13º Festival Super Bock Super Rock – Act I

Com um dos melhores cartazes de sempre, a 13º edição do festival lisboeta Super Bock Super Rock arrancou à beira do Tejo com uma verdadeira enchente de público. O Act I foi dominado pelas sonoridades mais pesadas, numa mistura de rock e metal, encabeçado pelos Metallica que demonstraram mais uma vez que o seu estatuto de monstro histórico do metal não surge por acaso. Os brutais Mastodon, Stone Sour ou o virtuoso Joe Satriani foram outros dos nomes que pisaram o palco do Super Bock Super Rock.

:: 28 de Junho de 2007

 

More Than A Thousand

Coube aos portugueses More Than A Thousand a segunda actuação no palco do Festival Super Bock Super Rock, depois da inauguração do dia (e do festival) ter estado a cargo dos Men Eater.

A banda de Setúbal (agora residente no Reino Unido) foi inevitavelmente traída pelo calor que se fazia sentir àquela hora (passava cerca de meia-hora das quatro da tarde), bem como pela pouca afluência de público junto do palco, quer pelo pouco interesse que os More Than A Thousand possam ter eventualmente despertado, quer pelos poucos presentes que se encontravam já no recinto.

Os More Than A Thousand desfilaram o seu hardcore/emocore recorrendo a Volume I: Trailers Are Always More Exciting Than Movies (2004) e ao mais recente Volume II: The Hollow, editado no segundo semestre de 2006, perante poucos apreciadores devotos do trabalho da banda. A banda não baixou os braços em tempo algum, incentivando o público entusiasticamente, mas recebendo muito pouco em troca.

Ao fim de aproximadamente trinta minutos de concerto, os More Than A Thousand puseram um ponto final na sua actuação com “The Hollow”, que foi, tal como a própria banda, recebida com alguma indiferença pelo pouco público que se juntara nas imediações do palco. Melhor sorte para uma próxima oportunidade, espera-se. (Susana Jaulino)

 

The Blood Brothers

Os Blood Brothers tiveram uma injusta recepção. O grande número de pessoas que acorreu ao primeiro dia de festival revelaram-se bastante intolerantes para aqueles que em palco desfasavam do ambiente metaleiro e supostamente viril que parecia dominar o dia. Para que se entenda o que tal significa, podemos considerar os Blood Brothers como uma espécie de Scissor Sisters do post-hardcore, onde para além da roupa justa e colorida, o vocalista Johnny Whitney assume as rédeas do concerto com maneirismos algo afeminados. E embora a banda se tenha esforçado para não se deixar condicionar pela palpável hostilidade do público, notou-se algum distanciamento forçado dos Blood Brothers.

No entanto, é de elogiar a postura da banda, preocupada em entregar o seu reportório nervoso àqueles que conseguiam desfrutar no meio da hostilidade. Com Young Machetes (2006) fresco e a dominar o alinhamento da banda, o single “Set Fire To The Face On Fire” ainda conseguiu convencer alguns daqueles que deixaram a banda demonstrar o seu poderio ruidoso. “Camouflage Camouflage”, “Trash Flavoured Trash” ou “Love Rhymes With Hideous Car Wreck”, foram outras das presenças já obrigatórias nos concertos da banda de Seattle.

No final ficou um sentimento de perfeito desencontro entre banda e público, cuja explicação tanto pode tender para o desenquadramento da música e postura dos Blood Brothers em relação às restantes bandas do dia, ou para a intolerante e preconceituosa atitude do público em relação a uma das melhores bandas de post-hardcore deste novo século. Esperemos que regressem ao nosso país em breve, numa sala mais íntima, onde poderão entregar de forma mais digna a energética a música que compõem. (Gonçalo Sítima)

 

Mastodon

De volta a Portugal, após a digressão conjunta com os Tool, que os trouxe a Lisboa em Novembro de 2006, os norte-americanos Mastodon regressaram a um palco que já conheciam, dois anos depois de terem actuado na edição de 2005 do Festival Super Bock Super Rock. Desta feita, havia mais um álbum na bagagem do grupo, e com Blood Mountain (2006) à cabeça o quarteto de Atlanta proporcionou o primeiro grande concerto do dia, na verdade, uma actuação que em vários momentos superou a dos reais cabeças de cartaz do Act I.

