Neurosis – A Sun That Never Sets

Depois do assombroso Times Of Grace (1999) os Neurosis editam um álbum assumidamente distinto daquele que é muitas vezes considerado a obra-prima da banda. A Sun That Never Sets é um álbum que mantém, em determinados momentos, a dinâmica presente nos trabalhos anteriores, mas é também fortemente influenciado por outros espectros da música, nomeadamente a folk. Parece de facto estranho, mas o destaque que a banda deu à folk em A Sun That Never Sets criou toda uma atmosfera meio obscura, soturna e melancólica e transformou este registo num trabalho não só extremamente cuidado, como de uma beleza requintada.

“Erode” é a introdução para “The tide”, a primeira prova de que este álbum é ser de facto diferente. Com uma forte componente acústica, “The tide” é, no entanto, perfeitamente capaz de nos encher as medidas e de nos causar um arrepio na espinha às primeiras palavras “where are they now? / they are gone”. Com a progressão do tema, é fácil perceber que vamos estar perante um registo longe da dinâmica enfurecida dos registos anteriores, sendo que em A Sun That Never Sets há toda a criação de uma atmosfera mais densa, mais arrastada, mesmo que os últimos momentos de “The tide” sejam furiosos, poderosos.

“From the hill” contraria nalguma medida o tema anterior, impõe uma maior dinâmica, mas é, de qualquer forma um tema que mantém a ondulação de A Sun That Never Sets. Apesar disso “From the hill” é um dos temas deste registo que mais nos remete para os dois álbuns anteriores. “A sun that never sets”, o tema seguinte, permite-nos escutar mais claramente as influências da folk e atentar nos pormenores dos riffs arrastados que de resto, caracterizam todo o álbum. O tema-título não tem mais que cinco minutos, mas ataca-nos indiscriminadamente, muito por via da componente lírica (que aliás é um dos melhores pormenores de todo o álbum) e da força e sentido que Scott Kelly põe nas palavras.

Segue-se “Falling unknown”, que mantém a homogeneidade do registo, característica que de resto, sempre esteve presente nos trabalhos dos Neurosis. Este é o tema mais longo do álbum, que nos arrasta em expectativa durante dez minutos para um desfecho crescente, mas sem as catarses que se poderiam esperar. “From where its roots run” traz de volta as influências tribais que marcam presença em pontos particulares dos álbuns da banda. Sem muito a acrescentar ao contexto do álbum, este tema faz a ponte entre “Falling unknown e “Crawl back in”. Este é de uma sensibilidade estranha, quase demasiado delicado, não fosse mais uma vez o desfecho revelar-se destruidor em todo o seu esplendor. Passamos de um quase spoken word para as vocalizações que melhor conhecemos da carreira da banda. É um dos temas centrais do álbum, no qual facilmente nos viciamos.

O tema seguinte, “Watchfire”, é também um dos grandes temas de A Sun That Never Sets, dotado dos melhores pormenores de guitarra ao longo de todo o álbum, e vai lentamente recuperando a sonoridade peculiar dos registos anteriores. “Resound” leva-nos para uma espécie de concerto de carrilhão e aproximamo-nos do fim do sétimo registo dos Neurosis. A fechar A Sun That Never Sets, “Stones from the sky”. Este tema prende-nos ao primeiro segundo, pela guitarra, quase melancólica, hipnotizante. É sobretudo no início deste tema que mais sobressaem os elementos folk e avant-garde presentes no registo. “Stones from the sky” revela-se um tema possante e encerra o trabalho de modo a deixar-nos plenamente preenchidos por A Sun That Never Sets.

Este registo é um daqueles trabalhos com os quais não se angariam mais fãs. A Sun That Never Sets é um trabalho altamente experimental onde os Neurosis procuraram fazer uma abordagem diferente do trabalho que vinham desenvolvendo, procurando fundir espectros musicais demasiado distintos por vezes. O resultado final, esse, é de uma peculiaridade agradável, que não fazendo de A Sun That Never Sets um álbum de cortar a respiração, faz dele um álbum propício à contemplação.

8/10 | Susana Jaulino

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~ por hiddentrack.net em 24, Maio, 2007.

 
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