Festival Creamfields Lisboa 2007

O conceito do festival britânico Creamfields aterrou no local onde se realizaram já duas edições do festival Rock In Rio. Uma estreia ambiciosa, para um público meio desatento sob um clima que foi tudo menos caloroso e concertos ora apáticos ora enérgicos.

:: 19 de Maio de 2007

A cidade de Lisboa foi escolhida este ano para albergar o festival electrónico Creamfields. O conceito é britânico e remonta a 1998, quando a gerência da discoteca Cream, em Liverpool, decidiu alargar a sua área para espaço aberto. Estando o nome explicado, resta acrescentar também que se Lisboa foi uma estreante no dia 19, algumas cidades por todo o mundo acolheram já réplicas deste festival, sendo Praga, Moscovo, Buenos Aires ou Istambul alguns exemplos. Pois bem, a organização do Creamfields propunha-se a oferecer todo um mundo novo de experiências aliadas à música, como por exemplo o Silent Club, uma tenda onde cada pessoa que se propunha a entrar recebia headphones e por isso dançaria no meio do silêncio. Inovar e experienciar era a premissa do evento, mas a sensação que de facto ficou foi que nem tudo funcionou harmoniosamente. E o funcionamento duvidoso começou logo com a tentativa de entrada no recinto. Uma única entrada visível para as cerca de 30 mil pessoas que se deslocaram ao Parque da Bela Vista. Digo visível porque ao fim de quase uma hora de espera na fila um agente da PSP informou que existia outra porta onde não se esperavam mais de dez minutos para entrar. E a indicação da segunda porta? Onde estava?

Ultrapassados todos os obstáculos para entrar no recinto, a meta finalmente foi atingida numa altura em que o relógio se aproximava perigosamente da hora a que os concertos começariam no palco principal e depois de uma apreciação muito breve (e exterior) das tendas/recintos montados pelo parque, foi possível assistir ainda aos últimos minutos da actuação dos You Should Go Ahead. Seguiram-se os Expensive Soul, já com um público considerável em redor do palco e perto das nove e meia da noite o espaço junto ao palco principal teve uma das maiores afluências do dia para ver a actuação dos Da Weasel (superados em público apenas pelos Prodigy). É incontestável o enorme número de fãs que a banda arrasta atrás de si, sobretudo depois do sucesso dos últimos álbuns que os Da Weasel editaram. Sendo praticamente uma estreante em concertos do Da Weasel (a primeira vez tinha sido há cerca de cinco anos no já “falecido” Festival Ilha do Ermal), a sensação que ficou depois do último tema tocado foi que a banda tinha cumprido o seu dever, e a julgar pelos sorrisos à minha volta, saíra-se bem.

Com o final do concerto dos Da Weasel, grande parte do público presente dispersou, deixando uma clareira relativamente grande em frente ao palco, que se foi lentamente preenchendo com o tempo, qual ampulheta. Pouco depois das onze e dez minutos, as luzes apagaram-se e os Placebo fizeram a sua aparição, abrindo o concerto com “Infra-red”, tema do último trabalho – Meds (2006). Consta que os Placebo, e em particular, Brian Molko, insistem a manter uma espécie de distância nas actuações em ambiente de festival, e se de facto tal se verificou na edição de 2006 do Festival Super Bock Super Rock, desta vez os Placebo voltaram a esticar a corda. Depressa deu para perceber que o concerto do trio britânico não estava a correr conforme planeado, quer pelas constantes movimentações do staff da banda pelo palco, e sobretudo pela entrega (ou falta dela) da banda na actuação. Apesar de tudo, e ainda que a banda tenha terminado o concerto antes do previsto, os Placebo proporcionaram bons momentos, sobretudo com os temas “Every you every me”, “Sleeping with ghosts” e a incontornável “Special K”. A banda pôs fim ao concerto com “The bitter end”, e quando todos pensavam que a saída era momentânea, o palco começou a ser desmontado, deixando os que se tinham deslocado ao recinto para ver os Placebo num misto de revolta e desilusão.

