The Arcade Fire – Neon Bible

thearcadefire-neonbible1Os consensos generalizados podem ser perigosos e deverão sempre provocar uma posição crítica. Os canadianos The Arcade Fire são uma das últimas revelações da música norte-americana e, com apenas um disco, abalaram o sistema de nervoso de todo o universo do indie-rock e conseguiram, inclusive, ir um pouco mais além. Digressões e colaborações com os U2 e largos elogios de Chris Martin (Coldplay) são apenas alguns dos efeitos secundários provocados pela edição de Funeral, há três anos atrás.

Não deixa de ser uma deliciosa ironia o disco de estreia intitular-se Funeral. O nascimento de algo brilhante e vivo ocorreu num caixão cerrado e acompanhado por um cortejo a preceito. Marcado pela dolorosa vivência da juventude, Funeral foi um disco de mágoas, introspecção e desassossego. E se pensam que Win Butler e seus amigos (e família) se livraram de todos os fantasmas que habitavam os seus corpos estão enganados. Neon Bible é um disco pesado, lúgubre, acusador e melancólico. A diferença está na direcção por onde caminham estes sentimentos. Já não se fala de uma adolescência perturbada, de vizinhanças disfuncionais e de reminiscências passadas. Quis a maturação que os olhos se centrassem no mundo que os rodeia, quis um espelho negro ser o reflexo desse mundo.

Assim começa Neon Bible, com “Black Mirror”, uma faixa quase sinistra e que introduz o pano de fundo que estará presente em todo o disco. A voz de Win Butler é acompanhada por suspiros, por fantasmagóricas transições e o planar nocturno deixa-nos em receio: “Mirror, mirror on the wall tell me where them bombs will fall”. Não é difícil encontrar alusões ao estado de emergência em que hoje nos encontramos e que serviu de inspiração aos The Arcade Fire para construírem a sua bíblia.

Convém referir que a captação dos instrumentos, do extenso número de instrumentos que compõem as músicas de Neon Bible, foi feita numa igreja convertida em estúdio de gravação. Se se ouvir o álbum com atenção, se se atentar na sua força e nalguns dos seus momentos mais grandiosos (sejam eles mais ou menos ruidosos) poderá ouvir-se o ressoar de paredes outrora abençoadas. Correcção – ainda abençoadas. Oiça-se a genial “Intervention”, como cresce e como se propaga. A força incontornável da tragédia comandada pela épica construção musical: o órgão grave que serve de trave-mestra, o xilofone inocente salpica as paredes, os coros angelicais são denunciantes e a catarse emerge, como se exige a toda a arte.

Com “Keep The Car Running” e “The Well And The Lighthouse” a banda liberta-se de forma mais energética, empurra-nos para a pista de dança e faz-nos rodopiar sobre um eixo imaginário, feito de néon certamente. “(Antichrist Television Blues)” é uma faixa que resulta da original reinterpretação (passe a aparente contradição) do que Bruce Springsteen tem de melhor. O drama quotidiano da vida do operário, do colarinho azul e das curvas sinuosas que é obrigado a tomar. Mais uma perspectiva sobre a decadência vigente.

A revisitada “No Cars Go” tem a capacidade de fazer com que tudo se ilumine à nossa volta. As cores ganham mais vida e se se caminhar pela rua, na altura certa do dia, de certeza que se poderão ver as pequenas partículas palpitantes que habitam em toda a vida. Com uma das linhas melódicas mais impregnantes que os The Arcade Fire já conceberam, um coro final vigorante e uma letra francamente curiosa e bonita, esta é uma canção que não terá dificuldade em alojar-se na história. Consta que conhecem um sítio tão recôndito onde nem as naves espaciais vão… talvez nos possam lá levar um dia.

O posfácio de Neon Bible, com “My Body Is A Cage”, reserva-nos um melancólico e libertador momento. “My body is a cage that keeps from dancing with the one I love, but my mind holds the key” serve de mote e empurra-nos para o final. Enquanto a percussão se desenvolve em batimentos cardíacos sob o órgão ondulante e o desabafo abatido de Butler, a tensão vai crescendo gradualmente até ao incontrolável expelir, até à emancipação absoluta: “Set my body free”.

Neon Bible poderá não ser um disco tão coeso, tão pleno de sentido como foi Funeral, mas consegue valer por si só. Um segundo disco, especialmente após a larga exposição do primeiro, é uma tarefa árdua e que comummente resulta em algo desastroso. Este não foi, seguramente, um desses casos. Os The Arcade Fire souberam provar que Funeral não foi uma acidental criação, mas um natural resultado do talento, trabalho e inspiração. Neon Bible segue-lhe os passos.

9/10 | Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 8, Março, 2007.

Uma resposta to “The Arcade Fire – Neon Bible”

  1. […] mas um natural resultado do talento, trabalho e inspiração. Neon Bible segue-lhe os passos. (ver crítica) • […]

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