Alive! 07

O primeiro dia do festival caracterizou-se não só por ter recebido a maior afluência de público, mas também pela habitual confusão que rodeia este tipo de eventos. Assim, a expressão que melhor ilustrava a fila para a troca dos bilhetes de três dias pelas pulseiras correspondentes era literalmente “tudo ao molho”. A situação gerou protestos por parte do público (e com razão, diga-se), dada a desordem em frente às cabines. Apesar do contratempo, dentro do recinto o ambiente era animado, com o chamado “espírito festivaleiro” a pairar sobre os presentes. Foi assim no primeiro e nos dois dias que se lhe seguiram.

:: 8 de Junho de 2007

Loto

A banda de Alcobaça foi a segunda a tocar no palco secundário, após a actuação dos portugueses Oioai. Os Loto são bem dispostos, praticam um rock dançável, mas a pouca afluência de público à tenda circense que era o palco secundário acabou por proporcionar-lhes uma actuação meio apagada. Quem não os conhecia, percebeu por que razão foram escolhidos para fazer a primeira parte do concerto dos Scissor Sisters no Coliseu, no passado mês de Abril.

Não fosse a atitude mais observadora do público, numa postura de quem só estava à espera que o tempo passasse, e os Loto teriam arrancado mais alguns passos de dança, como de resto acabou por acontecer, ainda que em pequeníssima escala, à passagem de temas como “Good feeling” ou “Celebration”. Os presentes começaram a abandonar a tenda com a aproximação da hora prevista para o início do concerto dos Blasted Mechanism e os Loto deram por terminado o concerto passados poucos minutos, conforme estava também previsto. Nota positiva para a banda, apesar do concerto ter estado longe do excepcional.

Blasted Mechanism

Os Blasted Mechanism são de longe uma das bandas mais peculiares do panorama português, quer a nível de sonoridade, quer a nível da imagem, que é, aliás, um dos seus cartões de visita. A actuação dos Blasted Mechanism no Oeiras Alive! foi intensa, dinâmica, interactiva. Na mala a banda trazia Sound In Light, editado este ano, e provavelmente um dos álbuns dos Blasted Mechanism que melhor recepção teve por parte do público, sendo que a actuação do colectivo incidiu sobretudo no novo trabalho.

É impossível estar parado durante o concerto dos Blasted Mechanism, que foram incansáveis nos incentivos ao público, provavelmente a banda mais interactiva de todo o festival e que conseguiu arrastar uma multidão considerável para junto do palco principal.

“Karkov” foi o tema que lançou um semi-caos na plateia, com mosh-pits um pouco por todo o lado e o grito “Nadabrovitchka!” perfeitamente sincronizado. Do novo trabalho, “Battle Of Tribes” e “All The Way” espalharam o entusiasmo e as danças mais ou menos tribais pela audiência, que podendo não estar familiarizada com o trabalho dos Blasted Mechanism se deixou contagiar pelos ritmos alienígenas da banda. É este o trunfo dos Blasted Mechanism – espalhar uma espécie de epidemia positiva que impele tudo e todos para o movimento. O concerto terminou com a incontornável “The Atom Bride Theme”, com arranjos bastante mais pesados que a versão original do tema e com o vocalista Karkov a lançar um apelo – “Start a revolution”.

Uma aposta ganha, embora à partida não houvessem dúvidas de que por onde passam os Blasted Mechanism, passa uma espécie de furacão que sacode os corpos em harmonia, deixando uma sensação de exorcismo de todas as energias negativas.

The Rakes

Os ingleses The Rakes foram a banda que menos sofreu com as actuações sobrepostas nos dois palcos. O concerto da banda começou quando os norte-americanos Linkin Park já haviam iniciado a sua actuação no palco principal, mas a verdade é que os públicos das duas bandas são muitíssimo distintos (nem seria de esperar outra coisa) e os The Rakes actuaram para uma tenda bastante composta, não obstante todos os que aproveitaram para jantar entre as actuações dos Blasted Mechanism e dos Pearl Jam.