O fim antes da hora anunciada do concerto dos Placebo acabou por proporcionar a possibilidade de ver actuar no palco Axe Radio Soulwax os portugueses Wraygunn. O sítio era verdadeiramente inóspito, demasiado alto e demasiado desagradável numa noite fria e ventosa como a que acompanhou, de resto, todo o evento. Este palco destinado ao rock (onde actuaram também The Poppers e Vicious Five) não podia estar em pior localização. Ficava justamente nas traseiras de uma das áreas de música do festival, neste caso, o Kubic (uma “fusão entre arquitectura, luz e ritmo”, nas palavras da organização). Assim, foi impossível não sentir a vibração que vinha não só deste recinto em particular, mas também das restantes tendas em redor durante a actuação da banda de Coimbra, que acabou por proporcionar (depois da desilusão que fora Placebo) o melhor concerto da noite. A banda de Paulo Furtado trazia o novo trabalho para apresentar, Shangri-la, recentemente editado, e foi sobre o novo registo que incidiram as escolhas da banda. Paulo Furtado apresentou-se como de costume, na sua postura de anfitrião atrevido e provocador e até as diversas reclamações que o músico fez em relação ao ambiente e às condições em que a banda tocou estavam repletas de sentido de humor e de charme. Na hora que preencheu a actuação dos Wraygunn, a banda desfilou temas do último álbum como “Ain’t it nice”, “Work me out”, o single “Sh’e a go-go dancer” ou “Love letters from a motherfucker”, sendo que esta última se revelou uma das melhores apostas do novo trabalho, conferindo uma agressividade arrojada e bem disposta à actuação da banda. Dos trabalhos anteriores não ficaram de fora temas como “Keep on prayin’”, “Drunk or stoned” e “All night long”, o último tema, já com a habitual incursão de Paulo Furtado pelo meio do público. O concerto dos Wraygunn terminou e com o seu fim o frio apoderou-se novamente dos corpos que por momentos tinham sido sacudidos pelo rock ‘n’ roll de uma das mais interessantes e criativas bandas nacionais.

Findo o concerto dos Wraygunn, encetou-se nova caminhada até ao palco principal, onde já estavam a actuar os britânicos Prodigy, verdadeiros cabeças de cartaz do festival. Sendo que a actuação já deveria ter começado há cerca de quinze minutos, os grandes temas dos Prodigy e do seu electro-punk foram deixados mais para o fim. Falo obviamente de músicas como “Firestarter”, “Poison” e “No good” que pôs toda a massa humana a dançar em uníssono, num ondular de corpos intenso, mas longe do estonteante de que os Prodigy poderiam ser capazes. Na verdade, a banda manteve uma atitude ligeiramete apática, sendo que os incentivos mais ou menos constantes de Maxim e Keith Flint soaram a maior parte das vezes forçados e distantes. Sem álbuns novos desde 2004, data da edição de Always Outnumbered, Never Outgunned, os Prodigy limitaram-se a fazer arranjos diferentes na maior parte dos temas, proporcionando essencialmente cerca de uma hora e meia de dança dinâmica. Para o fim, “Smack my bitch up”, momento alto da noite em ex-aequo com a fortíssima “Voodoo people”. A banda sai de palco e não há insistências. Ainda não é tarde e existem ainda muito para explorar no recinto, pelo menos até às seis da manhã.

De um modo breve, não existiram catástrofes a afectar o evento. Existiram falhas próprias das primeiras edições de produções do género, nomeadamente a falta de indicações para os diversos espaços do festival, bem como a quase total ignorância acerca dos horários das bandas nos três palcos, provavelmente porque a distribuição dos mesmos foi feita de forma heterogénea e em locais por onde nem todos passavam. Não se sabe se esta edição/experiência do Creamfields em Lisboa será repetida. A acontecer, o Boom Festival deixará de ser invicto com único festival (dito oficial) de música electrónica e terá uma espécie de rival urbano mais sofisticado (e talvez intenso pela sua curta duração). Se a nível da prestação das bandas e da distribuição dos palcos e recintos a primeira edição deste festival em Lisboa saiu prejudicada, então limem-se as arestas e esperem-se melhores actuações e o Creamfields Lisboa terá tudo para se poder afirmar.

texto: Susana Jaulino
fotos: Vasco Pereira

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~ por hiddentrack.net em 19, Maio, 2007.

 
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