Festival Dance Station 2007

O lema do Dance Station era “uma noite, duas paragens”. Entre o Coliseu dos Recreios e a Estação do Rossio puderam-se assistir a novos valores do actual panorama da música electrónica, confirmaram-se outros enquanto que a alguns o tiro saiu pela culatra. Os mais esperados da noite foram os Chemical Brothers, mas tal não fez com que dessem o concerto da noite.

:: 12 de Julho de 2007

O início do festival fez ameaçar uma fraca adesão do público, uma vez que este é o terceiro grande festival que a capital recebe num mês e meio, num ano que já de si está a ser o mais rico em concertos, sendo que as bolsas não dão para tudo. Mas foi só uma ameaça e apesar de nenhum dos espaços ter esgotado, ambos estiveram bem compostos para um evento único em Portugal, pois não será de esperar mais espectáculos em espaços como a estação do Rossio.

 

!!!

Depois dos cancelamentos dos concertos em Abril passado, este regresso dos !!! (chk chk chk) era muito esperado, mas tal como Nic Offer (vocalista da banda) deixou claro durante o concerto, a hora que lhes foi atribuída não era a mais apropriada para o turbilhão de vivacidade e folia que um concerto dos !!! comporta. No entanto foram eles os responsáveis pelo melhor concerto que se assistiu no Dance Station, batendo claramente os cabeças de cartaz: Air e Chemical Brothers.

Para descrever a postura do líder dos !!! é impossível não recorrer ao cliché de “animal de palco”, mas tal assenta que nem uma luva à forma como Nic Offer se comporta. Ele canta e dança desbocadamente ao som do funk psicadélico contaminado de rock dançante, que fizeram o público vibrar intensamente. Inicialmente estavam poucas pessoas mas à medida que a festa ia crescendo, o Coliseu dos Recreios ia compondo-se cada vez mais. Apesar de nunca ter esgotado, para o fim do espectáculo o espaço estava longe de estar às moscas.

A acompanhar em certos momentos os sete irreverentes !!! esteve Shannon Funchess (definida por Nic Offer como “a mulher mais bonita dos EUA”) que deu o toque soul às canções da banda e que juntamente com o vocalista obrigaram o público a dançar até mais não.

Foram várias as vezes que Nic Offer desceu até à plateia para se misturar com o público, chegando mesmo a fazer uma disputa de dança com um dos fãs. Além de excelentes músicos em palco, os !!! revelaram-se grandes performers, sem serem necessários quaisquer aparatos visuais e por isto (e muito mais) levam o galardão de concerto do festival.

Air

Bem mais recheado de público esteve o concerto dos Air, que regressaram a Portugal depois da última actuação no Festival Sudoeste em 2004. Começaram calmos, apresentando os novos temas de uma das maiores desilusões do ano, Pocket Symphony. Se em disco estes temas revelavam-se algo insonsos, ao vivo não melhoraram assim tanto, o que se revelou claramente também na atitude do público que reagia muito mais efusivamente aos antigos temas do grupo (mesmo os do registo anterior ao deste ano) do que aos novos, que não têm chama nem despertam grande interesse.

Felizmente a dupla francesa (acompanhada de mais três músicos) não tocou muitas das novas canções, apostando num alinhamento onde figuraram alguns dos seus melhores temas como “Kelly Watch the Stars” (um dos momentos altos do concerto, que levou a que todos os presentes flutuassem num céu estrelado mesmo num recinto fechado), o hipnótico “Run” ou já no encore uma versão instrumental “Playground Love” (como é bom recordar os tempos de liceu!) e “Sexy Boy”.

Se o espectáculo começou de forma calma, à medida que se ia desenrolando foi adquirindo uma faceta mais psicadélica, não tão óbvia em disco, mas que ao vivo nos fomenta a imaginação e leva o público a dançar, mas menos efusivamente e com mais requinte. Expectativas correspondidas e esperemos que regressem com um disco melhor.

Fischerspooner

Os Fischerspooner querem ser os Pet Shop Boys, mas claramente aqueles Fischerspooner que vimos no Coliseu dos Recreios nunca vão chegar ao nível da mítica banda inglesa.

Para eles um concerto é algo que ultrapassa o acto de simplesmente tocar em tempo real as suas canções para um público: Eles fazem de um concerto algo performativo, um espectáculo quase teatral, que vai desde o freak show ao travestismo, mas tanto aparato acaba por não convencer.

Case Spooner, o vocalista e líder do grupo nova iorquino, entrou vestido à toureiro, com uma rede para o cabelo e a cara de branco. A restante banda também tinha a face de branco, mas com fatos espaciais prateados, da mesma cor que as três bailarinas que os acompanhavam. Por entre coreografias, projecções em tela e constantes mudanças de roupa, o grupo foi tocando alguns dos seus temas mais conhecidos e outros novos de um disco ainda por lançar, sempre com a electro-pop como bandeira estandarte. Contudo, foi constante a sensação de que todo aquele espectáculo visual quer esconder uma fraca criatividade em criar canções pop (exceptuando o single “Never Win” e um ou outro tema pontual). Além disto, o facto do vocalista cantar por cima duma voz pré-gravada não melhorou a actuação.

No entanto, grande parte do público que preenchia o Coliseu vibrou ao som de um dos poucos colectivos sobreviventes do electroclash, que sempre se mostrou parco em criatividade e que ao vivo, apesar do esforço, não melhorou tal condição.

Chemical Brothers

A estação do Rossio foi o local perfeito para receber novamente os Chemical Brothers em Portugal. Que espaço simboliza mais o urbanismo que uma estação de comboios? A amálgama de registos electrónicos de que esta dupla é responsável vive muito deste espírito cosmopolita, por isso é de louvar esta iniciativa de produzir uma série de concertos numa estação de comboios, apesar de, infelizmente, ser improvável que tal se volte a repetir num futuro próximo.

Os Chemical Brothers são daqueles grupos que à partida já têm o concerto ganho. O sucesso e notoriedade que amealharam ao longo dos anos assim o ditou e já há muito que as suas actuações ao vivo são míticas. No entanto, desta vez nem tudo foi perfeito.

Visualmente é incrível o poder que têm, premiando-nos com o melhor das tecnologias multimédia, que absorvem e contagiam o público. Mas sentiu-se ao longo da hora e meia de espectáculo um erro que a dupla se deixou levar demasiadas vezes: as passagens demasiado longas entre os temas. Tal levou a momentos que se aproximaram do monótono, mas quando nos brindavam com os seus temas, havia uma explosão incrível de energia que obrigava à dança.

Temas muito conhecidos como “Galvanize” (logo a abrir o espectáculo), “Hey Boy Hey Girl” ou “Get Yourself High” levaram o público ao rubro e várias vezes misturavam-se com alguns dos melhores dos novos temas do mais recente disco We Are The Night. Foi bonito ver tanta gente a dançar num espaço a que muitas vezes se associa ao stress de chegadas e idas, seja para onde for. No final só não foi melhor mesmo pela razão já acima descrita, mas é inegável a força que o caldeirão de sonoridades electrónicas que a música dos ingleses desencadeia nas pessoas.

Digitalism

Por volta das três e meia da manhã vários resistentes ainda se dirigiram ao Coliseu dos Recreios para assistir ao grupo que iria fechar o festival, que no Coliseu sucederam aos portugueses Spaceboys. E foi uma escolha mais que acertada terminar com os alemães Digitalism, que regressaram a Portugal depois da passagem pelo festival Creamfields para apresentar a belíssima estreia Idealism.

Os Digitalism, a par dos Justice ou Simian Mobile Disco (que inicialmente foram um dos nomes avançados para comparecer no festival, juntamente com os Junior Boys, mas ambos acabaram por cancelar as suas actuações) fazem parte duma nova vaga de bandas que recupera muito do estilo rave, juntando-o a uma linguagem rock que casa com as mais variadas correntes electrónicas.

Ao vivo mostraram todo o fulgor que a sua estreia já nos deixava antever e apesar do cansaço de muitos dos resistentes, foi impossível não nos entregarmos a um dos melhores novos valores da música electrónica.

A dupla várias vezes surgia envolta em tons negros, enquanto passavam imagens por trás a preto e branco e em forma de banda-desenhada, que nos transportavam para um clube mais restrito numa cave de Paris (onde esta nova linguagem electrónica é mais prolífera, ou não fossem os Daft Punk uma das maiores referências para estes grupos).

Durante uma hora a dupla viajou desde os tempos áureos do clube Haçienda em Manchester no final da década de 80, até ao século XXI, com paragem obrigatória na electrónica de toque francês de fins dos anos 90, o que obrigou todos os presentes a festejar um final em grande de mais um festival que Lisboa recebe. O single “Pogo” foi o tema que ditou esse final e que só comprovou que estes Digitalism são para seguir com atenção num futuro próximo. Esperemos que para o ano haja mais danças.

texto: João Moço
fotos: Isa Costa

Anúncios

~ por hiddentrack.net em 13, Julho, 2007.

 
%d bloggers like this: