Neurosis – Times Of Grace

Passaram sete anos desde o lançamento de Souls At Zero (1992). O número sete está carregado de simbolismo, de misticismo ancestral. Dos sete dias da criação do mundo até às sete divindades que comandam a natureza ou as sete pragas do Egipto, não terá sido por acaso matemático que os Neurosis atingiram a sua epifania criativa com Times Of Grace. No ocaso do milénio, o quinteto norte-americano formado por Scott Kelly, Steve Von Till, Dave Edwardson, Jason Roeder e Noah Landis edita um disco poderoso, movido por forças telúricas, que parece concretizar o árduo caminho percorrido pela banda. O futuro que aguarde em suspenso temor, vivemos agora em tempos de graça.

“Suspended In Light” é uma entrada triunfante, de magna dimensão e que nos invade de luz. É como um profundo respirar de olhos fechados antes de um saltar vertiginoso. O riff inicial de “The Doorway”, pesado na sua dissonância que nos deixa um travo metálico na boca, é uma monumental descarga sensorial que consegue fazer-se sentir no sistema nervoso, preparando-o para a explosão da bateria e, momentos depois, para a voz de Scott Kelly. A primeira música é mais que prometedora, é um deleite intenso capaz de fazer revibrar o espírito. “Under The Surface” dá seguimento ao mesmo sentimento e é alimentada por um ritmo contínuo e permanente. A acalmia encontrada na sua metade não é mais que um catalisador de um final imponente onde as palavras ecoam ruidosamente, mesmo após o seu desaparecimento: “your shell is hollow, so am I / the rest will follow, so will I”.

O seguimento cronológico traz-nos “The Last You’ll Know”, uma composição que se desenvolve de forma já previsível para quem conhece a banda, com o característico compasso arrastado, mas que introduz uma inédita proeminência melódica de gaita-de-foles. Talvez não seja o suficiente para apelidar Times Of Grace como um álbum progressivo dentro da discografia dos Neurosis, mas tem um resultado extremamente eficaz e apreciável. Em “Belief” somos conduzidos por um inquieto embalo que nos deixa em “Exist”, o ponto de sossego.

A complexidade e o mérito das composições dos Neurosis não se encontram na sua estrutura de acordes ou padrões rítmicos, que podem até ser considerados minimalistas e cíclicos, mas na emotividade que estes emanam. No entanto, não será de censurar quem encontre na sequência musical interna às composições da banda alguma previsibilidade exagerada. Talvez a atitude correcta seja ver cada tema como um conto popular de origem desconhecida, nascido do solo fértil e não de um tubo de ensaio minucioso. Se se ouvir “End Of The Harvest” com esta premissa em mente, com a pele aberta ao vento carregado de sementes viajante, talvez se consiga atingir um estado de êxtase profundo, uma catarse telúrica incomensurável. Sim, é neste exagero emotivo que se encontra a real percepção da música. Esta é a obra-prima dos Neurosis, concentrada em sete minutos e meio. Sete. O seu teor lírico encontra-se nos últimos versos, ditos por Von Till em crescendo efusivo: “bend your thoughts, unveil your soul / now drink, revive, reach, scrape and bind.”

Após uma intensidade quase insuportável, “Descent” traz-nos de volta com um ambiente moldado mais uma vez por instrumentos de sopro e um ritmo de marcha que concretiza o movimento descendente. É então que encontramos “Away”, uma composição calma e contemplativa onde a voz de Steve Von Till, em bom estilo folk, é acompanhada por piano, violoncelos e silêncios vários. “Times Of Grace” segue a mesma linha intensa presente em “The Doorway” e “End Of The Harvest”, e as três faixas compõem um tríptico de fúria sonora dentro do álbum. O que difere “Times Of Grace” das restantes é a sua quase incessante vontade de fazer o corpo e a mente estremecerem, provocando um estado de trepidação tântrica. É eficazmente apoteótica e finalizadora. Mas resta ainda tempo para o acenar de “The Road To Sovereignty”. O álbum termina com um afastar instrumental que nos abre um novo caminho entre névoas, para um futuro incerto ou, se assim se entender, para um retorno. “The Road To Sovereignty” leva-nos consigo de forma tão eficiente que, se assim estiver definido, se possa ouvir o início de “Suspended In Light” com uma fluida ânsia e antecipação – um ciclo perfeito.

Paralelamente à edição de Times Of Grace foi lançado pelo alter-ego dos Neurosis, o projecto de experimentação sónica e ambiental Tribes Of Neurot, um disco intitulado Grace. O objectivo proposto está em ouvir-se em simultâneo as duas obras. O resultado, depois da conjugação em estéreo (ao quadrado) dos dois discos, é uma intensificação sónica que foge à descrição literária e que provoca uma longa efusão lírica. Mais que uma ideia original, é um desafio sensorial de profundidade abismal.

Times Of Grace é a obra que melhor consegue captar a essência do que é o colectivo de músicos e artistas em torno dos Neurosis. Sofrendo apenas ligeiras alterações de formação, o esqueleto da banda manteve-se durante anos o que permitiu um crescimento visível de álbum para álbum. Times Of Grace é o estado da maturidade adulta por excelência. É nesta qualidade que os seguidores da carreira da banda poderão encontrar os prós e os contras de Times Of Grace. No seu interior está a rebelde vontade de liberação violenta que acompanhou os primeiros discos e um iluminado desejo de flutuar e deixar render o espírito, de sossego envelhecido. São o reflexo de um equilíbrio que demoverá os adeptos da agressividade ruidosa, tão patente no metal, e que não terá a capacidade de atrair mentes adversas a essa mesma agressividade, a esse mesmo género. Permanecerão aqueles que se renderam à banda, que se cobrem com os seus ramos e bebem da sua seiva. Para estes (nós), Times Of Grace será um álbum cujas raízes penetrarão no futuro, relembrando-lhes com uma pulsante vida de onde vieram e a onde poderão regressar.

10/10 | Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 24, Maio, 2007.

 
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