Neurosis – Sovereign

Sovereign é, na sua essência, um MCD de transição, um prelúdio para o que havia de vir. Quatro faixas apenas – mas que se estendem por meia hora – complementadas por um conteúdo interactivo e audiovisual, que permitem aos Neurosis preparar o seu próximo salto evolutivo. Times Of Grace (1999) já tinha comprovado a aproximação da banda a terrenos mais apaziguadores, com uma folk latente à agressividade do metal sui generis que compõem, e Sovereign revela a vontade de continuar nessa direcção.

“Your mind is a conduit / Your mind is as vast as the universe” é uma das mensagens que se pode ouvir na entrada de “Prayer”, o início do disco. Tem sido com esta premissa metafísica que os Neurosis têm trabalhado nos seus temas mais recentes e é com ela que prosseguem o seu labor. Em embalante toada, como uma prece, a faixa cresce pela junção independente das vozes de Steve Von Till, Scott Kelly e Dave Edwarson. A beleza da simplicidade instrumental é conjugada pela força dos cânticos dos três homens, em emotiva libertação. “An Offering” poderia muito bem ter feito parte de Times Of Grace. A bateria cavalgante traz consigo ondas sonoras ambientais controladas por Noah Landis que arrepiam, até ao recuo súbito onde a voz suja prossegue na sua vaga poesia messiânica. Um universo de deuses, profecias e bestas, como já é habitual da banda.

“Flood” é uma faixa que vive das percussões, fazendo relembrar a antiga “Cleanse” mas mais sintética e directa. Sem impressionar ou possuir qualquer característica digna de especial destaque, este é um tema que passou a funcionar como uma eficaz abertura dos concertos, dos escassos concertos que a banda já dava nesta altura. Para o final ficou a pérola deste disco, “Sovereign”, confirmando o hábito da banda em intitular os seus discos após as melhores faixas que o compõem. A sua primeira metade é típica dos Neurosis: após uma inquietante temperança de dissonâncias surge uma frenética sequência de rompimentos sónicos, de samples de revibrações nervosas, e as vozes catárticas sempre no seu limite. Já o final, sob o manto grave do piano e da voz de Steve Von Till, deixa-nos como náufragos numa noite de lua nova. Com os instrumentos de sopro a aumentarem a carga dramática final, “Sovereign” termina deixando indícios do que poderíamos encontra no próximo disco de longa duração da banda. Pouco a pouco e sem se saber, era possível sentir o brilho de A Sun That Never Sets (2001).

6/10 | Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 24, Maio, 2007.

 
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