13º Festival Super Bock Super Rock – Act II

O segundo dia do festival, quase uma semana depois do seu início, marcou uma mudança de Acto e de géneros musicais. Com uma eclética selecção de bandas do espectro indie, este dia ficou marcado pelo concerto impressionante dos canadianos Arcade Fire, uns justos cabeças de cartaz. Os Bloc Party regressaram a Lisboa para um concerto energético, seguido por milhares de admiradores da banda, e os Magic Numbers surpreenderam com um desempenho simpático e afável. Começou da melhor maneira a segunda parte do SBSR.

:: 3 de Julho de 2007

Bunnyranch

O primeiro dia do Act II da décima terceira edição do Festival Super Bock Super Rock começou com a actuação dos portugueses Y? a que se seguiu a prestação da banda conimbricense Bunnyranch. Ao longo de pouco mais de quarenta minutos, a banda desfilou temas dos três trabalhos que compõem até agora a sua discografia, com especial destaque para o último trabalho do grupo – Luna Dance (2006).

Num concerto em que assentou bem a expressão “fazer render o peixe”, os Bunnyranch descarregaram uma série de temas rock & roll em contra-relógio. A corrida contra o pouco tempo de actuação permitiu-lhes apesar de tudo criar uma empatia ligeira com o público, um misto de curiosos e apreciadores do trabalho da banda de Kaló, que comanda as operações do seu posto – a bateria, e é também o vocalista dos Bunnyranch.

Do alinhamento seleccionado, ficaram-nos “Your Words Are My Jokes” ou “Let Me Understand”. Houve também tempo para uma passagem pelo trabalho de 2002, Too Flop To Boogie com a versão que a banda fez do tema “Hungry” de Paul Revere & The Raiders. Os Bunnyranch proporcionaram um aquecimento razoável para uma noite que ainda nem começara, mas que se imaginava à partida inesquecível. (Susana Jaulino)

The Gift

Dentro do circuito nacional, os The Gift são uma daquelas bandas que já conquistou um lugar muito seu. Talvez por isso, a banda de Alcobaça há já algum tempo que não nos surpreende por aí além. O concerto que deram no dia 3 foi mais um na agenda dos The Gift, que contavam com um contingente de fãs relativamente numeroso no Parque Tejo.

A actuação da banda iniciou com “Music”, do álbum AM-FM (2004) e seguiu num débito de temas deste álbum, como “11:33” ou “Driving You Slow”, com um final em jeito mash-up com o refrão do tema “Enjoy The Silence” dos Depeche Mode. Ouviu-se também “6 4 5”, do último trabalho da banda, Fácil De Entender (2006), anunciado por Sónia Tavares como o próximo single a lançar pela banda.

Sónia Tavares esteve, de resto, próximo do irrepreensível no que diz respeito à interpretação dos temas, sempre muito segura, o que conferiu aos The Gift uma excelente prestação técnica. Mas os concertos também são feitos da interacção que se gera entre banda e público, e neste parâmetro os The Gift ficaram aquém do que seria de esperar.

Cinquenta minutos da fusão electrónica/alternativa que os The Gift desde sempre têm vindo a praticar não surpreenderam quem já os conhecia ao vivo e acabou por não fascinar os estreantes. Estava-se em trajectória ascendente, mas em relação aos The Gift exigia-se bem melhor. (Susana Jaulino)

Klaxons

Os Klaxons chegavam a Portugal com um hype bastante elevado, prometendo agitar os corpos no segundo dia de festival. Com o metal já com alguns dias de distância, seriam os britânicos a abrir oficialmente a secção indie dançável do festival que se iria manter por todo o segundo Acto. Com o rótulo de new rave, colocado pela conhecida publicação britânica NME, os Klaxons revelaram em concerto a bipolaridade sonora que infesta a personalidade das suas composições. Através da mistura do mundo mais violento e dançável da música rave e da sensibilidade pop de refrões e melodias açucaradas, os Klaxons conseguiram alimentar o público sedento de diversão.

Embora a luz do dia impedisse que o ambiente se assemelhasse ao ambiente fosforescente de uma festa rave, os Klaxons não se sentiram intimidados. O concerto abriu com uma personalizada “Bouncer” onde se ouviu dizer Jamie Reynolds, vocalista e baixista, em feroz convicção “Listen up Lisbon, you’re not coming in!”. Não faltaram os temas mais conhecidos do grupo, que apesar de só ter um álbum e um EP, são já bastantes. “Atlantis To Interzone”, “Isle Of Her” ou “Golden Skans” foram alguns desses exemplos. No entanto, foi com a monumental “Magick” que os Klaxons fizeram estremecer o Parque Tejo. A partir desta canção a banda apostou nas descargas de energia mais intensas, como “Gravity’s Rainbow” e a finalizadora “Four Horsemen Of 2012” que explodiu ruidosamente enquanto a guitarra abandonada de Simon Taylor se retorcia em feedbacks.

