Recoil – Liquid

A história de Liquid começa em 1994, ano em que decorreram os acontecimentos que o inspirariam. “Black Box” relata o que aconteceu: “The weather was absolutely perfect on this morning, so we could see everything very clearly. You knew that there had been a terrible eruption but you couldn’t see any machinery, you just see this collapsing ice“. Um avião caíra perto do carro de Alan Wilder. “Black Box”, que marca o início e o fim do álbum, recria o paradoxo entre a situação trágica e a impávida natureza, em que o chilrear dos passarinhos se mistura com o cheiro a combustível. O resto do álbum procura concretizar o que terá passado pela cabeça do piloto nos últimos 30 segundos da sua vida, quando a queda estava eminente.

O tom de narrativa percorre todo o álbum e talvez por isso quase todas as músicas sejam faladas, à excepção de “Jezebel”, em que Alan mais uma vez aproveita gravações de blues para lhes conferir uma nova roupagem, e de “Strange Hours”, sob a égide da corrosiva e genial Diamanda Galás. Esta faixa é um exemplo do quão boa a música de Alan pode ser. Tudo começa com sons retirados do mundo real que indiciam um espírito boémio, frequentador da noite. A voz de Diamanda Galás torna-se o centro das atenções, acompanhada por energéticos e firmes acordes de guitarra e por uma bateria persistente, e intercalada com um refrão épico e sentimental. Tudo termina com a ameaça “I’ll be waiting for you” e com uma herética sequência semelhante a uma sessão espírita.

“Breath Control” é também um caso de sucesso, conseguindo subverter a lógica de que uma música falada implica falta de melodia e desinteresse. A sensualidade e mistério da voz de Nicole Blackman e a ritmo tímido encaixam na perfeição com a história de experiências sexuais perigosas, culminando com a entrada em cena dos instrumentos de sopro.

Mas se em “Breath Control” Alan foi bem sucedido, o mesmo não se pode dizer de “Last Call for Liquid Courage” e “Supreme”, as duas com a voz de Samantha Coerbell, que não foi além de uma performance inócua, num tom quase monocórdico incapaz de suscitar a mais pequena emoção. Para além da óbvia culpa de Coerbell, Alan tem também grande responsabilidade, sobretudo em “Last Call for Liquid Courage”, faltando a noção de conjunto, a harmonia dos diferentes elementos, uma linha melódica clara que oriente a música.

Liquid é um álbum interessante, mas difícil de ouvir, muito por culpa da profusão de músicas faladas, em que a melodia não é óbvia e, em certos casos, praticamente não existe, o que só contribuiu para que o nome Recoil fosse associado ao pretensiosismo artístico. Esta crítica é até certo ponto merecida neste álbum, embora haja também uma lógica interna que muitas vezes não é apreendida por pura má vontade ou preguiça. Se o objectivo de Alan era fazer um álbum narrativo, com pequenas histórias que se vão encaixando, então Liquid conseguiu atingir o que era pretendido. Se Alan queria calar os críticos que o acusavam de ser sobretudo um produtor, então este não terá sido certamente o melhor caminho.

8/10 | João Oliveira

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~ por hiddentrack.net em 13, Julho, 2007.

 
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