Joanna Newsom – Ys

Ys é o nome de uma cidade submersa que vive nos mitos da Bretanha, algo semelhante à mítica Atlântida, mas com raízes na cultura celta. E é também o nome do segundo álbum de Joanna Newsom lançado pela Drag City.

Depois de The Milk-Eyed Mender (2004), Joanna Newsom regressou com um álbum grandioso que foi prontamente aclamado pela crítica. Oriunda do Nevada, Newsom é uma trovadora do século XXI, nomeada já como embaixadora do folk psicadélico, ao lado de nomes como o de Devendra Banhart, com quem esteve em digressão depois do lançamento do álbum de 2004.

Ys é um álbum que nos conta histórias. A sua essência reside na narração de episódios reais da vida de Joanna Newsom, escondidos por entre brumas alegóricas. A trovadora puxa-nos pela mão e obriga-nos a mergulhar nesse mundo submerso que é o seu, que poderá também ser nosso. A verdade escondida por detrás da metáfora dá-nos essa liberdade – ler nas entrelinhas a história que melhor nos satisfaz.

“Emily” abre o álbum com uma elevada carga biográfica. Emily é também o nome da irmã de Joanna Newsom e a ela pertence a voz que acompanha a narradora. Repleto de referências astronómicas – não fosse Emily astrofísica de profissão –, o tema assemelha-se a um tributo às relações entre irmãos, de aprendizagem e amizade, numa proximidade que gostamos de pensar que se prolongará pela eternidade.

Mais histórias se seguem a “Emily” num mesmo registo que nos traz à memória contos medievais. Newsom interpreta os seus temas de forma expressiva, recorrendo a arcaísmos (como o “thee”, na abertura do álbum), e compondo letras densas em movimento e vivacidade. Apesar de os temas serem longos, ou não fossem eles narrações, nunca nos deixam cair no aborrecimento. Antes pelo contrário, inevitavelmente vamo-los acompanhando por entre florestas e cenários de contos de fadas, ao ritmo da harpa de Newsom, sempre no centro das nossas atenções, e da orquestra de Van Dyke Parks, sempre discreta e harmoniosa.

“Sawdust & Diamonds” é a terceira história que a trovadora nos entrega e é o tema que mais se distingue dentro de Ys. A voz bizarra e angelical de Joanna Newsom, acompanhada apenas pela sua harpa, oferece-nos um momento de rara beleza. Sereno, melodioso, de um lirismo onírico que encanta, “Sawdust & Diamonds” acaricia-nos o espírito fatigado e maltratado pelo caos emocional do dia-a-dia. Mas não nos deixa sossegar realmente. A inevitabilidade da morte ou a efemeridade da vida, o Amor e o desejo, são conceitos abordados, explorados e sem conclusão. O tema termina com a mesma interrogação que lhe dá início: “From the top of the flight/ Of the wide, white stairs/ Through the rest of my life/ Do you wait for me there?”

A última história chega ao mesmo tempo que o final do álbum. “Cosmia” é a quinta faixa de Ys e vai encerrá-lo de forma entristecedora, apesar de magistralmente interpretada e orquestrada. A antecede-la temos “Only Skin” que não é mais que o âmago de toda esta obra, uma vez que reúne e interliga os quatro acontecimentos narrados e talvez por isso seja também o tema mais longo.

Com Ys Joanna Newsom chegou muito perto daquilo que se poderá chamar obra-prima. Talvez seja mesmo a sua. Extremamente bem pensado e concebido, Ys é o desnudar da alma da sua autora, mas que os ouvintes dificilmente conseguirão visualizar. Nem é preciso. A arte vive por si mesma, a nós cabe senti-la e desfrutar.

9/10 | Sílvia Dias

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~ por hiddentrack.net em 1, Maio, 2007.

 
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