A estreia dos Klaxons em Portugal foi positiva. Apesar da banda parecer por vezes algo perdida em palco (talvez um festival não seja o local mais adequado para os britânicos) e de queimarem algum tempo para que o alinhamento encaixasse perfeitamente, aguarda-se que regressem a Portugal, num cenário mais subversivo e escurecido que aquele final de tarde quente e luminoso à beira-rio. (Gonçalo Sítima)

The Magic Numbers

Romeo e Michele Stodart, Sean e Angela Gannon são os dois pares de irmãos que compõem os The Magic Numbers, a segunda banda do Reino Unido a pisar o palco na estreia do Act II. Com dois álbuns lançados – The Magic Numbers (2005) e Those The Brokes (2006) –, o quarteto proporcionou-nos a grande surpresa do dia.

Estando pela primeira vez em Portugal, os Magic Numbers abriram o concerto com “This Is A Song”, seguida de “Take A Chance”, os dois singles extraídos do álbum de 2006. Terminava assim o dia, com uma banda sonora que nos fazia querer abanar as ancas descomprometidamente. Sempre alegres e comunicativos, com uma sonoridade com cheirinho a country, foram-nos guiando por músicas que falam de amor. Os momentos menos bons da apresentação foram representados pelos temas mais melancólicos.

Em frente ao palco via-se uma multidão bem composta que recebeu muito bem os irmãos londrinos, com aplausos honestos. Criou-se um ambiente agradável de empatia que durou cerca de uma hora, enquanto o público era presenteado com temas como “Forever Lost”, “Love Me Like You”, “Love’s A Game” e “I See You, You See Me”. Pelo meio houve ainda tempo para a apresentação de uma nova música, “Fear Of Sleep”, retirada de um EP que gravaram recentemente, e para nos segredarem que os irmãos Stodart têm, também, sangue português.

Da sua passagem pelo festival destaca-se a simpatia do colectivo e a forma como Romeo e Angela se conjugam vocalmente dando origem a pequenos apontamentos muito agradáveis. (Sílvia Dias)

Bloc Party

O início da preparação do palco para receber os Bloc Party coincidiu com o início da corrida de vários festivaleiros que, aparentemente, se tinham mantido afastados até então. Era um prenúncio do que viria a seguir. Uma multidão mais ou menos sóbria, repleta de adolescentes no auge do furor hormonal, concentrava-se até ao impossível contra as grades. Aqui vemos o indie rock dos Bloc Party a elevar-se ao patamar mainstream da música, com a ajuda preciosa de séries como “The O.C.” e “Grey’s Anathomy”, ou ainda de anúncios publicitários, nomeadamente da Vodafone.

Passava já da hora marcada quando Kele Okereke, Russell Lissack, Gordon Moakes e Matt Tong subiram ao palco, fazendo o público estremecer. O concerto começou da mesma forma que Weekend In The City (2007), com a “Song for Clay (Disappear Here)” e cedo os músicos conseguiram alcançar manifestações descontroladas da multidão, com os primeiros acordes de “Banquet”, o incontestável hit de Silent Alarm (2005).

Com algum mosh e crowd surfing à mistura, os Bloc Party deram um concerto razoavelmente bom, com realce para a postura em palco e as qualidades de Okereke na comunicação com o público, incentivando-o e fazendo algumas piadas. A sua música funciona muito bem ao vivo e o entusiasmo da multidão assistente comprova-o.

No alinhamento do concerto foram surgindo “This Modern Love”, “Hunting for Witches”, “She’s Hearing Voices” e “Waiting for the 7.18”, que não surpreenderam quem tinha assistido à última apresentação dos músicos no passado dia 18 de Maio, no Coliseu dos Recreios. Depois de “Like Eating Glass” o concerto parece terminar, mas os músicos regressam para tocar ainda “Helicopter” e “Pioneers”, que encerram a presença dos Bloc Party no Super Bock Super Rock. Destacam-se ainda a “Sunday”, tocada com duas baterias, e a “Two More Years”, que não tinha sido contemplada no concerto do Coliseu.

