Qualude – El Orden De Las Cosas

A passagem dos espanhóis Qualude por Cascais em 2005 fez-me ver que apesar da vizinhança geográfica entre Portugal e Espanha conhecia muito pouco do que por lá se fazia de rock independente. Deixou-me alguma frustração a possibilidade de estar a negligenciar um conjunto de artistas, uma porção de música de fácil obtenção, que poderia ser bastante proveitosa. Desde então, o nome dos Qualude ficou e a eles se juntaram outros nomes, como os Pupille (projecto de pós-rock deveras interessante).

Com o disco homónimo de 2001 na mão, assisti à exibição dos Qualude com a certeza que iria ver um concerto de indie rock experimental, com laivos de pós-rock e de natureza maioritariamente instrumental. E assim foi, com excepção das músicas novas na altura. Ao segundo disco, El Orden De Las Cosas, a evolução confirma-se. Mais desprendidos dos momentos ambientais e com a voz a assumir um papel importante nas composições, o rock dos Qualude tornou-se mais palpável, mais concreto.

“Volver A Empezar” ajusta-se perfeitamente ao percurso biográfico dos espanhóis, que debandaram em 2002 e apenas regressaram ao activo em 2004. Uma faixa de rock musculado, com uma ascendência quase core, e a voz de Miguel Carratalá a surgir de forma cuidada e equilibrada. “Gavilán o Palomo” é uma justa sucessora e a energia é eficazmente mantida. O sossego melancólico vem com “Caminico”, em jeito de balada eléctrica e arrastada, onde a guitarra sofrida tem um papel preponderante.

Sem querer, “Sambita” torna-se numa faixa extremamente relevante dentro de El Orden De Las Cosas. Trata-se da única composição meramente instrumental do disco e tem um balanço impregnante – daí o seu título, suponho. O trompete soa timidamente, complementando o ambiente animado, fazendo recordar alguns momentos do álbum de estreia. Mas não é somente pela sua qualidade que esta música tem a importância que referi. Ela marca um ponto de viragem no disco onde a presença vocal de Miguel Carratalá parece incomodar mais do que agradar. Toda a segunda parte do álbum, centrada nos atentados melódicos que são “Entonces” e “Aniversários Y Fiestas”, é um verdadeiro desastre. Embora a faixa homónima do disco pareça recuperar algum do prazer que se sentiu anteriormente, algo parece em falta.

O recobro surge, no entanto, com a épica “Anónimos”. Numa junção bem conseguida entre os momentos mais energéticos e mais reclinados da música dos Qualude, nem a voz de parece incomodar como anteriormente.

El Orden De Las Cosas não deixa de ser um bom disco de rock alternativo cantado em espanhol. A proeminência da voz e do idioma poderá ser um elemento de difícil aceitação por parte do público português, pouco habituado a ouvir rock espanhol. Eu próprio o senti. Mas o principal erro de El Orden De Las Cosas está na desordem encontrada no alinhamento, deixando as primeiras músicas antever uma continuidade que não se verifica. Um disco que vale pela metade.

6/10 | Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 29, Abril, 2007.

 
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