Liars – Liars

Os últimos dois discos dos Liars colocaram-nos na lista do que de melhor e mais vanguardista se tem feito no rock neste início do século XXI. Desde as bruxarias noise de They Were Wrong, So We Drowned, às percussões de múltiplas personalidades em Drum’s Not Dead, os Liars transformaram-se num dos muitos poucos grupos dentro do indie rock (e metê-los neste saco talvez não seja o mais apropriado) que consegue surpreender-nos, dar-nos murros no estômago e trocar-nos as voltas.

Agora, depois de experiências sónicas estimulantes em álbuns com fortes conceitos por trás deles, o trio de Nova Iorque volta ao ataque, com um álbum homónimo. Aqui não existem conceitos, apenas uma vontade de fazer um belo disco rock, que não descura do passado para inovar e que surpreende por seguir a via das canções, e não uma via mais experiemtal como lhes era habitual.

“Plaster Casts of Everything” lembra-nos as actuações da banda, cruas e viscerais, com um espírito frenético que tudo irrequieta. Riffs do rock dos anos 70 como se só fizessem sentido por uns Liars enamorados pelo punk em 2007. Depois do suor rock’n’roll deste single, chega-nos “Houseclouds”, com uma batida punk-funk e cheia de pormenores electrónicos, enquanto uma linha de baixo atravessa todo o tema com o seu peso hipnotizante. Transporta-nos para um espaço etéreo, num limbo entre Madchester e o punk-funk de Nova Iorque. Não se esperava bem isto já a esta altura do campeonato.

“Leather Prowler” relembra-nos a veia experimental deste trio, com percussões e baixo a marcarem um ritmo cavernoso, drones que intensificam o clima assustador, vozes que se ouvem num eco desesperante. Mais à frente em “Cycle Time” deliciamo-nos com as guitarras psicóticas que ora correm alucinadamente atrás de si mesmas, ora se esfaqueiam umas às outras.

Logo de seguida pensamos que estamos a ouvir os Jesus & Mary Chain em “Freak Out”, sem que estejamos a ouvir uma “cópia chapada”, pois os Liars são demasiado inteligentes para que se limitem a isso como grande parte do indie rock. “Clear Island” volta a recuperar o rock’n’roll com pêlo na venta, mas onde estão presentes uma série de pormenores que fazem toda a diferença. Sonoridades electrónicas escondem-se e confundem-se com as guitarras, assumem outras formas, produzem pormenores que só com várias audições e muita atenção se descobrem, outras vozes encontram-se submergidas pela voz de Angus Andrew e como já disse, tudo isto faz a diferença.

O disco acaba na paz de “Protection”, com sintetizadores em modo ambiental à Brian Eno, que mostram uma certa fragilidade, mas também versatilidade do som dos Liars.

Liars faz uma espécie de resumo do que a banda é, ao fim de sete anos de carreira, utilizando canções para nos relembrarmos como eles misturam tão bem noise, art-rock, funk, punk, rock’n’roll, agora num formato mais convencional do que dantes, mas nem por isso menor, pois sem eles a música actual seria bem mais pobre.

8/10 | João Moço

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~ por hiddentrack.net em 27, Agosto, 2007.

 
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