Sem os problemas de som que haviam prejudicado a actuação dos Mastodon no Pavilhão Atlântico, os norte-americanos centraram a actuação nos dois últimos trabalhos editados, tendo também havido tempo para uma passagem curta por Remission (2002), por intermédio de “March Of The Fire Ants”.

Pelo meio ficaram temas centrais de Leviathan (2004) como “Aqua Dementia” e “Island” (o tema de abertura). Os melhores momentos do concerto, brilhantemente conduzido por Brann Dailor na bateria, residiram em “Megalodon” e em temas mais recentes como “Colony Of Birchmen” ou “The Wolf Is Loose”, que abanaram o público com a violência que se exigia, e este agradeceu. Criticados por alguns presentes por não parecerem muito amistosos, a verdade é que Brent Hinds (guitarra) e Troy Sanders (baixo) tiveram uma prestação próxima do irrepreensível, mostrando porque são os Mastodon um dos nomes mais sonantes e inovadores do metal.

Para o fim, a demolidora “Blood And Thunder”, para saciar os que lamentaram a sua exclusão do alinhamento do concerto do Pavilhão Atlântico. Os Mastodon recolheram com toda a justiça a primeira grande ovação do dia, depois de um concerto memorável; e a avaliar pela energia do público durante a actuação dos norte-americanos, bem como pelo número considerável de fãs identificados, torna-se cada vez mais imperativo uma data em nome próprio. (Susana Jaulino)

Stone Sour

Apesar de contar com uma presença significativa de fãs entre o público, o concerto dos Stone Sour não trazia uma especial expectativa. Mesmo com um novo disco no reportório, não se esperavam grandes surpresas no concerto da banda norte-americana, e não se esperava um mau concerto. Esta seria uma aposta segura no cartaz do festival. Os Stone Sour estiveram no palco do Super Bock Super Rock com uma elevada energia, o que resultou num adesão mais ou menos transversal do público. Liderados por um verdadeiro “mestre de cerimónias” do metal moderno, o vocalista Corey Taylor (Slipknot), a banda apresentou o seu segundo disco editado o ano passado Come What(Ever) May e recheou o alinhamento com algumas das músicas mais bem sucedidas do seu disco homónimo de estreia de 2003.

Num estilo de metal moderno impulsionado por hard rock, os Stone Sour mantiveram o público num constante interesse, alternando inteligentemente entre composições mais suadas como “30/30-150” (que abriu o concerto) ou “Made Of Scars”, e outras mais espaçadas de maior exigência vocal como “Inhale” e “Through Glass”. Apesar da melodia ser uma das ferramentas principais com que trabalham Corey Taylor e os restantes músicos da banda, criando refrões extremamente eficazes canção atrás de canção, o concerto é encerrado de forma impiedosa com “Hell And Consequences” e “Get Inside”.

O concerto viveu da boa ligação estabelecida entre banda e público, uma situação diametralmente oposta à dos Blood Brothers. Não é fácil de determinar se todos aqueles que se deslocaram até ao Parque Tejo para assistirem ao concerto dos Stone Sour foram motivados pela banda por si só ou por esta ser uma espécie de prima directa dos impactantes Slipknot (que habitavam em grande parte da indumentária dos presentes). Mas se depender deste concerto e do desempenho que os cinco músicos tiveram em palco, os Stone Sour conseguirão manter-se nos escaparates da música comercial pesada sem qualquer tipo de muleta ou admiração indirecta. (Gonçalo Sítima)

 

Joe Satriani

A inclusão do guitarrista Joe Satriani no cartaz do Act I do Festival Super Bock Super Rock suscitou na mente de grande parte do público uma interrogação. Sem qualquer tipo de desprimor pelo trabalho do guitarrista, que é de resto um dos melhores do mundo na execução dos mais mirabolantes truques na guitarra eléctrica, a verdade é que a sua presença no dia 28 foi olhada com algumas reservas. Satriani seria ou não uma boa abertura para os Metallica, e quantas pessoas se deslocariam ao recinto pelo guitarrista norte-americano?

Foi um público mais ou menos disperso que assistiu a uma hora de concerto do guitarrista, enquanto a enorme massa humana que compôs o primeiro dia de festival se distribuía um pouco por todos os quiosques onde se pudesse aconchegar o estômago. Nada que obviamente tenha incomodado Satriani, que apresentou temas do mais recente trabalho Super Colossal (2006), nomeadamente “Crowd chant”, e não esqueceu o clássico Surfing With The Alien (1987), de onde para além do tema-título se pôde ouvir “Always with me, always with you” e “Circles”.

Pelo meio, os intermináveis solos que servem justamente para ilustrar o estatuto de melhor guitarrista do mundo que Satriani conserva há anos, abrilhantados por todos os malabarismos imagináveis ou não, que ainda assim convenceram poucos a resistir em frente ao palco.

E Joe Satriani é sem dúvida um dos guitarristas mais talentosos que se conhecem. É um facto. Uma hora de rock instrumental que facilmente se torna enfadonho num ambiente em que é suposto haver o mínimo possível de momentos mortos é um acidente de percurso grave. A visita do guitarrista norte-americano veio decididamente em má altura, incutiu uma quebra de dinâmica muito forte no público e provou que Satriani é músico para uma sala só e para um público muito específico, num ambiente em que estejam reunidas todas as condições para que músico e público desfrutem de momentos que possam recordar. Não foi o que aconteceu. (Susana Jaulino)

Fotos: Hugo Rodrigues

 

Metallica

Um concerto dos Metallica tem, à luz deste novo século, um deleite que poucas bandas de metal ainda conseguem provocar. Se por um lado os Slayer, Sepultura ou Iron Maiden, os ditos clássicos, continuam a viajar em velocidade cruzeiro dentro dos seus imaginários, os Metallica há muito que encontraram uma certa estagnação criativa. Mesmo com a edição de St. Anger (2003) e da sua maior propagação que os dois álbuns que o antecederam, a verdade é que os Metallica vivem principalmente das obras-primas que conceberam durante os anos 80 e inícios dos 90. Por este motivo, um concerto de Metallica é essencialmente um retrocesso ao passado, um penetrar na memória de várias gerações, como o comprovou o diversificado público que povoou abundantemente o Parque Tejo. Pequenos e graúdos preparam convenientemente os seus devilhorns para receberem o quarteto norte-americano três anos após a presença no Rock in Rio Lisboa. Silêncio que se vai tocar metal.

Após uma anormal espera (quase todos os concertos anteriores começaram a tempo e horas) surge nos ecrãs do palco do Super Bock Super Rock as empoeiradas imagens de “O Bom, o Mau e o Vilão” acompanhadas pela mítica banda sonora de Ennio Moriconne. Cresce a tensão e as gigantescas colunas do palco disparam o riff inicial de “Creeping Death”, soltando nos presentes uma efusiva reacção. A partir daqui, a banda de James Hetfield iria seguir por uma via dourada de clássicos sonantes e algumas surpresas. Seguiu-se “For Whom The Bell Tolls”, “Ride The Lightning” e “Disposable Heroes”, um conjunto de músicas musculadas e electrizantes, repletas de thrash e riffs épicos como só os Metallica tiveram o génio de criar. Os primeiros contactos feitos por Hetfield com o público revelaram como o carisma do vocalista e guitarrista não parece desvanecer com o tempo. Alternando os incentivos sonoros entre os “Yeah!” e os “Hoo-rah!”, Hetfield teve neste concerto uma atitude muito menos excessiva que no Rock in Rio, contribuindo para uma noite mais agradável onde a personalidade de cada um dos membros dos Metallica se reflectiu primordialmente no som que produziam os seus instrumentos. Mas não se enganem, Lars Ulrich continuou a levantar-se do assento a circundar a bateria sempre que podia.

O recobro surgiu pouco depois com os primeiros acordes de “The Unforgiven”. E se o cântico generalizado nesta faixa conseguiu ser um grande momento do concerto, nada poderia prever que os Metallica interpretassem logo de seguida “…And Justice For All”. Este é um dos temas históricos da banda e que há mais de uma década que não via a luz do palco. Foi bom saber que continuam a olhar para o seu reportório e a reviver algumas das pérolas que os elevaram ao estatuto de uma das maiores bandas de metal de sempre.

“The Memory Remains”, cuja melodia contagiante assume uma dimensão colossal em concerto, justificando a sua permanência no alinhamento, foi a única representante dos discos pós-1991. O palco era composto por uma estrutura metálica que funcionava como um segundo andar para onde Robert Trujillo subiu após de “The Four Horsemen” para interpretar um pequeno solo de baixo que serviu de prelúdio a “Orion”. Uma das raras faixas dos Metallica completamente desprovida de voz e que serviu de homenagem a Cliff Burton, o falecido baixista da banda. Com “Fade To Black”, “Master Of Puppets” e “Battery”, todas elas acompanhadas letra a letra pelos vários milhares de fãs da banda, o concerto chega a um interregno.

O primeiro encore esteve entregue à lenta e dilacerante “Sad But True” e à universalmente conhecida “Nothing Else Matters”. Mas os Metallica não vieram apenas munidos de um palco imponente e de um ecrã gigante que por vezes ilustrava as faixas tocadas, e “One” fez despertar o dispositivo pirotécnico preparado pela banda. Simulando sonoramente um ambiente de guerra e caos, a canção de …And Justice For All (1988) desenvolve-se como uma das faixas mais penetrantes dos Metallica. Nesta épica composição, a banda tem a oportunidade de demonstrar a arte com que manuseia riffs destruidores, melodias reconfortantes, e onde Kirk Hammett exibe mais uma vez o seu talento enquanto guitarrista e compositor de solos com igual qualidade de virtuosismo e sentimento (embora tenha sido em “Master of Puppets” que melhor se sentiu esta faculdade do guitarrista). Com “Enter Sandman” os Metallica despedem-se novamente do público e saiem de palco. O concerto encerraria definitivamente alguns minutos mais tarde, após a banda interpretar “Am I Evil?” e a muito esperada “Seek & Destroy”.

Muitos aplausos, ovações guturais e tanto o público como a banda rendem-se por completo após mais de duas horas de concerto. Elogios com sorrisos rasgados e a promessa de regresso para breve com um novo disco serviram de mote para encerrar noite e regressar a casa. Desprovidos de polémicas ou complicações “novelescas”, os Metallica inciaram em Lisboa um a digressão “Sick Of The Studio Tour” com um concerto honesto, repleto de momentos nostálgicos e ruidosos, conseguindo fazer justiça à afluência de mais de 35.000 pessoas ao recinto do festival. Talvez aqueles que esperavam ouvir alguns dos temas mais recentes tenham ficado algo desiludidos, mas de certo que a oportunidade para tal virá. Para os que insistem em vestir aquela tshirt preta de Metallica aclarada pelas milhares de lavagens e que cresceram a ouvir os primeiros discos da banda, esta foi uma noite memorável. (Gonçalo Sítima

Foto: Marina Marques

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~ por hiddentrack.net em 28, Junho, 2007.

 
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