acima de tudo projecto de um homem só – Trent Reznor, compositor, intérprete, multi-instrumentista e produtor; provavelmente uma das personalidades mais completas do mundo da música.

Os NIN contam neste momento com quatro álbuns e um EP, sendo estes cinco trabalhos considerados os registos mais importantes dos quase vinte anos de carreira do projecto de Reznor. À margem desta consideração convencionada, Reznor faz uma gestão muito particular dos trabalhos dos NIN, sendo que cada um deles têm uma importância especial no percurso da banda, e como tal são organizados por ordem cronológica sob o nome de Halo seguido de um número (por exemplo, [Halo_19] With Teeth). São já vinte e dois os halos que constam da lista dos NIN (contando já com a edição no final do mês de Fevereiro do DVD Beside you in time) e que fazem parte de um percurso semelhante ao de qualquer banda, recheado de altos e baixos. Dez nomeações para os Grammy Awards (duas das quais resultaram em vitória), distinções de diversas publicações, que indicaram os NIN como autores de alguns dos melhores álbuns de sempre, exaltam a personalidade do mentor e único membro oficial da banda, Trent Reznor, exaltação essa que culminou em 1997 com a indicação de Reznor como uma das vinte e cinco personalidades mais influentes dos EUA pela revista Time, consolidando assim o estatuto de Reznor como um dos músicos cuja contribuição foi mais vital no desenvolvimento da música dos anos 90

A história começou decorria o ano de 1988, e Reznor trabalhava nos Right Track Studios em Cleveland, Ohio. As ambições eram consideravelmente menores, sendo que o músico pretendia editar um single através de uma editora europeia. Após obter permissão, Reznor gravou algumas composições no estúdio onde trabalhava e a resposta de diversas editoras foi bastante positiva. Reznor acabaria por celebrar contrato com a TVT Records e o primeiro álbum dos NIN – Pretty Hate Machine, seria editado em 1989, contendo não só novos temas mas também parte do material que Reznor gravara previamente nos Right Track Studios.

Como uma produção trabalhada, ainda que numa fase primordial do que conhecemos dos NIN, Pretty Hate Machine, rapidamente se tornou alvo de um certo culto underground, que se difundiu progressivamente, tendo-se tornado um dos primeiros registos lançado por uma editora independente cujas vendas atingiram um disco de platina nos Estados Unidos, onde as vendas registaram um número superior a três milhões de cópias.

No seguimento da crescente difusão dos NIN, Trent Reznor rapidamente “recrutou” um grupo de músicos que o acompanhassem em digressão, e a primeira tour dos NIN nos Estados Unidos consistiu essencialmente em aberturas para Peter Murphy e os The Jesus And The Mary Chain. A agressividade dos NIN em palco foi conquistando seguidores pelos Estados Unidos, e o ano de 1991 culminaria com a participação da banda na primeira edição do festival Lollapalooza, onde haviam sido inseridos como banda de abertura para os cabeças de cartaz Jane’s Addiction. Se as coisas corriam bem nos EUA, o mesmo não se pode dizer da digressão dos NIN pela Europa (como banda de abertura para os Guns N’ Roses), onde a recepção do público foi praticamente desastrosa. Trent Reznor regressa aos EUA, altamente pressionado pela TVT Records, que exigia que o sucessor de Pretty Hate Machine fosse sobejamente mais comercial. Para contornar esta imposição, Reznor iniciou as gravações de Broken praticamente às escondidas.

Apesar das divergências com a TVT Records, o sucessor de Pretty Hate Machine é editado ainda sob a tutela desta editora, em Setembro de 1992. No entanto, as diferenças entre Broken e Pretty Hate Machine são já bastantes. Reznor começou a apostar muito mais nas guitarras (muito por culpa da experiência ao vivo durante 1991), equilibrando a presença destas com a componente electrónica. Broken seguiu os passos do primeiro álbum, e no final de 1992, as vendas do registo já haviam atingido o galardão platinado. “Wish” (cujo conteúdo da letra foi considerado explícito e impróprio, por incluir a expressão “fist fuck”), tema incluído no EP, havia de dar aos NIN o primeiro Grammy da banda, na categoria de Best Metal Performance. Reznor ironizou a atribuição do prémio, dizendo que na sua lápide haveria de ser inscrito “Reznor: Died. Said “fist fuck” and won a Grammy”. O vídeo de “Happiness in slavery” também incluído em Broken haveria de ser igualmente banido, pela natureza gráfica das imagens. Realizado por Peter Christopherson, o vídeo consta do artista Bob Flanagan deitado numa máquina que não só lhe dá prazer, como o tortura e acaba por matar. Os prémios e a censura não ficaram por aqui. Em 1996, os NIN repetem o Grammy na mesma categoria, desta vez com o tema “Happiness in slavery” e tornam a ver um vídeo banido, desta vez “Pinion”, transmitido apenas duas vezes pela MTV.

Na press sheet de Broken, Reznor deixava claro que iria rapidamente começar a trabalhar no próximo registo, divulgando de imediato o nome escolhido – The Downward Spiral. Considerado o terceiro registo dos NIN, o trabalho foi editado em Março de 1994 e entrou directamente para o segundo lugar do top da Billboard. Até à data, este é o trabalho mais vendido nos NIN, tendo atingido quatro discos de platina. De The Downward Spiral foram extraídos dois singles – “March of the pigs” e “Closer”. Esta última, apesar do conteúdo explícito da letra, bem como do vídeo igualmente gráfico, gozou de uma difusão como nenhum outro tema dos NIN havia gozado até então (com todas as “correcções” que se exigiram). O álbum foi nomeado para um Grammy na categoria Best Alternative Music Performance (que acabou por ser entregue aos U2) e o tema que encerra o álbum, “Hurt”, foi nomeado para o mesmo galardão na categoria Best Rock Song em 1995 (atribuído a “Streets of Philadelphia” de Bruce Springsteen). David Bowie interpretou o tema em conjunto com Reznor em 1995 e em 2003 e o carismático Johnny Cash gravou uma versão do tema. Reznor disse mais tarde que a interpretação de Cash revitalizara a sua abordagem da música e que o inspirara de certo modo na composição de With Teeth (2005).

The Downward Spiral é pleno em referências a Nietzsche e conceitos em torno deste autor. Este trabalho dos NIN é frequentemente considerado um álbum conceptual baseado na história de uma personagem que progressivamente vai perdendo controlo da sua vida e entra nesta espiral como consequência das escolhas que vai fazendo, recorrendo ao sexo e às drogas para se libertar das ciladas montadas pela religião e a sociedade. O desfecho culmina com o suicídio da personagem.

O ano de 1994 fica na história dos NIN como o ano da consagração do trabalho consolidado nos cinco anos anteriores, culminando com uma actuação na edição desse ano do festival Woodstock. Imediatamente a seguir a The Downward Spiral, Reznor produziu Further Down The Spiral (1995), um álbum de misturas que contava com a participação de Aphex Twin e do guitarrista Dave Navarro. O trabalho atingiu o disco de ouro nos EUA.

Nos anos que se seguiram entre a edição de The Downward Spiral e The Fragile, Reznor dedicou-se essencialmente à sua actividade como produtor, tendo produzido três álbuns para os Marilyn Manson – Portrait of na American family (1994), Smells like children (1995) e Antichrist Superstar (1996), bem como as bandas sonoras dos filmes Natural Born Killers (Oliver Stone, 1994) e Lost Highway (David Lynch, 1997), para as quais também contribuiu com alguns temas – “Something I can never have” e “Burn” para Natural Born Killers, “Videodrones; questions” e “The perfect drug” para Lost Highway. A colaboração em bandas sonoras não fica por aqui, tendo os NIN gravado uma versão do tema dos Joy Division, “Dead souls”, para a banda sonora do filme The Crow (Alex Proyas, 1994). Reznor colaborou também com Tori Amos, no tema “Past the mission”, incluído no álbum da cantautora Under the pink (1994)

