The Knife – Silent Shout

theknife-silentshoutEstá calor. Um calor infernal. Tento de todas as formas refrescar-me. Nenhuma resulta, o calor volta sempre a atacar, e em força. Então, deparo-me com Silent Shout dos Knife. Já desesperado por não conseguir fazer nada, quase sufocado neste calor, decido ouvir o disco. É uma boa forma de esfriar, nem que seja só mentalmente.

Este já é o terceiro registo da dupla sueca, formada pelos irmãos Olof e Karin Andersson. Silent Shout é gelado, composto por coordenadas electrónicas milimétricas, tudo cuidado ao pormenor, só possível com a frieza das máquinas.

A Suécia sempre foi prolífera em criar canções pop-electrónicas. No entanto, as canções destes Knife não têm o açúcar e a luminosidade que se costuma associar à pop sueca. As canções que neste registo podemos ouvir são bem mais soturnas, como se tivessem nascido em grandes indústrias abandonadas, mas com toda a sua maquinaria em perfeita mobilidade.

Poderá talvez referenciar-se a pop-electrónica dos anos 80 como influência presente na música dos Knife. Não desminto, mas é algo que serve apenas como uma base muita fina, algo presente de forma muito muito subtil, algo que não asfixia em nada a música do duo. Até porque Silent Shout vai muito mais além que isto. Em todas as suas canções está presente uma estranheza, uma distância face ao ouvinte. Esta não é uma música que esteja presente no nosso quotidiano.

Silent Shout cria uma espécie de barreira entre si e o ouvinte. Essa barreira é como se fosse um vidro, e é na ânsia de querer descobrir o que está por trás desse vidro, embaciado e ofuscante, que voltamos sempre a ouvir este disco uma e outra e outra vez.

Apesar da frieza destas canções, de tantos pormenores industriais, das vozes completamente manipuladas, como se nada disto fosse humano, nem mesmo as vozes, há em certos momentos um apelo para a dança. É estranho, mas acontece. Ao ouvir o ritmo sincopado de “We Share Our Mother’s Health”, o corpo não resiste a abanar as ancas. Nem que seja sozinho, apenas rodeado de máquinas. Só um erro a apontar: a participação vocal de Jay-Jay Johanson em “Marble House”, música esta que estaria melhor sem o sueco.

A música deste Silent Shout é como uma grande ilusão hipnótica, que experimentamos da primeira à última canção, uma viagem que ainda tem paragem (mas que parte de seguida) no techno minimalista de gente como Matthew Dear ou Ellen Allien.

Neste Verão abrasador, vale bem a pena ouvir Silent Shout para refrescar a mente e o espírito. O corpo, esse continua a suar, infelizmente.

8/10 | João Moço

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~ por hiddentrack.net em 22, Julho, 2007.

 
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