A passagem pela décima terceira edição deste festival marcou o fim da digressão dos Bloc Party, que regressam agora a casa. Com dois álbuns na bagagem, esta foi sua terceira paragem no nosso país. (Sílvia Dias)

The Arcade Fire

Os preparativos cénicos atrasaram o início do concerto. Aos poucos o cenário ia-se compondo: um órgão de tubos de fantasia, cincos ecrãs redondos simetricamente distribuídos, barras verticais de néon a encabeçar a boca do palco, a neon bible como fundo, megafones e instrumentos, muitos instrumentos. Do lado de cá, o dos espectadores ansiosos, avistava-se uma multidão comprimida e em comunhão.

Quando, no seguimento de anúncios pouco imaginativos dos patrocinadores, se ouve uma voz estridente a gritar a história bíblica de David e Golias e clamando pelo “senhor Jesus” perante uma multidão de fervorosos fiéis, a reacção de espanto foi comum e evidente. E enquanto a audiência se apercebia do que se passava, os dez senhores da noite tomaram conta do palco.

O concerto arrancou com “Black Mirror”, o que não surpreendeu, como não surpreendeu a sua perfeita interpretação. De contornos negros e sinuosos, a faixa que encabeça o Neon Bible (2007) transmitiu uma energia fabulosa à assistência, que respondeu ao apelo dos anfitriões instantaneamente. Aos primeiros minutos já o público transpirava, respirava como podia, mas dançava. Dançava sempre. E cantava, também. Para não quebrar o ritmo impresso pelo início, segue-se “No Cars Go”. Com o seu término, Win Butler abandonou o microfone e deu lugar a Régine Chassagne que nos iria falar sobre o local onde nasceu, mas nunca viveu – “Haiti”, a primeira amostra do genial Funeral (2004). Com “Haiti” dança-se descontraidamente, sensualmente se possível for. A música dá-nos acordes desprendidamente exóticos. Todavia, depressa se regressa à fina ironia crítica dos preceitos religiosos, da dura realidade social e dos atropelos rotineiros, tão presente na última criação do colectivo. É, portanto, a vez de “(Antichrist Television Blues)” e do primeiro single, “Intervention”. Ao longo do concerto teremos também “The Well & The Lighthouse”, “Ocean of Noise” e a electrizante “Keep The Car Running”.

O excessivo número de pessoas em palco, a energia que descarregavam a cada segundo de entrega tresloucada aos temas que iam interpretando, todo o cenário envolvente, fizeram daquele um espectáculo incomum. A par da sua qualidade, vemos paixão. Todo o entusiasmo criado em redor dos The Arcade Fire desde o lançamento de Funeral e o consenso generalizado sobre a sua grandiosidade poderia gerar alguma desconfiança. Se tal aconteceu, foi dissipada na actuação na primeira noite do Act II do festival. Naquela noite tudo foi colocado na interpretação de cada tema. Todos os corações, inclusivé os nossos.

Depois de relembrarem a clássica “Headlights Look Like Diamonds” do EP The Arcade Fire (2003), abriram-se finalmente as portas para as “pequenas” composições repletas de genialidade do álbum de estreia. “Neighborhood #1 (Tunnels)”, “Rebellion (Lies)” e “Neighborhood #3 (Power Out)” sucedem-se ao sabor dos coros de um público assombrado e completamente avassalado. Funeral é uma obra-prima. Das maiores da música dos últimos anos.

Win Butler era o condutor incontestável da noite, da sua orquestra. Esta, também rendida perante a entrega e o entusiasmo do público nacional, não se cansa de o aclamar, incitar, pedir mais, sempre mais. Mais coros, mais dança. Foi uma aura surreal e agradável que encerrou a noite. “Wake Up” foi a banda sonora inevitável, não fosse este o seu melhor tema. Forte suficiente para arrepiar, interventiva, dura e imperativa, repentinamente leve e alegre. “Wake Up” congrega em si uma complexidade sentimental e interpretativa difícil de concretizar materialmente. Os Arcade Fire conseguem-no em estúdio e conseguiram-no de forma exponencialmente superior em palco. No último tema, em todos os temas.

Do concerto ficam as palavras que não existem para o descrever, fica a memória colectiva, porque apenas quem presenciou sabe do que se fala aqui. Aguardamo-los ansiosamente, numa noite em nome próprio como ainda não se viu no nosso país. (Sílvia Dias)

Fotos: Gonçalo Sítima e Sílvia Dias

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~ por hiddentrack.net em 3, Julho, 2007.

 
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