E os que decidiram espreitar os The Rakes decerto deram por bem empregue o tempo que lhes concederam. Os The Rakes movimentam-se no pós-punk tão em voga nos últimos anos, sabem o que estão a fazer e acima de tudo, fazem-no bem. Os The Rakes foram sem sombra de dúvida a grande revelação do Oeiras Alive!. A banda conta já com dois trabalhos – Capture/Release (2005) e o mais recente Ten New Messages (2007), sendo que foi à volta dos dois registos que gravitou o concerto da banda inglesa. Os que se haviam juntado à frente do palco dançavam freneticamente ao som de “22 Grand Job”, acompanhando as coreografias quase epilépticas do vocalista Alan Donohoe, que foi um perfeito anfitrião, contrariando a pré-concebida postura inglesa – fria e distante.

Do restante alinhamento destacaram-se “Open Book” e “We Danced Together”, caracterizados pelos ímpetos eléctricos e a excentricidade de Donohoe, que não deixou de incentivar o público por um segundo, proporcionando aos presentes uma das actuações mais electrizantes do primeiro dia e de todo o festival, que servirá (esperemos) para não mais deixar passar despercebida a banda. O nome é The Rakes.


Pearl Jam

Os Pearl Jam são uma das bandas que goza de um culto invejável em Portugal. A prová-lo estavam as cerca de quarenta mil pessoas que se deslocaram ao Passeio Marítimo de Algés, quando ainda não passava um ano desde os dois últimos concertos que a banda deu no Pavilhão Atlântico em Setembro de 2006. E se o público era muito, a expectativa era inversamente proporcional, dado que aparentemente já todos sabiam daquilo que os Pearl Jam são capazes ao vivo. Foi um Eddie Vedder em excelente forma que entrou em palco aos primeiros acordes de “Corduroy”, um tema com que a assistência estava, pois, mais que familiarizada.

O concerto dos Pearl Jam foi um gigante sing along dos temas mais novos, dos clássicos da banda e até de uma versão (já perto do fim) do tema de Neil Young “Rockin’ in the free world”, antecedido por um beijo simbólico entre uma máscara de George W. Bush e uma do Diabo. Intervenções políticas à parte, o concerto dos Pearl Jam decorreu como já se esperava, com as habituais declarações em português de Eddie Vedder, que não se limitou ao simpático “obrigado” e foi até mais longe ao dizer que a banda tocava no dia a seguir em Espanha, mas que estavam a tocar para os amigos de Lisboa e portanto “que se f… Madrid”. Aplausos dos portugueses à dedicação de Vedder em aprender a língua de Camões, ainda que tal tenha trazido uma declaração de algum mau gosto, diga-se com sinceridade. A actuação da banda norte-americana durou cerca de duas horas (uma hora e quarenta e cinco, descontando as dedicatórias e comentários de Vedder em português) e passou por temas como “Daughter”, “Better Man”, “Given To Fly” e as muito esperadas “Alive”, “Evenflow” e “Black”, cujo trautear do final por um público delirante se tornou extenso, cansativo e próximo do irritante/insuportável.

O concerto terminou com “Yellow Ledbetter”, uma ovação estrondosa e deixando em aberto a possibilidade (praticamente certa) de um regresso a Portugal nos próximos tempos. Os Pearl Jam são de facto uma banda coesa, com temas que marcaram o mundo da música dos últimos quinze ou vinte anos, e o tempo até parece nem passar por eles, porque ao fim de quase vinte anos de carreira continuam com energia de sobra, uma presença muito forte e a execução dos temas escolhidos roçou o irrepreensível. Provaram também que os seus concertos funcionam bem melhor para os fãs devotos da banda e do que resta da era grunge, dada a proximidade e quase intimidade que estabelecem com o público, que ainda que não pareça de modo algum forçada, se torna excessiva. Levam o galardão de maior audiência, mas não o de melhor concerto.

Susana Jaulino

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~ por hiddentrack.net em 8, Junho, 2007.

 
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