Wraygunn – Shangri-La

Se para alguns, o nome Wraygunn ainda é desconhecido, quem os conhece facilmente os caracteriza como uma das bandas mais interessantes do panorama nacional, e como uma das bandas portuguesas melhor sucedidas além-fronteiras. Para tal, são incontornáveis os concertos da banda, onde sobressai o carisma e o talento do guitarrista e vocalista Paulo Furtado (Legendary Tiger Man também não vos diz nada?), já que em ambiente de estúdio as vozes de Raquel Ralha e Selma Uamusse ganham um destaque superior à voz do guitarrista. Shangri-la é o quarto registo da banda de Coimbra e é uma excelente proposta em estilo “vá para fora cá dentro”, a contrariar a ideia de mercado saturado pela constante oferta dos mesmos espectros musicais e das mesmas bandas. Os Wraygunn oferecem-nos cerca de 45 minutos de rock, blues e soul com toque aqui e ali de funk. Pequeno? Só mesmo em duração. Será difícil destroná-lo de melhor disco nacional, e é verdade que o ano só vai a meio.

O primeiro tema “Ain’t it nice” é um convite a entrarmos nesse sítio paradisíaco que é Shangri-la. Os quatro temas que se lhe vão seguir vão-se transformar inevitavelmente no cartão de visita de Shangri-la, pelas potencialidades que saltam de cada um e que nos sugerem de forma irremediável um pezinho de dança, como aliás, já vem sendo um hábito nos trabalhos dos Wraygunn. “Love is my new drug” e “She’s a go-go dancer” trazem o rock ‘n’ roll no seu melhor, e se tal não bastasse, atentem no vídeo da última e poderão ver Vítor Gomes, lenda do rock português dos anos 60. Estes dois temas provaram já ser apostas ganhas ao vivo, a par do tema que se segue na ordem de Shangri-la – “Love letters from a muthafucka”, com um refrão (que de resto, até é o título) que apetece gritar a plenos pulmões de cada vez que o ouvimos. Este tema é o mais arrojado e eléctrico de todos os que compõem o álbum e facilmente nos fica no ouvido de forma mais insistente do que qualquer outra faixa deste trabalho.

“Hoola-hoop woman” é o ponto médio do trabalho e também o tema onde os ânimos são serenados, num blues melodioso que nos envolve num ambiente de sedução. É uma interpretação irresistível e plena de sensualidade, quer de Paulo Furtado, quer de Raquel Ralha, que aqui sobressai mais do que Selma Uamusse. O tema seguinte, “Rusty ways”, revela-nos as vozes de Raquel e Selma no seu esplendor, um tema feito (e bem feito) essencialmente para apreciar as fantásticas capacidades vocais de ambas.

De “Just a gambling man…” a “Boom-boom ah-ah” é recuperada a atmosfera que se condensara no início do registo, com “Lady luck” e “Work me out” (especialmente a última) a conduzirem todos os passos de dança dados, e sem esquecer que enquanto se dança a apreensão da música não é tão apurada, os Wraygunn compuseram temas detentores da impossibilidade de passarem despercebidos, e se nos escapar alguma coisa, dificilmente nos escapará o refrão de “Work me out” ou de “Boom-boom ah-ah” (que é justamente “boom-boom ah-ah”). O registo encerra com um tema soul (quase gospel), que de resto não é da autoria dos Wraygunn, mas um tema de autoria desconhecida – “No more, my Lord”. Podia existir melhor escolha sim, qualquer um dos restantes temas do álbum mereceria ser guardado para o fim. No entanto, a opção é inteligente e esta faixa relança nova acalmia depois dos momentos frenéticos que antecederam o último tema do registo.

Shangri-la reforça a afirmação dos Wraygunn com uma referência do rock e do blues portugueses, se ainda restassem dúvidas depois de Eclesiastes 1.11 (2004). Infelizmente, é de duvidar uma escalada pelos tops de vendas acima. É possível até que o álbum goze de uma recepção mais animada noutros países onde os Wraygunn são bastante apreciados, como o caso da França, por exemplo. Por terras lusas, os fiéis que há muito se renderam aos Wraygunn vão continuar a segui-los e a expandir o culto por onde houverem concertos. Os que ainda o não fizeram, não percam a oportunidade. Podem estar a deixar passar ao lado uma das bandas mais talentosas e inovadoras do rock português. Bem-vindos a Shangri-la.

9/10 | Susana Jaulino

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~ por hiddentrack.net em 31, Maio, 2007.

 
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