Nine Inch Nails – Year Zero

With Teeth (2005) marcou decididamente o renascimento de Trent Reznor e dos Nine Inch Nails (NIN), e a digressão que se seguiu em 2006 (e que no passado mês de Fevereiro passou em dose tripla no Coliseu de Lisboa) deu indiscutivelmente um novo fôlego a Reznor. Não é então com significativa surpresa que dois anos após a edição do último registo, os NIN tornem a estar em destaque, desta feita pelo lançamento de Year Zero. Como já acontecera em The Downward Spiral (1994), Year Zero é também um álbum conceptual, agora sobre “o fim do mundo”, nas palavras do próprio Reznor.

Year Zero define um distanciamento (ou evolução se quiserem) progressivo face às raízes do rock industrial que marca indubitavelmente a ascensão da carreira dos NIN. Estamos perante um álbum mais electrónico (com as devidas excepções, como por exemplo “Capital G”) que With Teeth, mais inteligente e melhor estruturado; com todos os ingredientes básicos que caracterizam esta nova fase dos NIN, plena de efeitos sonoros que nos remetem para um qualquer espaço muito próximo do sci-fi.

Assim, o álbum abre com “Hyperpower!”, a introdução, que se tem tornado cada vez mais comum na música contemporânea. A sequência que se lhe segue é de uma coesão e entrosamento algo raros. Uma sequência de oito temas de uma qualidade e produção requintadas, e ainda que “The good soldier” fique ligeiramente aquém das restantes faixas do conjunto, esta é provavelmente a melhor sequência de qualquer álbum dos NIN, não deixando rigorosamente nada a dever a The Downward Spiral, comummente considerada a obra-prima dos NIN.

“Survivalism”, a primeira amostra de Year Zero, foi claramente uma aposta ganha, pela energia que se desprende de cada segundo do tema, inicialmente um pouco adormecida, mas que se vai revelando ao longo dos quatro minutos e meio que a compõem. Será, sem dúvida, uma das faixas que mais força e violência ganhará ao vivo. “Vessel”, recupera a raiva de outros tempos (uma espécie de “Terrible lie” vinte anos depois), acabando por se precipitar num desfecho electrónico que nos leva até “Me, I’m not”, uma das faixas melhor conseguidas de todo o trabalho, numa abordagem bastante interessante das capacidades vocais de Trent Reznor.

É quando metade do registo está passada que nos deparamos com “My violent heart”. Este tema fez parte do conjunto de três faixas (“Me, I’m not”, “My violent heart” e “In this twilight”) cujos mp3 foram misteriosamente abandonados em quatro cidades por onde os NIN passaram na digressão europeia, quando faltavam cerca de dois meses para a edição de Year Zero. Reznor explicou mais tarde que os mp3 fizeram parte de uma espécie de promoção subversiva do trabalho, face às dificuldades das editoras com a crescente circulação de informação e dados através da Internet. “My violent heart” foi abandonado dia 12 de Fevereiro em Lisboa e depois em Madrid. Barcelona e Manchester foram brindadas com “Me, I’m not” e “In this twilight”, respectivamente. Promoções inovadoras à parte, “My violent heart” entra directamente para a lista das melhores músicas escritas por Reznor. Rodeada de um sentimento angustiante, “My violent heart” é uma espécie de grito de mudança e um manifesto de desilusão, a abordagem que caracteriza a maioria do trabalho dos NIN, aqui num requinte próximo do sublime.

“The warning” parece directamente saída de uma frequência mal sintonizada num auto-rádio de fraca qualidade, e é justamente por esta sujidade auto-infligida que se cola deliciosamente aos nossos ouvidos, e é por isso que se torna um elemento incontornável. De facto, este é apenas o tema em que sobressaem mais os efeitos a que Reznor recorreu na produção de Year Zero, mas todo o trabalho está embebido em sonoridades que ajudam a tornar cada segmento menos limpo, o que o vai tornando num álbum de audição difícil à medida que avançam as faixas.

A partir de “The warning” a oscilação entre os temas é mais evidente. “God given” é demasiado kitsch, mas numa escala em que se torna doloroso ouvir o tema até ao fim, e “The greater good” surge em jeito de interrupção demasiado tardia e demasiado longa. Os pontos médios entre ambos os temas, “Meet your master” e “The greater destroyer” fazem-nos quase esquecer os erros anteriores, especialmente “The greater destroyer”, o maior desfile electrónico dos NIN. “Another version of truth” toma a mesma posição que “The greater good”, desta feita remetendo-nos para The Fragile (1999) pelo recurso ao piano e ao ruído de fundo, fazendo lembrar de algum modo “La mer”. O fim aproxima-se com “Zero-sum”, um tema bastante bem construído para a função que desempenha, e que, tal como “Another version of truth” nos lembra registos anteriores dos NIN.

Year Zero é, assim, pouco surpreendente. Apontá-lo-ia de imediato como um dos álbuns de 2007 se fosse composto pelas primeiras dez faixas, mas a trajectória descendente desse ponto para diante acaba por trair as expectativas que se criam com a audição. É consideravelmente superior a With Teeth e embora as abordagens sejam claramente distintas e muito próprias para cada registo, a produção de Reznor torna os dois trabalhos demasiado próximos. Gémeos dizigóticos.

8/10 | Susana Jaulino

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~ por hiddentrack.net em 21, Abril, 2007.

 
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