Smashing Pumpkins – Mellon Collie And The Infinite Sadness

smashingpumpkins-melloncollieQuando se podia pensar que só dificilmente os Smashing Pumpkins repetiriam um álbum tão perfeito quanto Siamese Dream, dois anos após a edição do segundo trabalho, o quarteto encabeçado por Billy Corgan edita um álbum conceptual, duplo, de seu nome Mellon Collie And The Infinite Sadness. Este foi muitas vezes apontado como “o” disco dos Smashing Pumpkins, tendo sido inclusive considerado um dos melhores álbuns dos anos 90 pela revista Q. Sem ser exagerado, Mellon Collie And The Infinite Sadness não consegue superar o esplendor do anterior, sobretudo porque é um resgisto demasiado grande, mas que não fazendo sentido sem uma das partes, se torna demasiado cansativo para uma audição descomprometida. E este será o único senão que poderemos apontar ao terceiro trabalho dos Smasing Pumpkins.

Como álbum conceptual que é, merece ser desvendado o objecto por detrás da sua composição. Neste trabalho, os Pumpkins procuraram unir todos os temas através de um elo que de alguma forma simbolizasse o ciclo da vida e da morte, explorando a condição humana e o sentimento de angústia que nos domina quando somos confrontados com a morte. Estamos perante um álbum muito diversificado, onde a banda recorreu a instrumentos e recursos muito distintos, criando ambientes muito variados, mas que não deixam de ser únicos por apenas poderem decorrer da audição de determinados temas. Depois do interlúdio que prepara a audição da primeira parte do álbum (“Dawn To Dusk”) somos imediatamente arrebatados por “Tonight, Tonight”, um tema de contornos épicos, orquestrado de um modo para lá do perfeito, onde o desfecho nos arrasta para um espaço interestelar. E é impossível esquecer o vídeo que acompanhou o tema, realizado por Jonathan Dayton e Valerie Faris, com um aspecto de filme mudo do início do século XX, e ao mesmo tempo com cores deliciosas e de fantasia.

Após este começo brilhante, de imediato voltamos a um estado mais cru e agressivo, “Jellybelly” prepara terreno para “Zero”, um dos temas mais fortes do ponto de vista lírico que Billy Corgan alguma vez escreveu, capaz de despoletar motins às palavras ”wanna go for a ride?”. A ilustrá-lo, a célebre camisola que Corgan envergou durante boa parte da digressão de Mellon Collie And The Infinite Sadness. “Zero” é mais que um simples tema, é o hino de um desencanto que toma conta de nós. E o álbum segue, e logo a seguir voltamos a esbarrar com um daqueles temas incontornáveis da carreira dos Smashing Pumpkins (se eles se encontram ao longo de Mellon Collie And The Infinite Sadness) – “Bullet With Butterfly Wings”, irreverente, agressiva, angustiada, um monstro enraivecido e demolidor. Este foi o tema que verdadeiramente colocou os Smashing Pumpkins no topo, numa altura em que se começava a fazer o rescaldo do grunge e se exigia algo diferente, mas onde os sentimentos estivessem igualmente em permanente ebulição. Sem serem um fenómeno, os Smashing Pumpkins conquistaram com este trabalho um lugar muito particular donde não seriam destronados, independentemente do que se seguisse.

Até ao fim da primeira parte de Mellon Collie And The Infinite Sadness continuamos a assistir a um desfile de temas impressionantes pela qualidade e coesão que transparece deles. Justas referências a “Fuck You (An Ode To No One)”, “Cupid De Locke” (atentem aos pormenores das tesouras) e “Galapogos”, onde transparece o génio de Corgan para a criação de temas transbordantes de emoções tão distintas, mas que ainda assim coexistem em harmonia, numa oscilação de dinâmicas que, quando reportamos ao tema do trabalho, ilustram de facto a oscilação dos nossos próprios sentimentos e disposições.

Eis que entramos na segunda parte do trabalho – “Twilight To Starlight” – depois do primeiro disco ter findado com um verdadeiro épico, “Porcelina Of The Vast Oceans”. “Where Boys Fear To Tread” entra em conjunto com “Bodies”, uma dupla que se impõe no mesmo segundo em que se iniciam os temas, especialmente a última, onde a interpretação de Billy Corgan é amarga, dorida e crua. E depois de um verdadeiro ciclone de dimensões quase catastróficas, entramos num outro domínio, pacífico muito ao jeito de temas como “Tonight, Tonight” ou mesmo “Disarm”. Um tema revestido de uma inocência quase adolescente, repleta de quadros urbanos tão banais quanto ao mesmo tempo significativos, uma história de amor, “Thirty-three”, um dos temas centrais do trabalho, incontornável a cada segundo. Segue-se “In The Arms Of Sleep”, muito colada ao tema que a precede e logo a seguir “1979”, onde deparamos com as mais fortes marcas electrónicas de todo o álbum. Os pormenores cáusticos são recuperados em “Tales Of A Scorched Earth”, onde a voz de Corgan está tão distorcida quanto a guitarra e é no ritmo oscilante que já caracterizara a primeira parte do álbum que avançamos ao longo de “Twilight To Starlight”. Não esquecemos as descargas de alta-voltagem em “X.Y.U.” nem o toque experimental em “Beautiful” e caminhamos calmamente para o fim de Mellon Collie And The Infinite Sadness, quase como quem dá os últimos passos, imagem que “Farewell And Goodnight” ilustra perfeitamente, um tema em que temos a oportunidade de ouvir todos os membros da banda a cantar.
Mellon Collie And The Infinite Sadness é um álbum dotado de uma beleza triste que se grava e se impõe cada vez mais a cada nova audição . Em termos de impacto, aproxima-se muitíssimo do anterior Siamese Dream. No entanto, a sua larga extensão prejudica a apreciação do trabalho, uma vez que todo o seu tempo de duração é necessário para apreender na totalidade todos os pormenores que o compõem. Alguns dos melhores momentos da música moderna encontram-se encerrados em Mellon Collie And The Infinite Sadness. Todo o seu estatuto é reconhecido e justificado, e este é, sem qualquer sombra de dúvida, um álbum intemporal.

9/10 | Susana Jaulino

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~ por hiddentrack.net em 28, Julho, 2007.

 
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