Alive! 07

O segundo dia do festival abraçou uma audiência diferente da do dia anterior, onde se agitavam em ebulição emoções distintas. Se este era o dia da estreia em Portugal dos The White Stripes (cujos fãs eram muitos, a avaliar pelo número de t-shirts do duo), acima de tudo era o dia do regresso de uma das bandas mais acarinhadas em Portugal, cuja separação em 2000 deixara os fãs mergulhados em saudade e expectativa perante um hipotético regresso. Era mesmo verdade, os The Smashing Pumpkins tocariam em Portugal ao fim de sete anos, quando faltassem quinze minutos para a meia-noite.

:: 9 de Junho de 2007

Dapunksportif

Este dia começou então com a actuação dos Dapunksportif e o seu rock que roça os norte-americanos Queens Of The Stone Age. O concerto da banda de Peniche foi animado e pareceu que àquela hora poucos eram os interessados em ver os Triangulo de Amor Bizarro que actuavam no palco principal, sendo que o palco secundário estava bastante composto para ver os Dapunksportif, não só por curiosos, mas por muita gente que conhecia já o trabalho do colectivo. Sem sucessor para Ready! Set! Go! (2006), os Dapunksportif fizeram desfilar um rol de temas interessantes e dinâmicos, numa actuação divertida, que de resto foi uma característica da maioria das bandas que passaram pelo palco secundário.

“I Can’t Move (But My Head Runs Like a Horse)” foi o tema melhor recebido pelo público, a par de “Arabian Princess” ou, já perto do fim, “Summer Boys”. Deste concerto dos Dapunksportif, fica a postura atrevida da banda e ao mesmo tempo alguma discrição, que permitiu que tal atrevimento jamais se transformasse em arrogância. Foi uma excelente forma de começar um dia que prometia emoções fortes. Os Dapunksportif aqueceram eficazmente um público receptivo às sonoridades praticadas pela banda portuguesa e a ovação final foi bem merecida.

Capitão Fantasma

Numa altura em que os portugueses Balla actuavam para poucas dezenas de pessoas no palco principal, a deslocação até à tenda de circo transformada em palco secundário trouxe-nos a actuação dos (também eles portugueses) Capitão Fantasma. A banda tocava para um público mais reduzido do que o que assistira ao concerto dos Dapunksportif, público esse que se dividia em duas facções distintas: alguns entusiastas do punk rockabilly da banda e os incrédulos face ao aparente duelo “energia vs. idade” que caracterizava a actuação do já mítico vocalista dos Capitão Fantasma, Jorge Bruto. Resta acrescentar que o primeiro opositor do duelo estava a ganhar com distinção.

A actuação dos Capitão Fantasma no Oeiras Alive! ficou sobretudo a dever-se ao regresso da banda em 2007 com o álbum Viva Cadáver, onze anos após a edição do último trabalho da banda, Contos do Imaginário e do Bizarro (1996). “Cidade Suja” foi então um dos temas retirados deste álbum que os Capitão Fantasma apresentaram no concerto do segundo dia do festival.

Os Capitão Fantasma até são uma banda interessante dentro do cruzamento rock ‘n’ roll/punk/rockabilly. No contexto do festival Oeiras Alive! estavam um tudo-nada desajustados e eram quase desconhecidos, como aconteceu de resto com algumas bandas ao longo dos três dias de festival. Decerto terão melhores ocasiões para apresentar Viva Cadáver, uma vez que esta oportunidade não lhes sorriu plenamente.

The White Stripes

O duo de Jack e Meg White conquistou já uma quantidade considerável de seguidores em Portugal que se aglomeraram junto ao palco principal alguns minutos antes da banda iniciar a sua actuação. Enquanto se ultimavam os preparativos para o concerto da banda, que contava com um set todo em vermelho, como já seria de esperar, o blues que saía das colunas do palco acompanhava a espera.

E os The White Stripes surgiram finalmente, com a discrição de Meg e a postura arrojada e ao mesmo tempo quase envergonhada de Jack, de vermelho dos pés à cabeça, e encheram na totalidade o palco apenas com as suas presenças e o seu cruzamente de rock e blues. Com cinco álbuns já editados e um sexto que verá a luz ainda durante o mês de Junho, os The White Stripes brindaram os presentes com uma selecção que passou por todos os álbuns do duo, e serviu também para apresentar temas de Icky Thump – o novíssimo álbum da banda –, como “I’m Slowly Turning Into You” e a homónima “Icky Thump”.

