Jeff Buckley : 10 Anos Depois da Sua Morte

Homenagem

O senso comum diz-nos que a morte precoce pode criar ídolos. O mundo da música é rico em ícones que pereceram demasiado cedo, pensemos em Jimi Hendrix, Kurt Cobain, Nick Drake, Tim Buckley – todos músicos venerados num culto que se prolongou e intensificou depois da morte. Hoje é dia de tributo a Jeff Buckley (17.11.1966-29.05.1997). Assinalaremos os dez anos da morte de uma estrela que desvaneceu cedo demais, mas que permaneceu o tempo suficiente para mostrar como era único, etéreo. Será justo justificar a fama pela morte ao invés do talento? Não. E aqui não o faremos.

Hoje prestamos-lhe homenagem. A mais justa das homenagens.

:: A última noite – 29 de Maio de 1997 ::

“It’s my time coming, I’m not afraid to die.”
(“Grace”)

Jeff Buckley e Keith Fodi estavam juntos e seguiam caminho para o estúdio de Memphis onde se encontrariam com os restantes membros da banda. Estava em preparação o seu segundo álbum, My Sweetheart, The Drunk, sob a produção de Andy Wallace, o mesmo responsável pelo Grace (1994). Perdidos pelas ruas de Memphis, Jeff sugere uma paragem junto ao Wolf River. Fodi tinha consigo a guitarra e vontade de experimentar uma música que estava a compor. Acedeu.

O rio traiçoeiro, devido à intersecção com o Mississipi e as correntes que daí advém, há muito que levara a uma proibição de nadar nele, porém nenhuma indicação foi afixada. O Wolf River é também local de passagem frequente de barcos de carga que contribuem para a instabilidade e perigosidade das águas. Foi nele que Jeff decidiu mergulhar, vestido e despreocupadamente, depois de largar o rádio de Fodi perto da margem, onde este se manteve com a guitarra. Quando Jeff começou a afastar-se demasiado Fodi começou a preocupar-se e a tentar chamá-lo para terra. Em vão. Buckley respondeu-lhe começando a cantar “Whole Lotta Love” dos Led Zeppelin. A Fodi pareceu que Jeff tentava atravessar o rio até à margem oposta, quando surgiram dois barcos, os quais Jeff conseguiu evitar. O amigo ia seguindo-o com o olhar. Distraiu-se uma vez. A ondulação provocada pelos cargueiros ameaçava atingir o seu rádio, portanto resolveu colocá-lo a salvo. Quando voltou a olhar para o rio Buckley tinha desaparecido. Na outra margem, Gordon Archibald, empregado da marina, ouviu um pedido de socorro, mas quando olhou para o rio já não conseguiu ver ninguém.

A noite foi revolvida em buscas infrutíferas pelo rio. A chuva forte varreu as águas e no dia seguinte as buscas foram suspensas. Só uma semana depois o corpo seria encontrado. A morte tem os seus requintes malévolos.

Não queiramos romantizar a data. Não pensemos em suicídio. O Fado tem os seus contornos sinuosos e nem sempre conseguimos torneá-los. Jeff Buckley tinha trinta anos.

:: Nascimento, família, primeiros passos ::

“Don’t be like the one who made me so old. Don’t be like the one who left behind his name. Because they’re waiting for you like I waited for mine and nobody ever came.”
(“Dream Brother”)

Mary Guibert (pianista e violoncelista com formação clássica) e Tim Buckley (aclamado músico da folk) casaram-se demasiado cedo. Um ano depois da união e com dezoito anos de idade Mary engravida, mas Tim não parece importar-se e parte para Nova Iorque dizendo-lhe que regresse a casa dos pais e, se preferir, que aborte. Parece-nos que Mary Guibert tomou a decisão certa. Em Outubro de 1966 Tim Buckley lança o seu primeiro álbum homónimo, no mês seguinte nasce o seu único filho, Jeffrey Scott Buckley, no Orange County, Califórnia. Tim e Jeff conhecem-se apenas oito anos depois, em 1975, meses antes de Tim Buckley morrer com uma overdose.

Lee Underwood, guitarrista e amigo de Tim Buckley, frisa a ideia de que o amigo não abandonou o filho, mas sim a mulher. No entanto, não queria também colocar em causa a sua carreira musical, que estava a dar os primeiros passos, por Jeff. Não havia espaço para uma criança na vida dele.

Jeff Buckley, ou “Scotty”, como foi tratado toda a sua infância, cresce com a mãe e o padrasto, Ron Moorhead. A música é uma presença constante na sua vida. Filho de pais músicos, é o padrasto que lhe abre as portas, ainda em tenra idade, de nomes como Jimi Hendrix, Led Zeppelin e Pink Floyd. Em casa cantava sempre, toda a família cantava. O encontro com a guitarra veio pouco depois, quando descobriu uma em casa da avó, Anna Guibert, aos seis anos. O seu gosto musical vai amadurecendo e encontrando caminhos entre o rock progressivo e o jazz.

