Jeff Buckley – Grace

“Life is but a dream”, diz-nos uma canção de crianças. “This is a song about a dream”, diz-nos Jeff Buckley antes de iniciar algumas das suas canções. Une-os o sonho. Une-os a vida enquanto travessura de Morfeu, enquanto fugaz noite de inconsciente desperto onde tudo se materializa e nada é material. Une-os o sonho como estado de graça. É daí que Grace vem.

Filho de um pai ausente, Jeff Buckley descende de Tim Buckley, um dos nomes mais sonantes da folk e da música psicadélica dos anos 60 e 70. O legado musical que ambos constituíram faz-nos esquecer a morte precoce que ambos encontraram. Dono de uma voz mágica, poder-se-á dizer que Jeff resulta de uma simbiose perfeita entre um dom divino e uma educação musical profunda. O dom, vem da herança genética do seu pai; a educação, assentou no conhecimento meticuloso da guitarra e de uma cultura musical diversificada onde figuram nomes como Nina Simone, Johnny Cash, Van Morrison ou Led Zeppelin.

Após vários meses de aperfeiçoamento musical pelos bares de Nova Iorque e de descoberta da sua própria identidade, Buckley edita em 1994 o seu primeiro e único disco de estúdio. Historicamente, vivia-se a época dourada do grunge, onde as camisas de flanela e a atitude rockeira adolescente oriunda de Seattle dominavam a cultura norte-americana e, de certa forma, mundial. Este facto ajuda a compreender o quão importante e genuína foi a música de Jeff Buckley. Centrado em si mesmo e em forma de tributo a todos os seus “professores”, Grace é uma obra-prima do rock. As suas dez músicas são grandiosas, imponentes, alucinantes, capazes de provocar o mais íntimo dos arrepios ou o mais discreto dos suspiros.

Vou deixar a palavra perfeição de lado, embora esta caminhe lado a lado com cada minuto de Grace. O álbum desperta com “Mojo Pin”, ou melhor, perde-se pelo sonho. Transborda de vida luminosa, tão rica que parecem existir pequenos organismos sonoros que vivem apenas nestes quase seis minutos. Crescendo pouco a pouco, explodindo religiosamente, num fervor emocional como pouco se vê. Homónima e messiânica, “Grace” transborda a soul, a gospel, a rock, a Jeff. O seu riff inicial, de uma complexa elegância, leva-nos para um mundo paralelo. As cordas orquestrais fundem-se com as guitarras de acordes subtis, funcionando como plataforma de descolagem para o imenso talento de Jeff Buckley. A sua voz desabrocha como uma flor lunar, imensamente bela e repleta de vida com um toque divino. Acompanhá-lo resultará numa inevitável perda de fôlego. Ouvi-lo também. Com a amarga distância do tempo, que nos trouxe a sua morte, a letra tem um efeito aconchegante: “I’m not afraid to die”. Nós sabemos.

“Last Goodbye” foi o maior sucesso comercial do álbum, algo que se poderá explicar pelo facto de esta ser uma das melhores músicas de despedida entre amantes alguma vez escrita – embora a sua sonoridade bastante próxima do rock grunge também a tenha ajudado. Amarga mas consciente, compreende em si a complexa e dolorosa sensação do morrer do amor, do afastamento inevitável. A guitarra inicia “Lilac Wine” como um soprar do vento numa noite deserta. Numa toada quase fantasmagórica, Jeff Buckley leva-nos para um mundo entristecido, de amores perdidos e insatisfação: “I drink much more than I ought to drink, because it brings me back you”. Uma canção escrita por James Shelton e que passou pela voz de Nina Simone e Elkie Brooks até encontrar o encanto de Buckley. “So Real” foi a última canção composta para o álbum e, ao contrário de faixas com “Mojo Pin” ou “Grace” que contaram com a colaboração criativa de Gary Lucas, foi um produto de Jeff e do guitarrista Michael Tighe, a quarta parte da banda formada ainda pelo baixista Mick Grondahl e Matt Johnson na bateria. Uma canção grandiosa, como já não é surpresa, e que constitui um fábula romântica urbana, daquelas que nos fazem suspirar por dentro. Após a acalmia de “Lilac Wine”, “So Real” devolve os crescendos vocais que nos fazem sentir vertigens, os falsettos que se prolongam até ao divino e um interlúdio de guitarras surrealista.

Passam dez segundos de silêncio e ouve-se Buckley exalar. Com os pulmões descontraídos, quase que podemos senti-lo fechar os olhos para começar a sua interpretação de “Hallelujah”, um original de Leonard Cohen. Por muito mítico e adorado que o septuagenário canadiano seja, a voz de Buckley faz descobrir uma dimensão na canção que não se julgava existir. Foi como Johnny Cash cantar “Hurt”, dos Nine Inch Nails, mas de forma cronológica invertida. A letra, um dos mais sublimes poemas de Cohen, parece ter sido escrita intencionalmente para Jeff Buckley. Uma deambulação carregada de beleza sobre o amor, a tristeza e uma religiosidade latente que nos arranca do solo. “Hallelujah” é uma lágrima em forma sonora – brilhante e emotiva.

Grace é um disco profundamente biográfico, seja da vida real de Buckley, seja da sua busca interna. “Lover, You Should’ve Come Over” é daquelas canções que consegue acompanhar-nos durante anos, que nos arranca do peito as palavras e nos deixa rendidos. Nela estão presentes algumas das ideias mais preciosas de Jeff, da sua escrita e do seu pulsar amoroso: “It’s never over. My kingdom for a kiss upon her shoulder” – simples e épica. Encontramos novamente uma indelével violência emotiva composta pelos pormenores sonoros: o acordeão que inicia a canção e acompanha o refrão, o órgão e o coro (falso, pois é constituído pela sobreposição da própria voz de Buckley) ao bom jeito gospel que sustentam a música e os crescendos da voz, ora suaves, ora intangíveis.

“Corpus Christi Carol (for Roy)” é a composição que mais destoa de todo o disco, ou assim poderá parecer inicialmente. A sua origem remonta ao século XVI, mas Buckley pegou na versão de 1933 do compositor inglês Benjamin Britten para criar mais uma fábula sua. Sempre em falsetto, de forma clássica e que revela por completo o seu dom vocal, “Corpus Christi Carol (for Roy)” é uma lenda em forma de canção. Em Grace, esta dedicatória leva-nos para um ponto um pouco mais profundo do imaginário de Jeff Buckley, como se cada faixa abrisse uma nova porta e atrás de cada uma delas nos fosse oferecida uma toca de coelho, daquelas por onde o real não passa.

O final do disco recupera as composições revestidas de rock “noventeiro”, servindo de contra-peso entre o exacerbado lirismo etéreo e a corporeidade sentimental, mantendo um equilíbrio notável. “Eternal Life”, com o baixo distorcido como espinha dorsal, é um olhar crítico e enraivecido sobre o homem e os seus feitos. Por seu lado, “Dream Brother” é um conselho, um aviso e uma partilha: “‘Cause they’re waiting for you like I waited for mine / And nobody ever came…”. A guitarra que flutua com simplicidade e a percussão ajudam a criar uma ambiente ritualístico que se mantém até aos últimos segundos – uma intimidade necessária.

Grace tem a notável condição de não encarar vida de forma simplista, de não reduzir um espectro infindável de sentimentos a uma capa descartável. De forma quase inadvertida, a vida de Jeff Buckley mistura-se com a nossa, numa empatia cósmica e uma beleza musical únicas. Este não é um álbum que se restringe ao seu tempo de criação e a sua ampla descoberta póstuma ao seu criador confirma-o. Quer habitem na memória, no inconsciente ou no fervor das emoções, estas são dez músicas que se infiltram no sangue, no espírito e na alma. Talvez possamos lamentar a impossibilidade de revermos o génio de Jeff Buckley num outro disco, de conseguir beber mais um trago do seu talento. E isso deixa-nos frustradamente sedentos. Mas sempre que nos fizermos acompanhar por Grace, com os olhos mais ou menos fechados, Jeff Buckley terá conseguido encontrar, indubitavelmente, uma vida eterna.

10/10 | Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 29, Maio, 2007.

 
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