A banda desfilou então temas como “Hotel Yorba” ou “We’re Going To Be Friends”, mas os momentos altos residiram na apresentação das faixas mais conhecidas do duo, nomeadamente “Julene”, “Fell In Love With a Girl” e “I Just Don’t Know What To Do With Myself”, esta última com o público a cantar entusiasticamente. Este entusiasmo só se viria a repetir no último tema que a banda apresentou, “Seven Nation Army”, que era no fundo tudo o que todos estavam à espera, não fosse este o tema que definitivamente catapultou os The White Stripes, e que toda a gente tão bem conhece, ao ponto de ser um daqueles temas remotos cujo refrão instrumental é cantado por toda a gente.

Os The White Stripes abandonam o palco, depois de uma demonstração de rock de uma banda cuja carreira é tão sólida quanto promissora. O ponto negativo do concerto vai mesmo para o som da banda em palco, que se dispersava demasiado, e por isso, perdia parte da intensidade ao espalhar-se pelo recinto. Ficou a ideia que este seria um concerto que resultaria bem melhor num espaço fechado e já agora, em nome próprio.

The Smashing Pumpkins

O concerto da noite. O concerto do festival. Um dos melhores concertos do ano de 2007 que já vai a meio. Mais que expectativa, havia muita ansiedade por cima das cabeças que se juntavam perto do palco principal, pouco depois dos The White Stripes terem terminado a sua actuação. Já se sabia que da formação original dos Pumpkins só restavam Billy Corgan (voz, guitarra) e Jimmy Chamberlain (bateria). Já se sabia que os substitutos de James Iha (guitarra) e D’arcy Wreztky (baixo) dão pelo nome de Jeff Schroeder e Ginger Reyes. A formação já não estava em questão. Era preciso assistir para saber se o pulso dos Pumpkins ainda era forte.

Uma introdução não muito extensa trouxe a chuva e a chuva trouxe os The Smashing Pumpkins – Billy Corgan com o quimono com que se tem apresentado nesta digressão e os primeiros acordes de “Today”. Um tema que fez todo o sentido naquele momento, com o público em uníssono a cantar “today is the greatest day I’ve ever known”. A emoção era mais que contagiante, e foi assim durante as duas horas que se seguiram. Não se limitando aos temas que o público conhecia de cor, o concerto teve em “Tarantula” a amostra mais forte do novo trabalho, Zeitgeist, a ser editado no próximo mês de Julho. Previsivelmente, não foram os novos temas os que arrancaram gritos conjuntos ao público. Depois de “Today”, sucedeu novo terramoto à passagem da extraordinária “Bullet With Butterfly Wings” e o concerto seguiu com réplicas como “Tonight, Tonight”, “Thirty-three”, “Zero” e “Cherub Rock”. Inevitavelmente, o momento alto pertenceu por inteiro a “Disarm”, momento que não deixou ninguém indiferente, pela força com que Billy Corgan e o público entoaram o tema, numa homogeneidade difícil de igualar.

Ao longo de todo o concerto Billy Corgan foi exímio quer na execução da guitarra quer na performance vocal. Jimmy Chamberlain esteve sempre dentro do tempo por detrás da bateria, e os novos membros, ainda que não fazendo esquecer James Iha e D’arcy (ou até a própria Melissa Auf Der Maur), desempenharam o papel que lhes era exigido, à sombra do carisma e do magnetismo de Billy Corgan.

Para o fim, a banda deixou um tema aparentemente desconhecido, de uma duração excessiva, que se tornou numa espécie de mostra de rock progressivo e dos dotes de Billy Corgan na guitarra. Ao meu lado disseram que era assim que se matava um concerto perfeito. E com razão. Sem os quinze minutos de divagação que fecharam a actuação, o concerto dos The Smashing Pumpkins teria sido divino.

texto: Susana Jaulino
fotos: Carina Félix

Anúncios

~ por hiddentrack.net em 9, Junho, 2007.

 
%d bloggers like this: