Jesu – Conqueror

Inevitavelmente associados aos desmembrados (desde 2002) Godflesh, os Jesu surgem do cérebro de Justin Broadrick (como acontecera já com os Godflesh). Pode dizer-se que com o nascimento dos Jesu, Broadrick pretendia afirmar o seu distanciamento face às suas incursões no espectro do grindcore (lembramos a colaboração com Napalm Death…), que de algum modo já ficara patente no trabalho dos Godflesh. Os Jesu, são, digamos, um limar de arestas, um aperfeiçoamento, um passo em frente depois dos Godflesh, ainda que que alguns possam continuar a estranhar, numa quase indignação, as diferenças entre os dois rebentos.

No ano de 2006, havíamos sido surpreendidos com Silver, um EP que incidia muito mais no elemento vocal, contrastando com os trabalhos anteriores do projecto. Houve quem dissesse que chegava a soar pop. Cerca de um ano depois, surge o longa-duração, Conqueror, completando as prováveis pretensões de Broadrick (sem ser pretensioso): acima de tudo não estar colado na sombra de bandas associadas ao pós-metal/rock alternativo/ambiental (que é inevitavelmente o que os Jesu fazem), caso dos Isis (com quem partilham o palco na digressão pelos EUA), apenas para citar uma.

O álbum inicia então com o tema-título – “Conqueror” –, o sussurro habitual que parece tão em voga nestas coisas do rock alternativo, como se de uma qualquer escola artística se tratasse. Recheado de efeitos, quase com uma certa sujidade (como de resto, todo o registo), com excepção para a voz de Broadrick, clara, límpida (demasiado límpida até, para aquilo que quereríamos esperar), este é um daqueles temas que justifica quase de imediato a audição do álbum. Por outro lado, a aposta em abrir o registo com uma das melhores faixas é sempre má, dado que a restante audição pode resultar numa trajectória depressivamente descendente, mas a verdade é que “Conqueror” ilustra grande parte do álbum a que deu nome, e os Jesu fizeram uma distribuição relativamente racional do material produzido. A verificar-se o contrário, poderíamos estar perante uma das primeiras desilusões do ano, vinda justamente de uma das bandas que deixara muito boas impressões com os últimos dois trabalhos.

O tema seguinte, é, provavelmente o mais fraco de todo o trabalho, o mais curto, também, para contrariar a velhíssima máxima de que “quantidade não é qualidade”. A entrada em “Old year” faz-me estranhamente (ou não) recordar os norte-americanos The Life And Times, e sem qualquer desprestígio para estes, a minha mão cola-se estranhamente àquele botão apelidado de forward. E em frente seguimos. “Transfigure” assemelha-se ao tema anterior, a maior diferença é de facto na linha da guitarra que dá um toque de requinte ao tema e que faz de “Transfigure” um tema mais elaborado e, consequentemente, melhor do que anterior.

É o ponto médio de Conqueror que torna o registo verdadeiramente interessante. Não escapando a uma das quase inevitabilidades do pós-metal, os temas com mais de sete e oito minutos (por alguns consideradas músicas a metro), os Jesu surgem com “Weightless & Horizontal” (a rondar os dez minutos de duração), tão densa quanto fluida, simples, intimista e pesada. E as palavras de Broadrick “try not to loose yourself” a tornarem-se quase uma espécie de mantra, um fármaco estranho, que nos acompanha e nos condensa, quase a aconchegar-nos. Seguindo a fórmula da anterior, “Medicine” surge bem posicionada, e não defrauda ninguém. Este tema chega até a ser mais inteligente que “Weightless & Horizontal”, comportando uma série de variações na dinâmica do tema, que o torna surpreendente e quase arrojado. Por esta fase de Conqueror, no entanto, começa-se a colar demasiado a voz pastosa de Broadrick, que prejudica indiscutivelmente a progressão do trabalho. Justificava-se a maior recorrência aos segmentos instrumentais, fazendo da voz um elemento claramente secundário – uma fórmula mais próxima do registo homónimo editado em 2004.

Parte deste desânimo é apenas desfeito com “Mother Earth” que completa a trilogia de temas a reter indiscutivelmente deste registo, juntamente com “Conqueror” e “Weightless & Horizontal”, e ainda que o falsete de Broadrick seja ligeiramente incomodativo, “Mother Earth” é bastante simples, com riffs quase minimalistas, e os samples que acompanham toda a faixa ajudam a torná-la instrumentalmente irrepreensível. É a progressão para o desfecho desconstrutivo que faz de “Mother Earth” seguramente o melhor tema de Conqueror, e certamente uma das melhores novidades individuais de 2007.

“Stanlow” recupera a dinâmica dos temas anteriores, não trazendo nada de novo, chega a ser um modo ingrato de terminar o registo, que ao fim de tudo acaba por ser um misto de simpático com urticárias auditivas, culpa do uso e abuso da voz de Broadrick, dado que os trechos instrumentais são interessantes, inteligentes e descolados de alguma fórmula ousadamente copiada. Infelizmente para os Jesu, o reconhecimento de Conqueror apenas lhes chega pela originalidade provada anteriormente.

7/10 | Susana Jaulino

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~ por hiddentrack.net em 18, Março, 2007.

 
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