Tori Amos – American Doll Posse

toriamos-americandollposseTori Amos é uma das mais emblemáticas intérpretes do universo de singer-songwriters, isto não só pela forma peculiar como retrata determinados episódios nos temas que compõe, mas também por ser detentora de uma carreira sólida e extensa – data de 1988 o primeiro trabalho de Amos, Y Kant Tori Read, embora o sucesso tenha surgido ao segundo registo – Little Earthquakes (1992). Depois de uma crítica menos positiva a The Beekeeper, editado em 2005, Tori Amos regressou dois anos depois com um novo trabalho de originais. American Doll Posse (o nono registo da norte-americana), um álbum que tenta espelhar a visão político-social das mulheres americanas em pleno século XXI.

O álbum é então composto por vinte e três faixas, ao longo das quais Tori vai explorar cinco personagens criadas pela própria. São Isabel, Clyde, Pip, Santa e Tori que vão repartir o trabalho pelas cinco. Estamos perante uma espécie de heteronímia, de facto. Isabel é uma fotógrafa com uma posição política muito forte. São dela as primeiras palavras do registo, “Yo George”. Esta personagem foi inspirada na mitologia grega (como de resto todas as outras personagens), mais concretamente em Ártemis, deusa da caça. Clyde, inspirada na rainha do submundo, Perséfone, representa uma mulher emotiva que se pretende descobrir e que se encontra de algum modo em rota de colisão com o que a vida lhe trouxe. Pip é a mulher determinada em American Doll Posse, inspirada em Atena, deusa da guerra e da sabedoria. Juntamente com Santa, protagoniza o “dueto” em “Body and soul”. Santa é não menos determinada e uma espécie de femme fatale. Não espanta pois, que esta personagem tenha sido inspirada na deusa do sexo e do amor – Afrodite. Por último, Tori, inspirada nas divindades de Dioniso e Demeter, corresponde nada mais que a uma representação caricatural da própria Tori Amos.

Dada a extensão do trabalho, bem como as diferentes personagens que dão vida ao álbum, American Doll Posse resultou um trabalho extremamente diversificado. Quinze anos depois da edição do primeiro grande trabalho de Tori Amos, não é difícil ver que este é obviamente o mesmo elixir que deu vida a temas como “Crucify” (Little Earthquakes) ou “Cornflake girl” (Under The Pink, 1994). O que há é um claro amadurecimento, e uma recusa de estagnação no tempo que Tori Amos vai tentar contornar estrategicamente neste registo. “Bouncing off clouds” ou “Teenage hustling”, ainda em jeito de boas-vindas do álbum são um franco exemplo disso.

O segundo tema atribuído a Tori (a personagem) é um dos grandes pilares de American Doll Posse. “Digital ghost” é literalmente o que o título sugere. Depois de o ouvirmos, volta suavemente para nos assombrar e fazer eco. Para os que conhecem o trabalho de Amos, é possível que ao longe se encontrem alguns traços da belíssima “Winter” (Little Earthquakes), pela sua melancolia aprisionada e pela interpretação encantadora de Tori Amos. Aliás, muito deste álbum poderá ser um todo-nada dejá-vu, o que de resto se torna uma questão pertinente. Se por um lado este é claramente o ponto fraco do registo, por outro lado, o facto de recuperar os contornos principais dos seus melhores temas dá a American Doll Posse um toque vintage, um requinte adocicado, que nos faz inevitavelmente apreciar deste trabalho.

“You can bring your dog” traz-nos Tori Amos numa abordagem mais rock. Atribuída a Santa, este tema é sexy e provocador, e detém (tal como o anterior) muita da personalidade deste registo. “Girl disappearing” recupera as vibrações e a tensão de “Digital ghost”, e conforme o álbum progride para o encerramento, temos a sensação que entramos numa rota mais acidentada, onde os temas surgem ligeiramente oscilantes, às vezes meio fora de sítio.

Apesar disso Tori Amos deu sem dúvida mais um passo com este registo, depois de The Beekeeper ter ficado claramente aquém das expectativas. American Doll Posse recupera o atrevimento que caracterizava os anteriores trabalhos de Tori e exemplos disso são “Body and soul” (o dueto imaginário de Pip e Santa) e “Programmable soda”, sem excluir todos os outros temas que vão compondo a espinal-medula deste trabalho. “Code red” é um tema tipicamente Tori Amos, que facilmente nos recorda temas de registos pré-Scarlet’s Walk (2002). Atribuído à sua própria caricatura (Tori), este tema revela-se provavelmente um dos mais destemidos, com uma letra que tanto nos parece banal (“A six pack of Coke and a bottle of Jack/”whatever you do” he said “look after that”) como intimista e acusador (“What you stole, I would have given freely”). “Code red” é um daqueles temas que indubitavelmente vai resistir à exagerada extensão de American Doll Posse, cuja audição acaba por resultar ligeiramente monótona pela alternância previsível entre abordagens mais rock ou mais melódicas.

Daqui para a frente, não vão surgir temas imprescindíveis no registo. Nota positiva para a curiosa “Velvet revolution” que dá um aroma especial a esta fase do álbum – é inevitável não pensar em spots publicitários e diversas referências que não nos sugiram a França. American Doll Posse encerra com “Smokey Joe” e “Dragon”. Os dois são extremamente interessantes, não por serem temas fantásticos, mas pelas produções e pela interpretação de Tori, cujo potencial é explorado da melhor forma possível e prova que Tori Amos é detentora de uma das vozes femininas mais bonitas e que é quase impossível não nos rendermos à sua música.

Há quem diga que Tori Amos faz música de mulheres para mulheres. Argumentos como estes não existem, dado que não existem dois códigos distintos para homens ou mulheres. O que Tori Amos inegavelmente possui é uma sensibilidade muito especial para ilustrar determinadas ideias e opiniões, sensibilidade essa que pode ser lida tanto pelo sexo feminino como pelo masculino, basta estar atento. É disso que se trata American Doll Posse – das visões de cinco mulheres aparentemente distintas, que são apenas uma: Tori Amos. É da intersecção destes cinco caracteres heterógeneos que resulta a música de Amos. É da complexidade dessa intersecção que nasce também uma espécie de incompreensão das suas palavras. Oito álbuns não desfizeram essa incompreensão. American Doll Posse também não.

7/10 | Susana Jaulino

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~ por hiddentrack.net em 31, Maio, 2007.

 
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