Rx Bandits – …And The Battle Begun

Não é raro passar-nos pela cabeça a possibilidade de que tudo o que havia para ser pensado e criado de verdadeiramente original já o tenha sido algures no tempo. Na música, especialmente após a mercantilização canibal gerada pelos meios de comunicação de massa, este pensamento torna-se bastante recorrente. Não é raro, de facto, assistirmos a uma recriação de velhas fórmulas, a uma reconstrução inócua do que se fez de original e íntegro. O mercado assim o exige. O público assim o exige também.

No entanto, e despindo o pessimismo que este texto possa começar a tomar, vão surgindo aqui e ali bandas que nos motivam e nos fazem crer que existirá sempre algo além do pré-fabricado, do cómodo e do fácil. Que existirá sempre arte a ser criada. Uma das ferramentas para atingir esta qualidade subjectiva (a de ser ou não arte) tem sido a fusão de géneros, a multidisciplinaridade musical, o espírito aberto e educado de um grupo de músicos juntos numa mesma sala de ensaio. Um desses grupos são os norte-americanos Rx Bandits. Digo eu.

Ao quinto disco de longa duração, os Rx Bandits atingem um estado de maturação que, para além de natural, é um verdadeiro deleite para o ouvinte. O progresso da banda pelo rock, vestido de ska, punk e reggae, foi notável. Incorporando disco após disco novos tentáculos sónicos, avançando nas composições das canções e conseguindo soar quase sempre completamente fresco e original, não é de estranhar que os Rx Bandits sejam uma das bandas de referência do dito rock progressivo actual. Perceberam? Progressivo! Apesar de muitos pensarem que para caber nesta gaveta sonora basta deambular entre solos esquisitos e espaciais, ou inventar letras pseudo-surrealistas, os Rx Bandits demonstram-nos que a verdadeira noção do rock progressivo encontra-se na dialéctica sonora de avançar em frente, de experimentar mantendo uma identidade de banda que não defraude o ouvinte (nem os próprios músicos).

Verdade seja dita, …And The Battle Begun é o momento onde os Rx Bandis se encontram no seu estado mais rock e experimental. O quinteto não perdeu as suas características seminais, como as guitarras e ritmos tropicais, os instrumentos de sopro como o saxofone ou o trombone, e a percussão. E claro, os clássicos instrumentos rock. Dando continuidade ao trabalho feito no álbum anterior, The Resignation (2004), And The Battle Begun é ligeiramente melhor em todas as vertentes da musicalidade e capacidade criativa da banda. “Untitled”, introdução em a capella de Matthew Embree, deixa-nos na cabeça os versos que iremos ouvir novamente em “1980” e “Epoxi-Lips”, produzindo um interessante momento de familiaridade e reminiscência no interior do disco logo à primeira audição. Com o tempo, essa familiaridade estender-se-á a todo o disco, e não será de estranhar o cantarolar quase instantâneo em “Only For The Night”, “A Mouth Full Of Hollow Threats” ou “Apparition” (canção com curiosas semelhanças aos The Police).

A faixa homónima do disco é um excelente começo, flutuando entre o rock acelerado, os interlúdios ligeiramente electrónicos e etéreos, e guitarras electrizantes. A banda não se restringe durante um único momento, revelando a cada faixa toda a sua força e capacidade. Com “On A Lonely Screen” deparamo-nos com uma espécie de reggae-punk-rock contestatário com as palavras Matthew Embree em especial destaque. Já as oscilações e riffs de “One Million Miles An Hour Fast Asleep”, “Tainted Wheat” (com uma notável secção rítmica) ou “To Our Unborn Daughters” (atentem no final psicadélico e “zeppeliniano”) conseguirão convencer qualquer apreciador dos The Mars Volta. De certa forma, os Rx Bandits usam uma linguagem musical semelhante à dos portugueses Primitive Reason, embora se percam mais no mundo onírico que no legado tribal e ancestral.

Qualquer tema do álbum possui uma força vigorante e luzidia. É este um dos grandes trunfos de And The Battle Begun. Dos momentos simples de “Apparition” e “In Her Drawer” aos frenéticos riffs em “1980” ou “To Our Unborn Daughters”, existe um pouco de tudo neste disco. Sistematicamente, as partes formam um todo de magna dimensão. Povoado por uma carga lírica bastante positiva e reivindicativa, uma quase constante “chamada às armas”, tão típica de universos como o ska e reggae, And The Battle Begun consegue toldar o rock de fusão com algo significativo. De Jimi Hendrix a Bob Dylan, passando por Lord Byron (cuja obra poética inspirou o título do álbum), as letras dos Rx Bandits evidenciam a mesma capacidade de absorção do que os rodeia que a sua música. Uma banda que continuará, sem dúvida, a progredir pelo seu próprio caminho – “Cuz’ the only thing that is constant is the change”.

8/10 | Gonçalo Sítima

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~ por hiddentrack.net em 27, Agosto, 2007.

 
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