13º Festival Super Bock Super Rock – Act II

A encerrar o festival estiveram os Underworld, possivelmente o cabeça de cartaz que menos interesse manifestou no festival. Mas tal não se materializou numa falta de afluência, pois antes do trio britânicos estiveram os Interpol, um dos grandes nomes do rock moderno, que se certificaram que o aglomerado de gente não diminuisse drasticamente. Um deleitoso concerto dos Tv On The Radio e uma colorida e animada actuação dos Scissor Sisters foram outros dos pontos altos do último dia da 13ª edição do SBSR.

:: 5 de Julho de 2007

The Gossip

A banda do Arkansas que tem Beth Ditto como imagem central, proporcionou a uma bem composta assistência um concerto animado, onde se destacou essencialmente a boa disposição da vocalista, que fez questão de estabelecer um elo forte entre banda e público. A acompanhar a vocalista estiveram o guitarrista e baixista Brace Paine e a baterista Hannah Billie, irmã de Jordan Billie, um dos vocalistas dos The Blood Brothers, que actuaram no Act I do festival.

A actuação dos The Gossip incidiu essencialmente no último registo do colectivo, Standing In The Way Of Control (2006), que é já o terceiro trabalho da banda, centrado essencialmente no indie rock. Os The Gossip iniciaram o concerto com “Eyes Open” e além de temas do repertório da banda, o trio incluiu no alinhamento uma versão de “Careless Whisper” de George Michael.

Entre faixas como “Listen Up!” ou “Jealous Girls”, Beth Ditto não se cansou de elogiar o clima, o público e as bandas com quem os The Gossip partilharam o palco, especialmente os TV On The Radio. De um modo geral, fica para recordar a voz de Ditto, que em determinados momentos nos lembra a soul dos anos 60, bem como a sua presença em palco, despida de qualquer preconceito e com reservas de energia sempre em alta.

Não são especialmente interessantes ou inovadores, mas num fim de tarde demasiado quente, os The Gossip cumpriram bastante bem a sua parte e é até possível que a banda de Beth Ditto tenha conquistado alguns admiradores com a sua actuação. (Susana Jaulino)

Tv On The Radio

Os Tv On The Radio eram mais uma das estreias que o festival trazia até ao solo nacional. Com Return To Cookie Mountain a colocar o quinteto nova-iorquino na ribalta da cena independente mundial, eram muitos aqueles que aguardavam a actuação da banda. Liderados por um inquieto Tunde Adebimpe, cujo mover ondulado de corpo e o esbracejar constante incutiu uma vivacidade incontornável ao concerto, os Tv On The Radio não desiludiram. “Young Liars”, do EP de estreia de 2003, foi o primeiro tema da tarde, ao qual sucedeu a energética “The Wrong Way” e “Dreams”. A primeira visita a Return To Cookie Mountain fez-se com os singles “Province”, “Wolf Like Me” e por “Dirtywhirl”.

À medida que o concerto avançava os Tv On The Radio revelavam-se com um absoluto à vontade em palco e uma fluidez impressionantes. Adebimpe não se limitava a vociferar ferozmente e ajudava também na criação “instrumental” através de loops criados no local com a sua voz e assobios. Por seu lado, Kyp Malone deixou a sua guitarra e juntou-se inesperadamente a Jaleel Buntun na bateria para interpretar a quatro mãos “Let The Devil In”. A música dos Tv On The Radio pôde assim possuir uma natureza orgânica constante, mesmo quando navegando em terrenos mais electrónicos.

Para o final ficou a vigorosa “Satellite” e “Staring At The Sun”, concluindo um grande concerto por parte dos Tv On The Radio. O norte-americanos acabaram por ser uma mais valia para o último dia do festival. Sem partilharem a popularidade do rock dos Interpol ou da pop dos Scissor Sisters, a banda destacou-se pela honestidade, originalidade e afectuosa entrega em palco. (Gonçalo Sítima)

Scissor Sisters

A escolha dos Scissor Sisters para integrarem o cartaz do Festival Super Bock Super Rock foi, de longe, a mais contestada, pelo claro desencontro musical que existia entre a banda de Jake Shears e Ana Matronic e as restantes bandas que compunham o cartaz do último dia do festival. Com alguns fãs da banda presentes no recinto (a avaliar pelas plumas e lantejoulas que se viam aqui e ali), a banda não se preocupou minimamente com esse desajuste e ao longo de cerca de uma hora desfilou uma série de temas envoltos num glamour perfeitamente kitsch, que é, de resto, imagem de marca da banda.

O primeiro tema interpretado pela banda foi “Take Our Mama” do álbum homónimo da banda, editado em 2004. Daí para a frente, pudemos observar o exuberante Jake Shears em todas as posições possíveis e imaginárias (cambalhotas incluídas), com mais ou menos roupa – o vocalista acabaria o concerto apenas de calções e gravata.

No meio da energia e irreverência dos dois vocalistas, ouviram-se temas como “Kiss You Off” e “She’s My Man”, e já próximo do fim, o grande hit da banda “I Don’t Feel Like Dancin’”, do álbum Ta-Dah (2006). A encerrar esteve o tema “Filthy/Gorgeous” onde houve tempo para uma encenação de uma cena de sexo oral protagonizada por Ana Matronic e Jake Shears.

