Neurosis

Numa analogia astronómica, os norte-americanos Neurosis poderiam ser perfeitamente considerados uma espécie de astro em torno do qual gravitam uma série de outras bandas que são já elas próprias lufadas de ar fresco e casos raros de interesse no panorama do rock/metal experimental. Nomes incontornáveis como Isis ou Cult Of Luna ou outros mais desconhecidos como Rosetta ou The Sound Of Animals Fighting (que usaram inclusive samples do tema “A sun that never sets”) teriam tido um caminho bem mais complicado (ou será que o teriam sequer iniciado?), não fossem todos os passos que os Neurosis vêm dando ao longo de cerca de 22 anos de carreira.

A banda nasce então em 1985, sendo um projecto conjunto do guitarrista e vocalista Scott Kelly, do baixista Dave Edwardson – que haviam tocado juntos nos Violent Coercion –, e do baterista Jason Roeder. Nesta fase primordial, a banda estava associada ao movimento punk hardcore/crossover e os dois primeiros registos dos Neurosis são frequentemente associados ao trabalho de bandas como os Discharge ou os Black Flag. Foi por via da experimentação e da exploração de novas ambiências que os Neurosis se foram afastando progressivamente das raízes hardcore que marcaram a formação e os primeiros passos da banda.

Dois anos após a formação da banda, é editado o primeiro trabalho dos Neurosis. Pain Of Mind (1987), um álbum constituído por dez temas, que no total ronda os quarenta minutos. Pequeno portanto, se pensarmos nos trabalhos mais recentes do colectivo. De facto, o primeiro trabalho dos Neurosis está plenamente recheado das influências hardcore da banda. O álbum conta ainda com a participação do guitarrista Chad Salter, que abandonaria a banda em 1989 após dois anos de colaboração. Pain Of Mind haveria de ser reeditado anos mais tarde, em 1994 (pela Alternative Tentacles) e em 2000 (pela editora da própria banda, a Neurot Recordings).

O ano de 1990 trouxe efectivamente novidades para a banda. Entram para a banda Simon McIlroy (para os keyboards) e Adam G. Kendall, que se tornou o primeiro responsável pela componente visual que acompanha as actuações dos Neurosis. É também em 1990 que é editado o segundo trabalho da banda – The World As Law, onde encontramos “Day of the lords”, uma cover dos Joy Division, uma das bandas que influenciou fortemente o trabalho dos Neurosis. Este registo, ainda que a par com Pain Of Mind, seja um trabalho mais virado para as sonoridades primordiais da banda, tem contido em si algumas nuances premonitórias daquele que seria o percurso e as tendências que os Neurosis acabariam por escolher.

Souls At Zero é editado em 1992, e pode dizer-se que entramos a pés juntos no trabalho que os Neurosis irão desenvolver nos registos que se seguirão. Um álbum inteligente, ainda que pouco apurado comparativamente com trabalhos mais recentes, mas acima de tudo, uma inovação numa época em que o grunge ditava tendências. A banda recorreu a componentes bem distintas como violoncelos ou samples desconhecidos da saga Star Wars, e a mistura de influências como a música extrema e o folk (que pareciam insolúveis) resultaram num trabalho inspirado e diferente, onde músicas como “Takeahnase”, por exemplo, nos parecem ainda hoje inovadoras, quando já passaram quinze anos sobre a edição do trabalho.

Seguindo o rasto do álbum que se tornou o ponto de viragem na sonoridade dos Neurosis, um ano depois da edição de Souls At Zero é editado Enemy Of The Sun (1993). Como o seu antecessor, este trabalho é também ele repleto de personalidade e mais pontos ganha quando nos deparamos com “Raze the stray”, um dos melhores temas do álbum, arriscaria mesmo em dizer um dos grandes temas da banda. Enemy Of The Sun foi uma espécie de consolidação da abordagem explorada em Souls At Zero, e o remate surgiria em Abril de 1996, data da edição do soberbo Through Silver In Blood. Denso e sombrio, Through Silver In Blood deixa bem explícita a dificuldade e o desafio de atravessar do início ao fim um registo dos Neurosis. Neste trabalho, o colectivo explorou ambiências próximas do death metal, numa fusão harmoniosa com todos os elementos vindos do metal progressivo já abordados anteriormente.

No intervalo que decorreu entre a edição de Enemy Of The Sun e Through Silver In Blood, Adam G. Kendall deixa o cargo de responsável pelo suporte visual da banda. Em 1994, Kendall é substituído por Pete Inc., mas Kendall continuaria a colaborar com a banda até 1997, tendo sido o responsável pelo vídeo de “Locust star”.

Após o murro no estômago que fora Through Silver In Blood foi necessário esperar mais três anos pela edição de um registo dos Neurosis. Em 1999 é então editado Times Of Grace. Dotado de uma energia como poucos trabalhos, o sétimo registo da banda é indiscutivelmente “o” álbum dos Neurosis. Este é um registo onde tudo faz sentido, desde a ordem do alinhamento aos interlúdios que nos separam de temas mais fortes como “Under the surface” ou “End of the harvest”. É também com a edição de Times Of Grace que se revelam por completo os Tribes Of Neurot, um dos diversos side-projects dos Neurosis e no qual todos os membros da banda estão envolvidos. Os Tribes Of Neurot procuram explorar o som na sua totalidade, numa abordagem radical, e sobretudo de desafio, quando pensamos no trabalho editado em 2002, Adaptation And Survival, que consiste na captação dos sons emitidos por diferentes insectos. Aquando da edição de Through Silver In Blood, os Tribes Of Neurot haviam editado Silver Blood Transmission (1995), associando de algum modo os dois trabalhos. Desta feita, com Times Of Grace, é editado Grace (1999), cujo objectivo é ser tocado simultaneamente com o registo dos Neurosis, proporcionando uma experiência que obviamente nenhum dos dois trabalhos alcança individualmente.

No ano a seguir ao lançamento de Times Of Grace, Pete Inc. cessa as suas funções de responsável pelo suporte visual da banda, mantendo a sua colaboração com os Tribes Of Neurot, e o seu lugar é então preenchido por Josh Graham, também ele membro dos Tribes Of Neurot.

Entre a edição do sexto e do sétimo trabalhos, os Neurosis editam, em Outubro de 2000, Sovereign, um registo com quatro temas, que faz a ponte entre dois trabalhos muito distintos como são Times Of Grace e A Sun That Never Sets (2001).

Em Agosto de 2001, os Neurosis editam então A Sun That Never Sets, um trabalho claramente diferente dos anteriores, distanciado progressivamente das fortalezas que são Times Of Grace e Through Silver In Blood. Desta feita, a banda entrou numa estética avant-garde, uma fusão de ambientes experimentalistas e das influências folk. A Sun That Never Sets acabou por resultar num álbum com uma dinâmica diferente, mas não menos denso que os álbuns anteriores.

Em 2001 é editado o registo em nome próprio de Scott Kelly. Spirit Bound Flesh é um álbum plenamente influenciado pelo country e folk e qualquer sonoridade que lembre Johnny Cash não é de todo pura coincidência. Também Steve von Till editou dois trabalhos a solo, As The Crow Flies e If I Should Fall To The Field. Além do trabalho a solo, Steve von Till está também dedicado ao projecto Harvestman, tendo sido editado Lashing the Rye.

Foi também a seguir ao lançamento de A Sun That Never Sets que se realiza a primeira edição do festival Beyond The Pale. Organizado pelos Neurosis, o evento juntou uma série de nomes da música independente durante quatro dias. A primeira edição ocorreu entre os dias 16 e 19 de Agosto de 2001, no The Great American Music Hall em San Francisco e contou com a participação de bandas como os Isis, Tarentel, Oxbow, Zeni Geva e Michael Gira (Swans), além de contar também com os próprios Neurosis, Tribes Of Neurot e com a actuação a solo de Steve von Till e Scott Kelly. No ano seguinte, em Novembro, o evento voltou a realizar-se, novamente durante quatro dias e desta vez no The DNA Lounge (também em San Francisco). Do cartaz de 2002 constaram nomes como Lotus Eaters, Tarantula Hawk, Phantom Limbs e Jarboe (antiga vocalista dos Swans).

No ano seguinte à participação de Jarboe no Beyond The Pale é editado Neurosis & Jarboe, um trabalho de colaboração entre a banda e a artista, que havia de ser apresentado ao vivo diversas vezes nos EUA, e que viu uma única apresentação na Europa, em Londres, em 2005. O registo é sólido e coeso, e alia a figura carismática de Jarboe – que lhe concedeu o culto por via dos Swans – e do seu obscuro trabalho a solo, aos Neurosis, também eles já uma banda de culto.

Decorrido cerca de um ano após a edição do trabalho conjunto com Jarboe, é editado (em Junho de 2004) o oitavo registo dos Neurosis. The Eye Of Every Storm carrega muita da influência folk do seu predecessor, mas por outro lado, há uma espécie de retorno a álbuns anteriores, especialmente a Through Silver In Blood. Ainda que com um álbum novo a pedir promoção, começou a tornar-se cada vez mais difícil ver a banda actuar na Europa, e mesmo nos EUA, a agenda dos Neurosis está longe de se aproximar (em número de datas) de outras bandas que arrastem o mesmo público, como o caso dos Isis ou Red Sparowes. Também em 2004, Scott Kelly participou no tema “Aqua dementia” do álbum Leviathan, dos Mastodon. A parceria havia de se repetir e em 2006, e Scott Kelly participou também no mais recente trabalho dos Mastodon, Blood Mountain, concretamente no tema “Crystal skull”.

O período que decorreu desde o lançamento de The Eye Of Every Storm até ao último trabalho da banda, Given To The Rising (2007), deu espaço para a expansão de alguns projectos que os membros da banda mantêm. O caso mais sonante é provavelmente o dos Red Sparowes, existentes desde 2003, e que editaram pela Neurot Recordings em 2005 e 2006 os trabalhos At The Soundless Dawn e Every Red Heart Shines Toward The Red Sun, respectivamente. A banda conta com a participação de Josh Graham na guitarra e também do guitarrista Bryant Clifford Meyer (Isis). Graham faz também parte da formação dos Battle Of Mice, que editaram no final de 2006 o seu primeiro trabalho, A Day Of Nights; e dos Blood And Time, com Scott Kelly e Noah Landis (resposável pelo órgão, piano e samples nos Neurosis). A banda data de 2003 e tem já um álbum editado, At The Foot Of The Garden.

Três anos depois da edição de The Eye Of Every Storm e de todos os projectos que os membros da banda mantêm terem dado bons frutos, os Neurosis regressam com aquele que é o seu nono trabalho. Given To The Rising é editado em Maio de 2007, e traz-nos a progressão que se esperava após a edição do trabalho anterior, e mais que isso, uma sonoridade crua e despida, com menos referências folk, e com mais marcas ainda dos trabalhos anteriores. O álbum foi produzido por Steve Albini, que trabalha com a banda desde a edição de Times Of Grace.

Os Neurosis são, sem sombra de dúvida, uma das maiores influências do que se vem fazendo nos últimos dez anos no que diz respeito às sonoridades pós-rock/metal e rock/metal progressivo. Ao fim de vinte anos de carreira, tornaram-se um colectivo de culto e a sua contribuição vital na expansão de ambientes mais experimentais confere-lhes de facto uma importância como poucas bandas gozam no seio do movimento.


Susana Jaulino

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~ por hiddentrack.net em 27, Maio, 2007.

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