Entrevista com Bexar Bexar

Bexar Bexar é um dos nomes da música ambiental e instrumental norte-americana que tem vindo a crescer nos últimos anos, muito devido à sua colaboração com o programa de rádio e televisão “This American Life”. Em entrevista ao hiddentrack.net, o músico texano revelou-nos como iniciou a sua ainda jovem carreira, falou-nos do seu último disco Tropism e de como chegou até ao programa de Ira Glass.

Como foi o teu encontro com a música ambiental e quando sentiste que esta seria a tua vertente criativa?

Os primeiros encontros incluíam Brian Eno, Labradford, e Boards of Canada a meio dos 90’s. Não tomei uma decisão deliberada em fazer este tipo de música, aconteceu de forma bastante natural. Comprei uma guitarra barata e um sintetizador analógico numa feira da ladra e comecei a experimentar. Estas experiências tornaram-se no Haralambos.

Porquê o nome Bexar Bexar?

É difícil explicar. Tirado da Wikipedia: “Santo António de Béxar – originalmente Vila de Santo Fernando de Béxar – foi o primeiro governo civil estabelecido na província espanhola do Texas”. O Texas é o núcleo da música…

A tua terra natal é um elemento decisivo e relevante dentro da tua música. Dirias que a música é um resultado directo da vida em Bexar ou é uma espécie de homenagem?

Não me posso divorciar deste lugar, e não o quero fazer. Vivi em Nova Iorque algum tempo e aprendi o significado da expressão “podes tirar um homem do Texas, mas não podes tirar o Texas dum homem.” O Texas é GRANDE, as pessoas são diferentes e a experiência de viver aqui é grande e diferente. Não consigo utilizar palavras para o descrever… espero que a música o possa transparecer.


Enquanto ouvia o teu trabalho encontrei alguns momentos quase jazz e texturas moldadas por folk. És influenciado principalmente pela música ambiental ou consideras que este é apenas mais um género entre os muitos que deram forma à tua identidade musical?

Eu oiço muitos tipos de música diferentes, mas não muito jazz. Mas adoro a série Ethiopiques de Jazz Etíope. Recentemente, os sons ambientais não musicais têm sido uma grande influência.

Consideras o processo de criar música ambiental como sendo solitário? E de ouvi-la?

Criar é solitário porque trabalho sozinho.
Não descreveria a experiência de ouvir este tipo de música como solitária. Ouvir algo soturno e triste poderá retirar esses sentimentos de dentro do ouvinte, mas quando é bem feito, também confirma a existência de algo universal e básico dentro de cada um dos ouvintes.

O último disco, Tropism, parece estar mais orientado para guitarra que o antecessor, Também tem menos músicas mas cada uma com uma maior duração, criando um álbum mais denso. O que alterou entre os dois lançamentos e qual a tua disposição mental enquanto criavas Tropism?

Comprei uma guitarra acústica barata (numa feira da ladra) e não tinha uma casa permanente. Porque estava sempre a mover-me de um lado para outro, normalmente apenas trabalhava com a guitarra e um computador portátil. Estas limitações levaram à criação de Tropism.

O álbum termina numa forma “desconcertante”. Foi intencional este precaver ao ouvinte de que, apesar de toda a tranquilidade e calmia que se desenrola durante o disco, estas não devem ser tidas como eternas? Ou tinhas outra coisa em mente?

O final é apenas guitarra, mas bastante manipulada digitalmente. A melodia e a suavidade desapareceram. As texturas são um pouco frias, mas igualmente sedutoras para mim. É a mesma linha de guitarra simples que se ouve no início da faixa, mas fracturada e decadente.

A capa dos dois albums tem um ar um pouco “kitsch” e ambas estão associadas a férias de verão e paisagens marítimas… São estas as imagens que queres que os ouvintes tenham em mente enquanto ouvem a tua música?

Nem por isso. Em Haralambos sou eu na capa no México há muitos anos atrás e em Tropism é o meu pai na Florida. Apesar de eu poder associar estas imagens com alguma da música, não espero que os ouvintes façam quaisquer associações concretas.

Consideras que existe um certo paradoxo entre o artwork, luminoso e solarengo, e a música, por vezes nostálgica e obscura?

Depende do ouvinte. Consigo ver a mais obscura escuridão no artwork e a mais confortável luz na música, mas alguém poderá ter uma experiência completamente diferente com o artwork e a música.

Sin Eater, Two Square Miles ou Fashion Island são apenas alguns dos filmes que têm a tua música. É semelhante o processo de escrever música para um filme àquele que utilizas para compor para um disco? Com qual te sentes mais confortável?

Gravar especificamente para um filme é sempre diferente de uma gravação normal. Numa gravação para um filme sabes que a música vai ser combinada com imagens e diálogos, criando algo novo, que vai além dos elementos individuais. Uma gravação normal é, geralmente, uma experiência menos inibida, mais deambulante e indulgente.

Como surgiu a colaboração com o programa de televisão de Ira Glass “This American Life”?

Estava a ouvir o programa um dia e ouvi um trecho de guitarra bastante agradável no fundo. Apercebi-me que eles poderiam utilizar a minha música para o mesmo efeito. Enviei um CDR e eles incorporaram rapidamente a minha música no programa.

Como te sentes em relação ao papel da tua música no programa?

Sinto-me grato e sortudo. O programa tem uma audiência bastante extensa. Tive bastante sorte em que eles pudessem expor a minha música a milhões de ouvintes.

Existe algum filme, qualquer um, que gostarias de re-escrever a sua banda sonora com a tua música?

Normalmente não penso sobre a minha música enquanto vejo um filme. Mas posso dizer que me sentiria muito honrado fazer parte de um filme do Mike Leigh. Creio que a sua forma de criar filmes é muito similar à minha de criar música.

O que tens planeado para o futuro próximo? Digressões? Mais gravações?

Digressões, sim. Mais gravações, sim. Quase que tenho material suficiente para um novo disco (muito diferente de Tropism) e espero gravar muito mais em 2007. Espero fazer uma digressão na Europa novamente no Outono de 2007 e talvez Japão e EUA em 2007-2008.

Gonçalo Sítima
abril.2007

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~ por hiddentrack.net em 27, Abril, 2007.

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