Recoil

Melancolia Electrónica

Martin Gore considera-o um misantropo, obcecado pelo controlo. Ele próprio assume-se como cínico e sarcástico. Os críticos vêem-no como narcisista e pretensioso. Mas serão estas características defeitos ou virtudes? Será Alan Wilder um iluminado, ou simplesmente um presunçoso? Seja qual for a resposta o certo é que Alan, com o seu projecto Recoil, tem apontado novos caminhos no mundo da música, recusando rótulos, destruindo barreiras e enfrentando o instituído. Em contrapartida teve de abrir mão de uma posição dianteira no mundo da música, restringindo-se a universos paralelos em que a música vale pelo que é e não pelo dinheiro que gera. Um bom sítio para se estar.

Música para as Massas

Com apenas 11 anos o interesse de Alan pela música era já evidente. Tocava piano e flauta e fazia parte da orquestra da sua escola. Para este interesse terá certamente contribuído a sua família, nomeadamente a experiência de um dos seus irmãos como pianista clássico e do outro como professor de música na Finlândia. Habituados a verem os seus filhos a dedicarem-se à música erudita, foi com alguma surpresa que os pais de Alan viram o seu filho a integrar uma banda de soft rock chamada The Dragon. Nesta altura, e depois de várias tentativas para assinar um contrato com um estúdio, Alan contentava-se com um a entrada no mundo da música pela porta de trás, sendo “tea boy” nos estúdios da DJM.

Alan dedicou-se depois mais ao jazz e blues e acabou por fazer parte de um banda New Wave chamada Daphne and The Tenderspots e seguidamente dos The Hit Men. No final de 1981 o Melody Maker publica um anúncio para recrutar um teclista para uma banda. O desesperado Alan, farto de um percurso errante e pouco frutífero, decide tentar a sua sorte. A banda em causa era, nada mais nada menos, que os Depeche Mode, que após a edição do seu primeiro álbum viram Vince Clarke, o autor de quase todas as músicas, sair da banda. A facilidade de Alan para lidar com teclas valeu-lhe a contratação, que inicialmente seria apenas para funcionar como músico de apoio nos concertos. E por isso Alan não foi chamado a participar nas sessões de gravação de A Broken Frame, uma mágoa que nunca conseguiu ultrapassar totalmente.

No final de 1982 Daniel Miller, o patrão da Mute, ligou-lhe para o informar que a banda decidiu que ele se tornaria um membro oficial. “Get the Balance Right” foi a primeira música dos Depeche Mode em que colaborou, tendo ainda co-escrito para o respectivo single o b-side “The Great Outdoors”, talvez uma das piores músicas que a banda editou. De seguida começaram as gravações de Construction Time Again, o álbum mais experimental da banda, para o qual Alan contribuiu com as músicas “Two Minute Warning” e “The Landscape Is Changing”. Nesta época volta a co-escrever uma faixa com Gore, intitulada “Work Hard” e que seria editada como b-side do mítico “Everything Counts”, e assumiria por completo “Fools”, o b-side de “Love in Itself”.

A contribuição de Alan enquanto compositor continuaria no álbum Some Great Reward com “If You Want”, e com o b-side “In Your Memory”, incluído no bem sucedido single”People Are People”. A última música que escreve é uma vez em parceria com Gore, dando origem a “Christmas Island”, o b-side de “A Question of Lust”, aquela que será certamente a melhor faixa que compôs enquanto membro dos Depeche Mode. A partir daí Alan percebeu que não valia a pena tentar competir com Martin, não propondo mais nenhuma música. O seu papel começou cada vez mais a ser o de produtor, intervindo sobretudo quando se tratava do caminho a seguir com uma faixa. O primeiro grande embate com Martin ocorreu em 1985, tendo como pretexto o single “It’s Called a Heart”, editado para promover a colectânea The Singles 81-85. Alan considerava que a escolha desta música para single era um erro crasso e que significaria um retrocesso em termos sonoros, achando preferível a música “Fly on the Windscreen”. No fim a banda não o ouviu e o single revelou-se um relativo fracasso.

Outro desacordo entre Alan e Martin foi quanto à música “To Have and To Hold” de Music for the Masses. Alan queria dar-lhe um tom mais marginal, mas Martin preferia algo mais leve. Desta vez Alan conseguiu levar a sua avante e a sua versão foi a escolhida para o álbum, sendo a de Martin relegada para Mix. Estes confrontos eram o reflexo de um esgrimir de forças entre os dois, isto porque Martin via Alan como uma figura secundária, uma espécie de assistente de produção, cuja missão era trabalhar as músicas escritas por si da maneira que ele achava mais conveniente. Alan não estava disposto a assumir uma posição de subserviência e, à medida que a sua importância na produção ia crescendo, foi adoptando uma postura cada vez mais contestatária, não hesitando em confrontar Martin.

Mas Martin não era o único problema de Alan nos Depeche Mode, e nem sequer era o maior! A verdadeira dor de cabeça de Alan era Fletcher que, apesar dos seus conhecimentos musicais limitados e de ter sobretudo a uma função de agente, insistia em tecer considerações sobre o trabalho de Alan. E esta terá sido uma das principais razões que levaram Alan a em 1995 decidir sair da banda.

A maior dívida que os fãs dos Depeche Mode têm para com Alan chama-se “Enjoy the Silence”, que sem ele seria uma balada romântica, tocada em órgão de igreja. Alan pressionou Martin a dar outra vida à música, algo a que ele se opôs prontamente por achar que o nome não era compatível com um som dançável. Foi Alan que propôs a aceleração da música. Foi Alan que surgiu com a batida. Enfim… “Enjoy the Silence” não pode ser vista apenas como a expressão da genialidade de Martin enquanto compositor, mas também da genialidade de Alan enquanto produtor.

Enfim sós!

O desgaste dos últimos anos nos Depeche Mode, particularmente o tumultuoso processo de gravação de Songs of Faith and Devotion, o melhor álbum da banda, e a destrutiva mega tournée, impulsionaram Alan a sair de uma vez por todas. Já tinha começado a trilhar o seu caminho a solo com o projecto Recoil, que se iniciou em 1986 com a edição de 1 + 2, um mini álbum com 2 músicas que pouco mais eram que uma mescla algo aleatória de vários samples de músicas dos Depeche Mode. Em 1988 a experiência continuou com o experimental Hydrology, ainda num formato muito rudimentar, que viria a ser aprimorado em Bloodline, editado em 1992.

Livre dos seus compromissos com os Depeche Mode, Alan apostou na continuidade do projecto Recoil, em que grande parte do produto final é feita por si, contando com a colaboração de vozes e letristas. Em 1997 Alan mostraria o quão aprimoradas estavam as suas capacidades de produção com inovador Unsound Methods, caminho que continuaria em 2000 com Liquid.

O reconhecimento comercial do seu trabalho não tem sido conseguido, muito porque a própria Mute se limita a catalogar a sua música como difícil, e portanto não lhe concede grande atenção em termos de promoção. Apesar de tudo Alan não desiste e passados sete anos regressa com o álbum subHuman, coerente com a sonoridade dos anteriores, se bem que mais ousado e menos electrónico. Não se espera que Alan consiga vender muitas cópias do seu álbum, mas esse não é seguramente o seu objectivo. Mais que o sucesso comercial, o que Alan procura é um sucesso artístico, e esse seguramente já o atingiu.

João Oliveira

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~ por hiddentrack.net em 13, Julho, 2007.

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