13º Festival Super Bock Super Rock – Act II

O intenso vento e frio caiu sobre o festival na noite do terceiro dia. Apesar do cancelamento dos The Rapture, o dia acabou por ser uma experiência bastante positiva com os Maxïmo Park a terem uma actuação muito bem conseguida e os LCD Soundsytem a provocarem uma verdadeira revolução dançada entre o público. O travo amargo foi deixado pelos envelhecidos The Jesus & Mary Chain, que mais não fizeram que interpretar os temas que os consagraram no mundo do rock alternativo, sem qualquer mostra de entrega ou regozijo na actuação. Para muitos, isso bastou.

:: 4 de Julho de 2007

Mundo Cão

Os Mundo Cão são uma banda que resulta de um projecto intrinsecamente ligado aos Mão Morta. As letras que compõem o registo homónimo da banda (datado de 2006) são da autoria de Adolfo Luxúria Canibal e os Mundo Cão contam na sua formação com Miguel Pedro (na bateria) e Vasco Vaz (guitarra), também eles membros dos Mão Morta. A difícil tarefa de serem os primeiros a tocar proporcionou-lhes alguma apatia do público, que só se mexeu aos acordes do primeiro single da banda – “Morfina”.

À cabeça, Pedro Laginha, mais mediático como actor do que exactamente como cantor, desempenhou o papel que se lhe exigia, embora por vezes parecesse contagiado pela inércia que pairou no ar durante quase toda a actuação da banda. Ainda assim, a banda deu um concerto que acabou por ser competente tendo em conta o que lhes era pedido.

Os cerca de trinta minutos de concerto dos Mundo Cão serviram para mostrar temas como “O Caixão Da Razão” (o segundo single de Mundo Cão), “Da Vertigem Sou Mendigo” ou já em jeito de encerramento “O Divã De Tule”. O rock dos Mundo Cão teve pouca sorte no Parque Tejo e deste concerto fica a sensação de que em casa esta banda nos soa bem melhor. A posição demasiado estática e por vezes absorta de Pedro Laginha também não ajudou, e o intercâmbio que se gerou entre banda e público baseou-se essencialmente numa troca de monotonia e preguiça. Foi pena. (Susana Jaulino)

Linda Martini

Gradualmente os Linda Martini vão solidificando a sua posição no espectro musical nacional. Ao marcar presença no festival pelo segundo ano consecutivo, a banda lisboeta consagra um ano de crescimento e desenvoltura, de onde se destaca a edição do primeiro disco de longa duração Olhos De Mongol (2006). Com um núcleo de fãs sólido e fiel, os Linda Martini entregaram no palco do Super Bock Super Rock uma actuação regular e sem grandes surpresas, alimentada pelas três guitarras repletas de ruído e por uma bateria inquietante. Em jeito de introdução à banda, diga-se que os Linda Martini habitam num pós-rock e pós-punk com um toquezinho lusitano, visível não só na palavra mas também nas gutiarras, capaz de agradar a qualquer admirador de Sonic Youth.

Durante 40 minutos os Linda Martini puderam interpretar todos os seus temas mais conhecidos e que se repartem tanto por Olhos de Mongol como pelo EP de estreia. A instrumental “Efémera” ajudou a definir o ambiente de pós-rock que encontrou uma serena continuidade em “Dá-me A Tua Melhor Faca”. Com “Lição de Voo nº1” o público tem a oportunidade de cantar com intensidade ao lado de André Henriques versos que são já lemas no universo da banda, como “Não me deixes ver para além de ti não faz sentido”. O concerto prossegue com a contundente “Cronófago”, a embalante “Este Mar” e a “jóia da coroa” da banda “Amor Combate”. Para o final ficou-nos reservada a extasiante “A Severa” que terminou em absoluto caos em palco, com os membros da banda a lutarem com os seus instrumentos, provocando-lhes mazelas que se ouviram pelos ruídos distorcidos e inquietantes que soltavam.

Para os que já acompanham a banda há algum tempo, este foi apenas mais um concerto. Para os outros, que talvez nem tenham sido assim tantos quanto isso, espera-se que a surpresa e a entrega dos cinco elementos dos Linda Martini lhes sirva para sentirem o pulsar de uma realidade do rock nacional que ainda se encontra em fase de germinação. Já é tempo de parar de falar de Xutos & Pontapés. Venha o pós. (Gonçalo Sítima)

Clap Your Hands Say Yeah

Estes foram uma das surpresas do segundo dia do Act II do Super Bock Super Rock. Pela primeira vez em Portugal, vieram supostamente apresentar o mais recente disco editado no início do ano, Some Loud Thunder, que tinha sido uma desilusão face à estreia homónima da banda há dois anos. Mas talvez por terem consciência que este disco não teve a melhor das recepções, ao vivo decidiram apostar mais nas canções do primeiro registo. Fizeram muitíssimo bem.

A voz de Alec Ounsworth ao início pode soar incrivelmente estranha e até irritante, mas ao fim de algum tempo uma pessoa acaba por se deixar levar por esta voz invulgar. Foi o que aconteceu a muitos dos presentes no recinto do festival, que a pouco e pouco foram aderindo às canções que fazem malabarismos entre a pop e o rock, com a presença dos Talking Heads sempre na sombra. Abriram com um dos temas mais conhecidos da banda, “Satan Said Dance”, que iniciou de forma impecável o espectáculo, onde se ouviram outros belos temas como “Over and Over Again (lost and found)” ou “The Skin of My Yellow Country Teeth”, que levaram os fãs da banda ao rubro e despertaram interesse em muitos dos que desconheciam este grupo de Brooklyn.

Ao fim de uma hora de concerto a banda cumpriu com os seus objectivos e o público mostrou-se entusiasmado. Esperemos que a nível de discos, o futuro da banda seja tão risonho como a sua estreia em palcos nacionais. (João Moço)

Maxïmo Park

Foi um dos concertos do dia. Pela segunda vez em Portugal, os britânicos Maxïmo Park traziam dois álbuns de originais para apresentar: A Certain Trigger (2005) e o recém-editado Our Earthly Pleasures (2007). Foi justamente pelo primeiro tema do último registo que os Maxïmo Park começaram. “Girls Who Play Guitars” deu o mote para um desfile de temas impregnados de indie rock e pós-punk à boa maneira britânica, ilustrada pela entrega extasiante da banda, com especial destaque para o vocalista Paul Smith, sempre comunicativo, tão comunicativo, que tal o impediu de terminar o concerto como seria esperado.

A hora que se seguiu foi repleta de energia. Seguiram-se temas como “Now I’m All Over The Shop” e “Our Velocity”, que aumentaram a frequência e foram aos poucos transformando o Parque Tejo em pista de dança, fruto do número bastante considerável de fãs que os Maxïmo Park fizeram deslocar ao recinto e que não se recusaram a acompanhar Paul Smith em temas como “Limassol” ou a eléctrica e contagiante “Apply Some Pressure”.

Pelo meio ficou “Books From Boxes” e já próximo do fim os Maxïmo Park apresentaram “Your Urge” e a simpática “The Coast Is Always Changing”. Pedia-se mais, e os Maxïmo Park pareciam mesmo querer dar mais, mas em ambiente de festival os horários são menos flexíveis, e uma hora de concerto acabou por ter que ser suficiente para público e banda.

A banda britânica constituiu uma das melhores apostas do Act II do Festival Super Bock Super Rock, e Paul Smith foi, ao longo de todo o tempo que esteve em palco, um excelente anfitrião, com uma boa disposição e uma energia que se espalharam pelo recinto e que deixou poucos completamente indiferentes. Pena que o carácter expansivo de Paul Smith o tenha impedido de encerrar o concerto com chave de ouro, mas depois da excelente prestação dos Maxïmo Park, fica a certeza de que as visitas a Portugal se repetirão, e que serões tão bons ou melhores que este se avizinham. (Susana Jaulino)

The Jesus and Mary Chain

Os Jesus and Mary Chain estão velhos e além do peso da idade, estão sóbrios. Pode parecer ridículo, mas estas duas condicionantes são determinantes para a avaliação do concerto deste grupo mítico. Este era um regresso bastante esperado pelos fãs, uma vez que desde 1998 que o grupo estava em interregno, e além disso não davam um concerto em Portugal há doze anos. Provavelmente por tudo isto as expectativas estavam altas demais.

A postura da banda é fria, toca o que tem a tocar e poucas palavras dirige ao público e manifestações entusiastas também não se vêem. Mas sempre foram assim, não há muito a fazer. O início do concerto não ajudou à desilusão que estava estampada na cara de muitos dos presentes, com a banda ainda a afinar os instrumentos. No entanto o desastre nunca esteve perto.

Durante pouco mais de uma hora a banda de Psychocandy foi desfilando alguns dos seus temas mais conhecidos, que proporcionaram boas memórias e nos fizeram crer que, apesar da loucura de outros tempos já não estar presente, o grupo ainda continua numa forma bastante aceitável, estando cientes de como satisfazer os fãs.

“Some Candy Talking” foi provavelmente o momento do concerto, com a bateria a mostrar uma grande garra. O início teve alguns problemas, mas a grandeza da canção não se deixou abater por isso. As conhecidas “Just Like Honey” ou “Happy When It Rains” foram dos momentos mais aplaudidos, sendo que no final ficámos com uma electrizante “Teenage Lust”. (João Moço)

LCD Soundsystem

Já se sabia que os LCD Soundsystem eram bons, mas ao vivo superam todas as expectativas. A última actuação do grupo de James Murphy em Portugal há dois anos no Sudoeste fez subir as expectativas a um nível muito alto, mas quando se tem o melhor disco de 2007 (Sound of Silver), a coisa não podia correr mal. James Murphy parecia várias vezes durante o espectáculo que estava a supervisionar o trabalho dos seus colegas, para que tudo saísse na perfeição. No final do concerto tínhamos a certeza que melhor teria sido praticamente impossível.

“Us vs. Them” abriu o concerto e deixou o público em euforia, que desde logo se entregou à fusão de rock com funk, pop, disco-sound, punk e house que está presente na música do grupo. Também no início entregaram uma série de singles, tais como “Daft Punk is Playing in My House”, “All My Friends”, “Tribulations” e “North American Scum” que obrigou a que todos os que ali estiveram presentes dançassem compulsivamente, sem pensar que estavam milhares de pessoas à sua volta e que nos mostraram uma banda que ao vivo dá tudo de si, sem falhas e em perfeita sintonia.

O facto de terem tocado logo os seus temas mais conhecidos não impediu que o recinto do Super Bock Super Rock se transformasse numa pista de dança ao ar livre de grandes proporções, como se provou na electrizante “Yeah”, que foi cantada efusivamente por todos

Depois deste tema a banda voltou para um encore que começou de forma calma com “Someone Great”, uma das canções mais emocionantes da banda, que contém estes versos difíceis de esquecer (“There shouldn’t be this ring of silence, but what are the options when someone great is gone, we’re safe for the moment”). Depois seguiu-se-lhe provavelmente uma cover dos Joy Division, para terminarem de forma inesperada com “New York I Love You, But You’re Bringing Me Down”, ode épica dedicada a Nova Iorque à la Lou Reed.

Incontornável é o adjectivo que melhor descreve a actuação de James Murphy e comparsas no segundo dia do Act II do Super Bock Super Rock. Foram os reis da noite e só não digo que foram de todo o festival porque só estive presente dois dias. Os Beastie Boys que se cuidem que têm aqui uns adversários a concerto do ano. (João Moço)

Fotos: Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 4, Julho, 2007.

 
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