Entrevista com Linda Martini

Meio ano depois do lançamento de Olhos de Mongol, os Linda Martini são um caso raro no panorama rock nacional. Uma ascensão meteórica impulsionada pelas novas tecnologias e uma atitude audaz e descomprometida na forma de fazer música são dois dos factores que os singularizam dos demais grupos. O hiddentrack.net falou com o vocalista e guitarrista André Henriques sobre a concepção, maturação e lançamento do álbum de estreia, assim como das experiências no estrangeiro e dos planos para o futuro.

Em jeito de introdução, como apresentariam a música dos Linda Martini aos que lêem esta entrevista e, principalmente, àqueles que não vos conhecem ainda?

André Henriques: Rock, com todos os sufixos e prefixos que vos apeteça acrescentar.

Meio ano depois do lançamento de Olhos de Mongol, como analisam o percurso da banda?

A.H.: Surpreende-nos o facto de termos chegado a tanta gente. Até porque estamos numa editora independente e nunca tivemos uma máquina de promoção por trás. De resto não mudou muita coisa. Não somos reconhecidos na rua, temos profissões “normais” das 9:00 às 18:00 e, quando conseguimos conciliar as disponibilidades, encontramo-nos para ensaiar.

Qual o conceito por detrás de Olhos de Mongol? Poderá ser considerado um álbum de canções singulares que se complementam; um corpo homogéneo que se vai desenvolvendo naturalmente do princípio ao fim; ou tem uma outra estrutura global?

A.H.: Não é um álbum conceptual, na medida em que não existe nenhum conceito que aglutine tudo o resto. É corte e costura como tudo o que temos feito. Pegámos em músicas da altura da promo e juntámos coisas novas que foram saindo. Por exemplo, o “Partir para Ficar” já tinha sido gravado na altura da promo mas não mostrámos às pessoas porque não tínhamos a autorização dos direitos do FMI.

Qual o simbolismo do seu artwork e que relação poderá ser estabelecida com o conteúdo do disco?

A.H.: A Another foi a responsável pelo artwork. Explicámos-lhes o nome do álbum, ouviram as músicas e o resultado final foi a interpretação deles. O artwork tem muitas texturas e podes encontrar diferentes pormenores no meio daquela confusão toda. Acho que esse é o verdadeiro paralelo: não é imediato, precisas de ver mais vezes para descobrir tudo.

Em relação à gravação do álbum, este foi um processo sofrido (há quem o compare com o próprio acto de “dar à luz”), ou correu de forma espontânea, livre e despreocupada?

A.H.: Não foi um processo sofrido em termos de composição, uma vez que a maioria das músicas já tinham sido tocadas ao vivo. Podemos dizer até que a gravação foi muito mais espontânea e livre do que a do EP. Quando gravávamos uma guitarra ou um baixo não ouvíamos o que as outras guitarras tinham gravado, apenas a bateria, o que acabou por potenciar mais situações de improviso em termos de arranjos. Surpreendeu-nos imenso quando começámos a ouvir todos os instrumentos em simultâneo. O que motivou o atraso do disco foi o facto de o primeiro master não corresponder às nossas expectativas, o que nos obrigou a enviar o disco para Barcelona para uma nova mistura e masterização.

“Cronófago” foi o primeiro tema escolhido para apresentar o álbum. A sua natureza predominantemente rock e ruidosa poderá não ser tão facilmente assimilada pelo “grande” público como foi “Amor Combate”. O que vos levou a optar por esta faixa como primeira amostra de Olhos de Mongol?

A.H.: É engraçado dizerem que não é “tão facilmente assimilada pelo grande público” porque me lembro de alguns comentários na net dizerem que já nos tínhamos vendido e que a música era muito comercial! O nosso passado está muito ligado ao punk e ao hardcore e continuamos a gostar de músicas rápidas e ruidosas como o “Cronófago”. Pareceu-nos também que era uma música atípica dentro do álbum e apeteceu-nos mostrar esse lado.

Com alguns concertos dados pela Europa, como foi a experiência de apresentarem a vossa música a um público dissemelhante do português? Sentiram que as músicas cantadas na língua camoniana possam ter criado algum tipo constrangimento ao público estrangeiro?

A.H.: Foi uma experiência engraçada. Andarmos perdidos no metro de Londres com as guitarras às costas e chegar ao clube para nos dizerem que não existem 3 amplificadores de guitarra foi educacional. À última hora arranjaram-nos um amplificador quase “de bolso” com 10 Watts que, por sinal era o que tinha melhor som! Em Dublin tocámos para cerca de 600 pessoas e estava tudo maluco! No final todos queriam autógrafos e tivemos uma recepção como, até aquela data, não tínhamos tido em Portugal. Falei com algumas pessoas após o concerto e apercebi-me de que eles acham piada ao facto de cantarmos em português. Funciona como um factor distintivo porque não é todos os dias que podem ver e ouvir uma banda a cantar em português.

Recordo-me de terminarem um concerto em Évora, em 2005, com um poema bastante forte de Joaquim Pessoa intitulado “Poema Temperamental”. Li que foi também na poesia deste escritor que encontraram inspiração para “Amor Combate”. No concerto de lançamento de Olhos de Mongol, no Santiago Alquimista, foi possível ouvir-se José Mário Branco. Qual o peso da literatura portuguesa, e da poesia especificamente, na composição dos vossos temas e das vossas letras? E já agora, será que Joaquim Pessoa poderá aparecer novamente num dos vossos concertos?

A.H.: A literatura influencia-nos porque lemos com alguma frequência, mas não andamos com a caneta em riste em busca de citações. São as coisas que vêm ter connosco. Aconteceu com o José Mário e o Joaquim Pessoa mas a literatura não tem maior peso que tudo o resto. Tudo nos pode influenciar a escrever.

Li numa outra entrevista que preparam algo para um possível vinil, podem adiantar mais sobre este projecto? E que outros projectos têm já planeados?

A.H.: Existe uma ideia, que por enquanto é apenas isso, de as bandas do Black Sheep fazerem splits entre elas. Ainda está tudo na mesa do café, não podemos adiantar mais nada.

Participaste recentemente no primeiro álbum dos Men Eater, emprestando a voz ao tema “Lisboa”. Como surgiu esta oportunidade?

A.H.: As colaborações têm uma grande importância para nós, sobretudo quando se trata de amigos e pessoas que admiramos. Os Men Eater são amigos chegados, tal como os Riding Pânico e os If Lucy Fell. Disseram-me para escolher uma das músicas que estavam a gravar, fazer um letra e dar-lhe título. Quando te convidam a responsabilidade é maior porque tentas corresponder a outras expectativas que não as tuas. No final penso que ambas as partes ficaram satisfeitas com o resultado.

Como ávidos consumidores de música, como suponho que sejam, que lançamentos actuais vos despertam maior interesse (tanto no espectro nacional como internacional)?

A.H.: TV on the Radio, Sam the Kid, Burial, Klaxons, These Arms are Snakes, Cat Power, CSS, Kalaf+Type, Dead Combo, Men Eater, Riding Pânico, Sizo, Beastie Boys, Bonnie “Prince” Billy, Buraka Som Sistema, Blood Brothers…e muito mais.

Para terminar, o que diriam ou recomendariam, em jeito de ponto de partida, a alguém que comprou o vosso álbum e que o vai colocar pela primeira vez na aparelhagem?

A.H.: “Epá, compraste isso? Isso é tipo Ornatos e Toranja, mas um pouco mais pesado.”

Gonçalo Sítima e Sílvia Dias
maio.2007

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~ por hiddentrack.net em 23, Maio, 2007.

 
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