Em 1999, os NIN editaram The Fragile, após diversas especulações acerca de um possível writer’s block de Reznor. Mais uma vez, o álbum recebeu três nomeações para os Grammy Awards, nas categorias de Best Alternative Music Performance, Best Metal Performance e Best Male Rock Vocal Performance, tendo perdido para Beck, Black Sabbath e Lenny Kravitz, respectivamente. No processo de construção e gravação de The Fragile, a ideia básica de Reznor era dividir o álbum em duas partes, uma com temas com voz e outra apenas instrumental. Tal não aconteceu, mantendo-se apenas a ideia inicial de um álbum duplo. Embora as críticas tenham sido favoráveis, o álbum não foi suficientemente promovido e Reznor acabou por pagar a maior parte da digressão nos EUA.

Seria então preciso esperar mais 6 anos pelo próximo trabalho de originais dos NIN. Escrito no decorrer da desintoxicação de Reznor, o conteúdo do sucessor de The Fragile – With Teeth, reflecte os impasses e dificuldades do processo.

With Teeth foi então editado em Abril de 2005 na Europa e no mês seguinte nos EUA. Houve quem pusesse em questão a originalidade do trabalho, houve quem dissesse que era de certo modo um regresso ao esplendor de The Downward Spiral. Reznor afirmou que o propósito de With Teeth era ir directo ao assunto, numa abordagem muito mais crua dos temas do que acontecera em The Fragile. Apesar de alguma desconfiança em torno de With Teeth, os primeiro e terceiro singles do registo – “The hand that feeds” e “Everyday is exactly the same”, foram nomeados para um Grammy na categoria de Best Hard Rock Performance (em 2006 e 2007, perdendo o galardão para os System Of A Down e Wolfmother, respectivamente).

No Outono de 2005, os NIN iniciam a digressão de With Teeth nos EUA, tendo Trent Reznor reunido para esse fim Aaron North (guitarra), Josh Freese (bateria), Jeordie White (baixo) e Alessandro Cortini (keyboards), sendo este o alinhamento mais recente da banda. A digressão dos NIN nos EUA contou com a colaboração de bandas como os Queens Of The Stone Age, Death From Above 1979 ou Bauhaus.

O ano de 2007 é aguardado com entusiasmo face ao lançamento do sucessor de With Teeth, já com título escolhido. Year Zero deverá ser editado em Abril. Para o mês de Fevereiro está agendada a edição de um DVD com gravações de concertos dos NIN, intitulado Beside you in time, antecedendo a edição do novo trabalho e uma nova digressão. Vinte anos depois, é praticamente impossível não apontar os NIN como importantes difusores da música alternativa e uma das grandes bandas do século XX.

Susana Jaulino

Discografia completa:

[Halo_1]: Down in it (1989)
[Halo_2]: Pretty hate machine (1989)
[Halo_3]: Head like a hole (1990)
[Halo_4]: Sin (1990)
[Halo_5]: Broken (1992)
[Halo_6]: Fixed (1992)
[Halo_7]: March of the pigs (1994)
[Halo_8]: The downward spiral (1994)
[Halo_9]: Closer to god (1994)
[Halo_10]: Further down the spiral (1995)
[Halo_11]: The perfect drug (1997)
[Halo_12]: Closure (1997)
[Halo_13]: The day the world went away (1999)
[Halo_14]: The fragile (1999)
[Halo_15]: We’re in this together (1999)
[Halo_16]: Things falling apart (2000)
[Halo_17]: And all that could have been (2002)
[Halo_18]: The hand that feeds (2005)
[Halo_19]: With Teeth (2005)
[Halo_20]: Only (2005)
[Halo_21]: Everyday is exactly the same (2006)
[Halo_22]: Beside you in time (2007)

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~ por hiddentrack.net em 28, Fevereiro, 2007.

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