Queens Of The Stone Age – Era Vulgaris

Em jeito cartoonesco e em tons coloridos, os Queens Of The Stone Age regressam com um novo álbum, Era Vulgaris, despindo-se do obscuro manto que colocaram com Lullabies To Paralyze (2005) e procurando afastar o mais possível o fantasma de Nick Oliveri. Embora Josh Homme tenha conseguido levar por diante a banda, convertendo-a à sua imagem, não se consegue deixar de sentir uma certa necessidade insatisfeita ao ouvir-se o segundo disco da era pós-Oliveri. Talvez seja eu que esteja demasiado nostálgico neste momento, mas as linhas de baixo viscerais e as abruptas e violentas vocalizações do ex-membro dos Q.O.T.S.A. são algo que Homme nunca conseguiu verdadeiramente substituir com o seu estilo descontraído, sedutor e de melodias épicas com sabor a pop.

Reclamação feita, vejamos o que nos trazem os Q.O.T.S.A. com o seu quinto álbum de originais. Apesar de um início algo em falso com “Turnin’ On The Screw”, onde tirando a batida embalante e forte pouco se encontra dos Q.O.T.S.A. que esperávamos, Era Vulgaris consegue ser um passo em frente na progressão musical da banda e, de certa forma, no rock contemporâneo (embora a Josh Homme seja claramente uma mente que habita em tendências musicais com um par de décadas em cima). “Sick, Sick, Sick” é o primeiro single do disco é algo assim como um jingle de rock musculado para a perversão. Julian Casablancas (The Strokes) participa nesta faixa, como bom vendedor que é. Se em “Turnin’ On The Screw” a surpresa nos deixa algo de pé atrás, o inverso acontece com “I’m Designer”. Josh Homme interpreta esta canção no seu estilo mais desleixado, hipnótico e docemente perverso, como já tínhamos visto em “Skin On Skin”, de Lullabies To Paralyze. “The thing that’s real for us is: Fortune and Fame / All the rest seems like work. / Its just like Diamonds / in shit” ou “High and mighty you say selling out is a shame. Is that the name of your book?” são algumas das provocantes frases desta canção com cheiro a plástico e Kate Moss.

A voz Josh Homme, num registo mais plácido, surge em “Into The Hollow” para nos conduzir numa das melhores faixas do disco. Num tom mais sereno e sério, a banda entrega-nos quatro minutos de deleite de stoner etéreo, como só os Q.O.T.S.A. conseguem fazer. Com a mesma alma encontramos, um pouco mais adiante, “Suture Up Your Future”. “Misfit Love” tem um falsetto de Homme que tende a perder o seu encanto no meio do rock algo industrializado que parece ressurgir de vez em quando. O disco volta a ganhar fulgor em “Battery Acid”, a música mais contundente feita pelos Q.O.T.S.A. sem a presença de Oliveri. Os riffs de guitarra são simples, cortantes e o refrão serve de contrapeso suave. Recuperada das experimentais Desert Sessions, “Make It Wit Chu” é blues rock com balanço de corpo e cigarro aceso. Já conhecida entre os seguidores mais atentos do trabalho de Homme, esta faixa consegue ter um lugar particularmente feliz dentro de Era Vulgaris, dando-lhe um sabor menos saturado e excessivo.

Era Vulgaris acaba por ser algo diferente dentro da discografia dos Q.O.T.S.A. sem soar completamente absurdo ou irregular. As guitarras continuam a ter um papel de destaque, funcionando como verdadeiras mutantes que se revestem de diferentes características sonoras, aprofundando a natureza psicadélica da música do grupo. No entanto, longe estão os tempos em que os riffs comandavam as canções com punho de ferro e Era Vulgaris parece querer centrar-se mais no ritmo e na junção da estranheza sónica. Josh Homme continua a encabeçar a lista de estrelas rock, quer na sua atitude quer no seu talento enquanto compositor. Era Vulgaris consegue que os Queens Of The Stone Age não se repitam, nem estagnem. No entanto, se a participação de Dave Grohl em Songs For The Deaf (2002) resultou numa obra-prima, os Q.O.T.S.A. não conseguiram aqui mais que a criação de um álbum relativamente vulgar dentro do parâmetro de qualidade a que nos habituaram.

7/10 | Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 12, Junho, 2007.

 
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