O encontro com o pai, como já foi referido, dá-se aos oito anos. Depois de anos sem rasto, Mary descobre que Tim dará um concerto e leva o filho para assistir. Este acaba por ficar com o pai durante uns dias, os únicos que tiveram juntos. Quem assistiu ao encontro recorda-o como que com uma grande carga emocional. Entretanto, Jeff vai demonstrando o seu talento musical, mas recusa-se a cantar. Assume-se sim como guitarrista e faz da guitarra a sua companheira para toda a vida. Da nossa herança genética dificilmente podemos fugir e Buckley filho herdou do pai a sumptuosidade da voz sublime. Depois de terminar a escola em 1984, Buckley muda-se para Hollywood para estudar musica, que acaba por considerar uma perda de tempo. Tal como o pai, Buckley acaba por render-se e levar a sua guitarra até Nova Iorque. Estávamos no início dos anos 90 quando lá chegou. Havia que lutar por um lugar na música. O seu lugar.

:: A ajuda depois da morte e o apoteótico Grace ::

“You didn’t understand my love. You don’t know why I try.”
(“I Never Asked To Be Your Mountain”)

Jeff Buckley regressa ao ponto de partida e é lá que, em 1991, recebe um telefonema de Nova Iorque – era de uma das organizadoras de um concerto tributo para o seu pai e queria saber se ele queria participar. Fora Herb Cohen, amigo de seu pai, que tinha alertado a organização do Greetings from Tim Buckley para a existência de um filho do mesmo. Anteriormente Cohen tinha ajudado Buckley a gravar a sua primeira maquete, com cinco músicas originais, entre as quais “Eternal Life” e “Last Goodbye”, que na altura se intitulava “Unforgiven”.

Greetings from Tim Buckley foi a estreia de Jeff a cantar publicamente. Em tributo ao pai, e para colmatar o peso que sentia por não ter estado presente no seu funeral, Jeff interpretou “I Never Asked To Be Your Mountain”, que versava sobre ele próprio e a mãe, “Sefronia – The King’s Chain”, “Phantasmagoria in Two” e “Once I Was”. A plateia rendeu-se ao seu dom e os grandes senhores da indústria discográfica também – num mês quatro tentaram contactá-lo. Fina ironia do destino. Através da música do pai ausente, Buckley encontra a porta de entrada para o seu sonho.

No tributo conheceu Gary Lucas, com quem começou a escrever músicas, entre as quais “Grace” e “Mojo Pin” e juntou-se à sua banda em concerto, Gods and Monsters. Em 1992, depois da estreia oficial da banda, Buckley resolve retirar-se. O seu caminho era para ser percorrido sozinho. É assim que inicia o seu périplo por bares, tornando-se o Sin-é a sua paragem mais habitual. Nas suas aparições interpretava principalmente nomes como Nina Simone, Leonard Cohen, Édith Piaf, The Smiths, Nusrat Fateh Ali Khan e Bob Dylan, guardando espaço também para os seus originais e os temas escritos em parceria com Gary Lucas. O seu nome começava a atrair multidões e perto do final do ano assina finalmente contrato com uma editora – a Columbia Records.

Dado o primeiro grande passo, depressa Buckley conseguiu editar e lançar os seus temas. A estreia dá-se com Live at Sin-é, um EP de quatro temas, lançado a 23 de Novembro de 1993. Entretanto, Jeff Buckley tinha já começado a trabalhar no seu primeiro álbum. Trabalho minucioso, quer no tratamento das músicas, quer na escolha dos músicos, que só foi dado como terminado um ano depois – a 23 de Agosto de 1994 o enorme Grace é lançado sendo rapidamente aclamado pela critica, mesmo que as vendas fossem baixas e não fossem os seus os temas preferidos para o airplay radiofónico. O sucesso não se circunscreveu aos EUA. Atravessou fronteiras e oceanos e continua, volvidos mais de dez anos, a conquistar admiradores.

Jeff Buckley não teve tempo para nos deixar um maior legado, mas a sua curta passagem terrena permitiu-lhe que nos entregasse uma obra-prima. Poucos são aqueles que a atingem. Poucos são aqueles que conseguem entrar nas vidas e pensamentos de cada um de nós com as suas palavras. Poucas são as vozes que embalam, que entristecem, que seduzem, que fazem amar. Com trinta anos, Buckley falava do Amor como ninguém o fez. Como ninguém o faz.

Buckley não precisava de recear a morte. Já tinha encontrado a eternidade.

“Eternal life is now on my trail.”
(“Eternal Life”)

Sílvia Dias
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Discografia:
.1993 – Live at Sin-é
.1994 – Grace
.1995 – Live from the Bataclan (EP)
.1998 – Sketches for My Sweetheart the Drunk
.2000 – Mystery White Boy
.2001 – Live a L’Olympia
.2002 – Songs to No One 1991-1992
.2002 – The Grace EPs
.2003 – Live at Sin-é (Legacy Edition)
.2004 – Grace (Legacy Edition)
.2007 – So Real: Songs From Jeff Buckley

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~ por hiddentrack.net em 29, Maio, 2007.

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