Red Sparowes ao vivo em Madrid

A sala Moby Dick encheu uma vez mais para assistir a um concerto de pós-rock intenso, desta vez, dos norte-americanos Red Sparowes. Com Every Red Heart Shines Towards The Red Sun no seu auge de divulgação, a noite foi marcada por imagens de uma China agrícola de meados do século passado e por eléctricas ondas sonoras que ribombaram incessantemente.

:: 27 de Abril de 2007


Ao som do vermelho Ao vigésimo sétimo dia do mês de Abril todo os ouvidos vermelhos se viraram para os Red Sparowes. Recebidos por uma sala cheia, os norte-americanos apresentaram o seu último disco Every Red Heart Shines Towards The Red Sun (2006) e fizeram estremecer os presentes com dezenas de decibéis de distorção.

À semelhança de outras bandas de pós-rock, a atitude dos Red Sparowes passa por se desprender do contacto pessoal com o público e centrar-se exclusivamente na música. A palavra, ausente das suas composições, desvanece de igual forma nos concertos, deixando a atmosfera para os instrumentos, para as modulações sónicas e para as projecções em pano de fundo. À luz de pequenos candeeiros vermelhos dispostos no chão, criou-se um ambiente envolvente e magnetizador que permitiu uma comunhão entre público e banda.

A composição da banda em palco está destinada a gerar intensidade. Três guitarras, bateria e baixo, sendo que nos momentos mais ambientais a guitarra de Andy Arahood dava lugar à pedal steel guitar de Greg Burns. Por seu lado, Josh Graham era como um maestro de dissonância e ruído, conduzindo a música dos Red Sparowes à medida que os restantes elementos confluíam e explodiam nas músicas. Foi também de sua responsabilidade as imagens saturadas que se projectaram durante o concerto, complementando e contextualizando as músicas. Com Every Red Heart Shines Towards The Red Sun a dominar a actuação da noite, foram quase permanentes as imagens de arquivo de uma China dos anos 50 e 60, agrícola, desesperada, intensamente populada e politizada, que ilustravam o conceito que originiou o referido disco. Em alternativa, nos temas de At The Soundless Dawn (2005), eram expostos elementos urbanos, edifícios que ruíam e céus riscados por cabos eléctricos.

O concerto abriu de forma visceral, com a feroz “Buildings Began to Stretch Wide Across the Sky and the Air Filled with a Reddish Glow”. Sem dispensar os habituais momentos de sossego, de cordas suaves melodicamente rodam sobre si mesmas, esta é uma faixa onde a distorção tem uma força incontornável. O concerto prossegue e desenvolve-se na apresentação do último disco. As faixas de Every Red Heart Shines Towards The Red Sun entrecruzam-se e fundem-se, nos seus habituais momentos de apoteose e calmia. “A Message of Avarice Rained Down Upon Us and Carried Us Away Into False Dreams of Endless Riches” introduz-nos a pedal steel guitar hipnotizante e sedutora. Seria mais tarde, no entanto, que esta se revelaria com todo o seu potencial com “Alone and Unaware, the Landscape Was Transformed in Front of our Eyes”, numa linha melódica que quase poderia ser considerada como uma frase vocal. “Like the Howling Glory of the Darkest Winds, This Voice Was Thunderous and the Words Holy, Tangling Their Way Around Our Hearts and Clutching Our Innocent Awe” entra em estilo militarista, com a bateria de David Clifford a soar a solo, estremecendo os corpos, e à qual se juntam surpreendentes maracas. Foi um exemplo de como a música dos Red Sparowes consegue manter uma natureza corpórea e orgânica mesmo recorrendo a intensas modulações eléctricas, mesmo habitando grande parte do tempo na estratosfera terrestre.

“The Great Leap Forward Poured Down Upon Us One Day Like A Mighty Storm Suddenly And Furiously Blinding Our Senses” confirmou a capacidade do baixo de Greg Burns conseguir produzir algumas das melhores linhas de baixo que se poderão ouvir no pós-rock. Durante o desenrolar desta faixa foi também possível ver como a música dos Red Sparowes tem uma maior força ao vivo quando se tratam de músicas mais concisas, mais directas e com uma dinâmica rítmica menos monótona, que não caia nos extensos crescendos que adormecem mais do que despertam. “Finally As That Blazing Sun Shone Down Upon Us Did We Know That True Enemy Was The Voice Of Blind Idolatry; And Only Then Did We Begin To Think For Ourselves” termina o concerto, temporariamente, pois a banda regressaria uma vez mais para gáudio dos presentes. O encore foi personificado por “The Sixth Extinction Crept Up Slowly Like the Sunlight Through the Shutters as We Looked Back in Regret”, música de momentos simples, com a guitarra de Josh Graham em sussurro solitário, em íntimo desenvolvimento. Com a erupção de todos os instrumentos no final, o regozijo sónico estava completo, a banda podia regressar a casa.

Com excepção de algumas adversidades técnicas que sofreu o aparato electrónico da guitarra de Josh Graham e de alguns momentos mais inertes das composições de Every Red Heart Shines Towards The Red Sun, o concerto foi uma experiência violenta e impactante. Numa conjugação de música e imagem, os Red Sparowes não tiveram a intenção de dar uma lição de história, mas de nos levar numa viagem sensorial, onde a ideia se une ao sentimento e a mente, entregue à ruidosa melodia, se perde e se aparta do espaço e do tempo.

Texto e fotos: Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 27, Abril, 2007.

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