Deslocados ou não das restantes bandas que compunham o cartaz, os Scissor Sisters acabaram por dar um concerto divertido e sem o desconforto que poderia surgir perante um público que não se cansou de fazer insinuações acerca da sexualidade dos membros da banda, especialmente Jake Shears. Reinou o brilho pindérico do disco sound moderno com tempero dos anos 80, e foi bom essencialmente pela diferença que marcaram num último dia de festival que estava a ser demasiado monótono. (Susana Jaulino)

Interpol

Arrisca-se em dizer que muito mais de metade dos que se deslocaram ao Parque Tejo no último dia do Festival Super Bock Super Rock o fizeram devido a apenas um nome: Interpol. De facto, a banda de Nova Iorque conquistou já um número bastante considerável de admiradores no nosso país e foi com Our Love To Admire prestes a ser editado que os Interpol visitaram Portugal pela primeira vez, já com segundo concerto agendado para Novembro, desta vez no Coliseu de Lisboa.

Aos primeiros acordes da novíssima “Pioneers To The Falls” o público estava rendido, e foi assim nos cerca de oitenta minutos seguintes, onde a banda fez questão de apresentar um alinhamento equilibrado, com incursões pelos três trabalhos que compõem a sua discografia. Os Interpol apresentaram-se sempre de um modo muito discreto e o vocalista Paul Banks foi de poucas palavras, exceptuando os agradecimentos, que lhe saíram quase sempre num jeito muito tímido.

“Obstacle I”, do álbum Turn On The Bright Lights (2002) proporcionou um dos primeiros momentos altos da noite, que de resto foram quase difíceis de identificar, tal era o entusiasmo que fluía entre o público. Do novo registo ouviram-se “Rest My Chemistry” e “Mammoth”, caracterizadas por um som mais melancólico que os registos anteriores e onde a presença das teclas se evidencia mais. Em evidência esteve também o guitarrista Daniel Kessler, mais interactivo do que os restantes membros, que em determinadas alturas pareciam ligados em modo piloto-automático, o que pode em parte ter prejudicado a actuação dos Interpol.

A passagem por Antics (2004) fez-se com “Slow hands” e “Evil”, ambas recebidas de forma calorosa, eventualmente por ter sido com Antics que os Interpol revelaram por completo o seu pós punk, que já lhes valeu comparações com ícones como os enormes Joy Division. O restante concerto fez-se com temas como “PDA” ou “Stella Was A Diver And She Was Always Down”. Já perto do fim, os Interpol interpretaram “Heinrich Maneuver”, o primeiro single de Our Love To Admire e a belíssima e memorável “NYC”.

A primeira visita dos Interpol a Portugal não poderia ter corrido de melhor forma. A banda esteve próxima da perfeição na execução dos temas e a presença de Paul Banks à frente dos Interpol confere-lhes um carisma descontraído muito próprio. A descarga impiedosa dos temas com pouquíssimas pausas pelo meio fez com que houvesse em parte uma espécie de barreira entre banda e público. Por outro lado, foi justamente este desfilar ininterrupto de música que fez com que as emoções fossem mais fortes de tema para tema. O regresso é esperado envolto em ansiedade. (Susana Jaulino)

Underworld

O encerramento do festival esteve a cargo de um dos maiores nomes internacionais da música electrónica, os Underworld. Com os Interpol a encerrarem a vertente rock no seu sentido mais clássico do festival, coube ao trio britânico composto por Karl Hyde, Rick Smith e Darren Price finalizar a 13ª edição do Super Bock Super Rock numa espécie de after-party de música para dançar. Aqueles que após três dias seguidos de festival, de calor pela tarde, frio pela noite e dezenas de concertos e filas de espera, ainda resistiam na audiência podiam agora deixar-se levar pela música e movimentar o corpo ao som das batidas e dos efeitos electrónicos que emanavam do imponente palco do festival.

A actuação converteu-se num espectáculo audiovisual de belo efeito, com os dois ecrãs laterais a exibirem ambiências abstractas e psicadélicas que acompanharam as músicas do grupo. Um terceiro ecrã, disposto no fundo do palco, reforçava a dimensão visual do concerto, e por ele passaram imagens trabalhadas de Karl Hyde e até do velhinho jogo de computador da Atari, “PONG”. Após algumas canções, o palco transforma-se novamente, desta vez numa espécie de gruta de cristais coloridos, formados por longos balões insufláveis.

Hyde foi, de resto, o elemento mais livre e dinâmico da banda. Responsável pela parte vocal e pela presença da guitarra nas músicas, esteve em constante movimento pelo palco e procurou fazer chegar ao público o calor dançável que sentia. O momento alto do concerto foi, como seria de esperar, “Born Slippy .NUXX”, a famosa canção da banda que faz parte da banda sonora do filme de Danny Boyle, “Trainspotting”. O concerto encerra pouco depois e com ele todo o festival.

Este seria o último regresso a casa e a derradeira saída do Parque Tejo. Para trás ficaram alguns dos melhores concertos do ano e, para muitos dos presentes, alguma vez vistos. Num cartaz que conseguiu ser suficientemente eclético e de elevada qualidade para impedir a eleição de uma actuação que prevaleça sobre as outras, fica a sensação de uma experiência positiva repleta de momentos inesquecíveis. A fasquia ficou bastante elevada, tanto para o Super Bock Super Rock, como para os restantes festivais de Verão. Quão alto poderá a 14ª edição saltar é algo que teremos de aguardar um ano para saber. Por agora, o sentimento é de tarefa cumprida com distinção. (Gonçalo Sítima)

Fotos: Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 5, Julho, 2007.

 
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