Katatonia ao vivo em Madrid

Após a passagem inédita (ou quase) por Portugal, os suecos Katatonia regressam a Espanha quatro anos após o último concerto. Com A Great Cold Distance ainda fresco, a banda encabeçada por Jonas Renkse apresentou o novo disco ao lado de músicas mais antigas. Uma actuação energética que não desiludiu e que deixou a ansiedade do retorno.

:: 13 de Abril de 2007 

Dois actos nocturnos

 

A sala Caracol tem a particularidade (talvez não tão particular quanto isso) de possuir uma cortina vermelha, conseguindo transformar ligeiramente um concerto de metal num espectáculo quase solene. Poder-se-á mesmo dizer que o concerto desta noite, tal como no teatro, esteve dividido em dois actos, cada um associado a uma das bandas – Katatonia e Autumnal. A diferença está, como é óbvio, na importância que se dá a cada acto. Mas se admitirmos que a maioria dos espectadores que se senta nas cadeiras aguarda impacientemente o último acto onde tudo se desenvolve e resolve, então a analogia poderá ajustar-se perfeitamente.

A noite começou cedo. Ainda não eram nove da noite e já os Autumnal davam os primeiros acordes naquela que seria uma actuação interessante e sombria. Em palco, os quatro elementos masculinos, com roupa negra e justa, contrastavam com Maria Ingelmo, sentada, com um vestido branco, leve, e quase coberta pelo seu violoncelo. Apesar do instrumento clássico, os Autumnal estão longe de fazerem metal sinfónico. Ficam-se por um doom melódico que tem como Opeth uma clara e quase flagrante influência. O violoncelo, incomum na maioria das bandas semelhantes, traz uma carga dramática adicional às longas composições dos Autumnal. Por vezes, as músicas tornam-se mesmo trágicas, arrastando-se por florestas despidas, outonais e repletas de infortúnios vários.

O concerto abrangeu o álbum de estreia da banda, Grey Universe (2006), e a demo The Age Of The Sin de 2003 em igual proporção: duas faixas intercaladas de cada lançamento. Todas elas, de natureza similar, são composições épicas onde a melodia e a brutalidade convivem lado a lado. Se esta dualidade consegui ser interpretada eficientemente musicalmente, variando entre a predominância de violoncelo e das suaves melodias de guitarra e os riffs distorcidos e graves com a bateria agressiva, o mesmo não se pode dizer do papel da voz de Javier de Pablo. Sejamos honestos, não existem muitos “Åkerfeldt’s” (Opeth) no mundo, e Pablo cometeu vários excessos dispensáveis, principalmente na utilização do falsete, que chegou a ser mais incómodo que feedback. Porém, deixa-se o elogio à sua gutural capacidade de berrar. A espaços, as composições dos Autumnal superavam-se a si mesmas, conseguindo confluir de forma impressionante as melodias das guitarras e o violoncelo. Eram momentos raros, mas quando aconteciam deslumbravam. De lamentar, no entanto, a semelhança de determinados riffs aos primeiros trabalhos dos Opeth… de certa forma, os Autumnal tentaram apresentar como novo algo que já tinha sido feito há mais de uma década atrás. Cerca de quarenta minutos de actuação deixaram uma boa impressão no público presente. Fechou-se a cortina.

A concentração de gente perto do palco aumentou nos momentos que antecederam a entrada dos Katatonia. Passados quatro anos, os suecos regressavam a Espanha com um novo disco e uma direcção musical mais sólida que tinha sido iniciada com a edição de Viva Emptiness (2003). Longe vão os tempos de Brave Murder Day (1996) e Discouraged Ones (1998). Actualmente os Katatonia situam-se num campo mais rock, onde os refrões não são estranhos e a rádio os aceita. Dark rock, assim se poderá encontrar denominada a música da banda no seu próprio site.

Uma introdução de cordas sinfónicas acalma a impaciência e faz crescer a tensão. O pano revela a banda que prontamente inicia o concerto com a faixa de abertura de A Cold Great Distance, “Leaders”. Este foi o álbum que imperou durante a noite, mas não de forma descompensada. A actuação foi feita em cenas, agrupando temas antigos e temas recentes de forma recorrente. O primeiro bloco composto por “Leaders”, “Wealth” e “Soil’s Song” foi a forma ideal de atrair o público, de o abraçar com a música mais recente sem hesitações. Sem exagerar na proximidade com o público, os Katatonia souberam entreter e motivar quem os ouvia, tanto pela voz de Jonas Renkse, nas músicas e fora delas, como pela atitude de Anders “Blakkheim” Nyström, em postura típica de guitarrista de metal.

No final do bloco de temas composto por “Deadhouse”, “Teargas” e “Cold Ways / Have To (Leave)”, todas elas da era anterior a Viva Emptiness, compreendeu-se como a música da banda tem agora uma força diferente: mais dinâmica, mais imprevisível e com uma combinação mais eclética de guitarras e ritmos. As melodias de Renkse estão igualmente mais trabalhadas e mais eficazes. Mas não se negligencie o trabalho mais antigo da banda, continua a ser muito bem recebido pelos fãs – “Deadhouse” demonstrativo disso mesmo. Mais tarde, “Ghost of the Sun” arrancou o público do chão e a letra, entoada em alta voz, ressoou intensamente. Um dos melhores momentos entre banda e as centenas de admiradores.

“Tonights Music” e “For My Demons” foram dois clássicos da banda guardados para a parte final do concerto. Com elas abateu-se uma névoa espessa, uma arrastada disposição que embalava à medida que Renkse cantava. Após uma pequena pausa, a bateria surge impaciente, ondulante, iniciando “Sleeper”. Uma música de guitarras deslizantes e explosões de luzes estroboscópicas. Para o final ficaria reservado as muito esperadas “My Twin” e “Evidence”, focos de popularidade e de singalong quase incessante. A banda retira-se após um final pouco apoteótico, deixando no ar a certeza de encore. Blakkheim surge em palco, iluminado pela solitária luz amarela, e revela-nos a vontade de regressar no tempo, de nos levar numa viagem até à época de Brave Murder Day. Uma pequena rapariga do público antecipava ruidosamente e guturalmente o que se iria suceder: “Murder”. A única sobrevivente dos tempos mais agressivos da música dos Katatonia caiu como uma cereja negra, não vermelha, em cima do bolo. Num público onde claramente se podia ver pela indumentária uma predilecção por facções do metal menos melódicas que a presente música dos Katatonia, “Murder” foi um retorno delicioso. Aplausos finais e devil horns em riste. O fim.

Não é difícil para os Katatonia fazerem um bom concerto. O seu reportório é já suficientemente extenso e diverso para agradar do mais antigo ao mais recente dos fãs e não fatigar os curiosos. Com excepção de um ou outro deslize técnico, as músicas conseguem ganhar um corpo e uma intensidade apreciáveis, mesmo perdendo muitos dos pormenores que existem em disco. Em Madrid, os Katatonia não desiludiram e aguarda-se o seu regresso. Para breve.

 

Alinhamento:
“Leaders”
“Wealth”
“Soil’s Song”
“Deadhouse”
“Teargas”
“Cold Ways / Have To (Leave)”
“Deliberation”
“The Ghost Of The Sun”
“Criminals”
“July”
“Future Of Speech”
“Tonight’s Music”
“For My Demons”
“Sleeper”
“My Twin”
“Evidence”
encore:
“Murder”

Texto e Fotos: Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 13, Abril, 2007.

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