Pelican ao vivo no Santiago Alquimista

A acolhedora sala do Santiago Alquimista encheu-se para receber os norte-americanos Pelican, numa data dupla em Lisboa e Porto (no dia anteriror) que marcou a estreia da banda em Portugal. Alguns problemas de som e talvez uma escolha de alinhamento demasiado limitada pela edição do novo álbum – City Of Echoes, fizeram com que este não fosse o concerto da vida de ninguém, mas ainda assim, um concerto para recordar.

:: 31 de Maio de 2007

Não via o Santiago Alquimista tão cheio desde a apresentação de Olhos de Mongol dos Linda Martini, em Outubro de 2006. Desta vez, e obviamente com entradas pagas, a sala encheu-se depressa, formando uma moldura humana simpática numa sala que sendo bastante pequena, se tem revelado plena de potencial para receber eventos desta natureza. O recinto próximo do castelo de S. Jorge recebia então a estreia dos Pelican em Lisboa, um dia depois do concerto no Porto, onde foram acompanhados pelos Men Eater e os Osso. Em Lisboa, as honras de abertura couberam aos Riding Panico e Linda Martini.

Largos minutos após a hora indicada nos bilhetes e divulgada nos meios para o efeito, começou então o primeiro concerto da noite. Antes de qualquer análise, acrescento que os Riding Panico, mais que os próprios Pelican, foram para mim a revelação da noite. A banda é composta por membros de If Lucy Fell e Men Eater, e tendo em conta o destaque que ambas já conquistaram no circuito dos espectros mais pesados da música, os Riding Panico não podiam deixar créditos por mãos alheias. E de facto, tal não aconteceu. A banda movimenta-se num pós-rock mais ou menos frenético que de espaços a espaços me fez lembrar os soberbos Red Sparowes. Foi um concerto aparentemente sem grandes contratempos técnicos, provavelmente uma das poucas vantagens de ser a banda de abertura, e ao contrário do que acontece com tantos concertos a que assistimos, em que as primeiras bandas tocam apenas para alguns curiosos, no caso particular dos Riding Panico, os presentes pareciam não só agradados com o que estavam a ver e a ouvir, como a maior parte estava bastante familiarizada com o trabalho do colectivo. No final do concerto dos Riding Panico ficou uma sensação de preenchimento e aconchego pela música da banda, que desliza e flui entre os corpos de um modo perfeitamente natural, com todas as variações que lhe são exigidas. Para quem que, como eu, nunca tinha assistido a um concerto do colectivo, os minutos de boa música e de coesa presença em palco com certeza que carimbaram deslocações futuras para os ver actuar.

Imediatamente a seguir aos Riding Panico tocaram os Linda Martini, banda que dispensa já qualquer tipo de apresentação, tanto pelos concertos que dão com frequência, como a boa recepção do trabalho Olhos de Mongol (2006), que a pouco e pouco tem dado a conhecer o nome da banda. Neste dia, no entanto, não se pôde dizer que a sorte tenha brindado os Linda Martini. O concerto do quinteto foi recheado de problemas, desde uma corda partida na guitarra de Pedro Geraldes, à bateria que parecia sempre prestes a desfazer-se e às próprias condições do som, que não ajudaram em nada à prestação da banda (“Dá-me a tua melhor faca” foi tocada praticamente sem se ouvir a voz de André Henriques). De resto, não há também muito a acrescentar ao concerto dos Linda Martini. Há muito que já conhecemos as músicas que a banda toca, e de resto os alinhamentos do grupo têm tido tendência a tornarem-se imutáveis. Quem os vê não parece desagradado, é inegável que a banda dá concertos muito bons, e o sing-along já se estendeu de músicas como “Amor combate” e “Lição de voo nº. 1” a temas como “Cronófago” ou “Estuque”. No concerto do Santiago Alquimista, a banda encerrou um concerto marcado por algumas peripécias em palco e agitação no público com “A severa (ver de perto) ”.

Por fim, os Pelican, os responsáveis pela esmagadora maioria das deslocações ao Santiago Alquimista na noite do dia 31. Os norte-americanos preparam-se para lançar em Junho o seu terceiro longa-duração – City Of Echoes, e foi no âmbito da promoção do registo que a banda agendou duas datas para Portugal. Percebia-se que a ansiedade e a expectativa pelo concerto dos Pelican era grande, e ao som do primeiro tema apresentado, “Bliss in concrete” (já do novo trabalho), os presentes na sala renderam-se ao pós-metal dos Pelican. Ao longo de cerca de uma hora, os Pelican mostraram-se irredutíveis num palco que parecia pequeno para os horizontes que transbordam dos temas que apresentaram, sendo que a maioria deles faz então parte do novo City Of Echoes, deixando de lado composições soberbas de trabalhos anteriores (que falta se sentiu da imensa “Last day of winter” do álbum The Fire In Our Throats Will Beckon The Thaw (2005)). Este foi provavelmente o maior contra da actuação dos Pelican, a incidência excessiva no trabalho mais recente, sendo que houve tempo para recuarmos apenas a Australasia (2003) com “Drought” e ao trabalho de 2005 com “Red ran amber” e “Aurora borealis”, de resto, um dos temas mais aplaudidos da noite. “City of echoes” já perto do fim, foi também recebida com enorme agrado, sendo que a banda incluiu também no alinhamento temas como “Dead between the walls” e “Far from fields”. Da actuação dos Pelican ficou, sobretudo, a utilização fantástica que fazem dos recursos que têm, e uma presença em palco bastante discreta, mas que ao mesmo tempo revela carisma e uma personalidade muito forte. Destaque para os guitarristas Trevor de Brauw e Laurent Lebec que se entregam a cada nota com uma devoção imensa.

No final da actuação da banda ouvia-se um pouco por todo a sala a já célebre expressão “Brutal!”, o que me fez questionar um pouco o concerto que tinha visto. Quando chegamos a uma fase em que já vimos cerca de uma centena e meia de bandas, algumas das quais verdadeiros monstros dentro de géneros específicos, começamos a pôr a fasquia cada vez mais alta. Torna-se difíceis surpreenderem-nos a sério. No caso dos Pelican, foi um pouco isso que sucedeu, daí que para mim o “brutal!” seja francamente exagerado. A banda norte-americana deu um concerto muito simpático, mas a verdade foi que não mostrou o que de melhor tem para oferecer e inevitavelmente a escolha do alinhamento acabou por contribuir para alguma da minha desilusão face ao concerto. Confesso que saí da sala um tudo-nada desapontada e com a infeliz probabilidade de não voltar a ver os Pelican num futuro próximo que pudesse eliminar algum desgosto que tenha ficado da primeira experiência, pela expectativa que tinha criado em relação à apresentação de alguns temas que acabaram por ser deixados de fora. Mesmo com este cenário plenamente definido no final do concerto, a apreciação final é a de um espectáculo intenso, mas longe da intensidade que sabemos que os Pelican poderiam ter atingido.

texto: Susana Jaulino
fotos: Sílvia Dias

~ por hiddentrack.net em 31, Maio, 2007.

 
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