Pelican – City Of Echoes

Ao terceiro disco de longa duração os Pelican parecem ter encontrado uma harmonia musical invejável e admirável. City Of Echoes contém no seu interior o legado dos trabalhos editados anteriormente, demonstrando como esta é uma banda que sabe aprender, aperfeiçoar e limar as arestas de disco para disco.

Num processo de aprendizagem permanente, City Of Echoes é o ponto de maturidade por excelência. Da estreia com Australasia (2003) recuperam os riffs fortes, pesados e sujos, e de The Fire In Our Throats Will Beckon The Thaw desnvolvem (2005) a sensibilidade instrumental, as subtilezas acústicas e as melodias épicas. Outro dos elementos evolutivos de City Of Echoes encontra-se na temperança da extensão da duração das músicas. No passado a banda poderia prolongar-se confortavelmente além dos dez minutos por música, mas este novo álbum encontra o ponto médio temporal nos cinco. Uma atitude mais concisa e sintética que possibilita uma maior diversidade ambiental e uma maior facilidade de seguimento atento.

A faixa de abertura do disco, “Bliss In Concrete”, traz consigo os elementos referidos da evolução musical dos Pelican. De início espaçado, com nostálgicos acordes em conjugação com uma distorção quase acústica, depressa se transforma num poderoso riff que desperta o pedal duplo, capaz de fazer demolir edifícios. “City Of Echoes” segue a mesma toada, embora de forma mais inocente. À segunda faixa consegue-se já extrair a singular capacidade dos Pelican em compor músicas complexas, repletas de linhas melódicas que se sucedem na perfeição, nunca desvanecendo e nunca perdendo sentido.

As guitarras acústicas que povoaram intensamente The Fire In Our Throats Will Beckon The Thaw encontram-se sucintamente reunidas em City Of Echoes na faixa intermédia “Winds With Hands”. Uma música suave, capaz de trazer à memória os dedos de Tim Buckley, à medida que arranca em acordes fortes. Um momento de desértica ambiência, de um vasto prolongamento do horizonte e que mantém uma melancólica respiração.

City Of Echoes pode ser considerado um álbum pesado, caindo-lhe com melhor facilidade o rótulo de pós-metal que o de rock. Aliás, os Pelican parecem introduzir um género único, um metal acústico, perfeitamente visível em “Spaceship Broken-Parts Needed”, em que o ritmo acelerado consegue ter uma agressividade controlada e seca… acústica. “Dead Between These Walls” tem momentos verdadeiramente intensos, cordas presas ondulantes e distorções de magna energia. Na sua metade final, reaparece epicamente produzindo o melhor momento de City Of Echoes: guitarras que se intercruzam, viagens psicadélicas por entre uma cidade feita de paredes espelhadas, onde o som estrondeia e o norte se dissipa. Quer na acelerada toada de “Lost In The Headlights”, quer na lenta progressão de “Far From Fields”, é possível encontrar uma sensibilidade rítmica profunda e cuidadosamente elaborada. Os Pelican não se deixam levar pela improvisação aleatória, labutam sobre as camadas sonoras e refinam-nas até ao seu ponto ideal.

“A Delicate Sense Of Balance” parece ser a forma introspectiva e auto-consciente dos Pelican nos dizerem o que se desenrolou em todo o disco e na própria banda. Apesar da faixa que serve de acto final não ter a força das suas predecessoras, é a ideia do seu título que se perpetua pelos minutos finais, mesmo após o silêncio.

Não estranhem se o disco engolir o tempo sofregamente e vos fazer voltar à primeira faixa num ápice. Os Pelican foram capazes de criar um conjunto de músicas que flúi coordenadamente, como o voar de uma ave, percorrendo uma extensa região com diferentes cenários. Este é um disco cujo eco se poderá ouvir durante horas a fio, em qualquer cidade em qualquer tempo – basta estar atento.

8/10 | Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 3, Junho, 2007.

Uma resposta to “Pelican – City Of Echoes”

  1. […] se poderá ouvir durante horas a fio, em qualquer cidade, em qualquer tempo – basta estar atento. (ver crítica) • […]

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